Múcio diz que atos em quartéis são da democracia e que escolheu cúpula militar pela internet
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, tomou posse nesta segunda-feira (2) e afirmou que as manifestações antidemocráticas em frente aos quartéis-generais são “da democracia” e devem perder apoio aos poucos, sem repressão.
“Na hora que o ex-presidente [Jair Bolsonaro] entregou o seu cargo, saiu [do país], e o [ex-vice-presidente Hamilton] Mourão fez o pronunciamento e pediu que as pessoas voltassem aos seus lares. Aquelas manifestações no acampamento, e eu digo com muita autoridade porque tenho familiares e amigos lá, é uma manifestação da democracia”, disse a jornalistas.
“Eu acho que aquilo vai esvair e chegar até um ponto que todos queremos.”
Conhecido pelo perfil discreto e articulador, Múcio foi escolhido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o cargo com o objetivo de desfazer crises e conduzir a intricada transição da pasta.
Ele disse ainda que, na pasta, quer manter as tradições militares. Nesse contexto, conta, escolheu os comandantes das Forças Armadas preservando o critério de antiguidade, por meio de uma rápida pesquisa na internet.
“Quando Lula me chamou, ele disse: ‘Olha, você escolhe os comandantes e depois vamos conversar sobre isso’. Depois do almoço, ele me telefonou e eu disse que já havia convidado todos os comandantes”, disse.
Afirmou ainda que não conhecia “nenhum dos comandantes”. “Fui na internet, vi quem era o mais antigo e eles viraram comandantes. Quem era o segundo virou o primeiro, o terceiro virou o segundo”, completou.
Múcio fez um rápido discurso ao ser empossado. Ele disse que as Forças Armadas estão a serviço da democracia e evitou comentar assuntos sensíveis aos militares.
“Nosso país possui tradições pacíficas. Apesar de sua relevante dimensão geopolítica, o Brasil e suas Forças Armadas sempre se posicionaram a serviço da paz, da democracia, do respeito às instituições e da cooperação com os seus vizinhos.”
O ministro disse que concentrará a função política da Defesa para dar condições aos trabalhos das Forças Armadas.
Múcio ainda afirmou que a despolitização de militares, insatisfeitos com a vitória de Lula, não é “como uma chave, que você vira de uma vez”. Para o ministro, se os contrários ao petista não dificultarem a dinâmica dos trabalhos das Forças, não há problema.
Participaram do evento os ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro (PL) Bento Albuquerque (Minas e Energia), Joaquim Silva e Luna (Itaipu e Petrobras) e Fernando Azevedo (Defesa). O ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, do governo Michel Temer, também acompanhou a cerimônia.
O ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, que deixou o cargo com o fim do governo Bolsonaro, não esteve presente.
Durante a posse, Múcio ficou ombreado à equipe que escolheu para conduzir as principais funções do Ministério da Defesa e das Forças Armadas.
Os comandantes Júlio César de Arruda (Exército), Marcos Sampaio Olsen (Marinha) e Marcelo Kanitz Damasceno (Aeronáutica) foram apresentados.
A equipe da Defesa é ainda composta pelo secretário-geral Luiz Henrique Pochyly e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, almirante Renato de Aguiar Freire.
A escolha dos novos comandantes, na avaliação de oficiais-generais ouvidos pela reportagem, já foi um demonstrativo de que Múcio tentaria interferir o mínimo nas Forças.
O ministro escolheu os oficiais mais antigos de cada Alto Comando o que, pelas regras militares, promove poucas alterações na estrutura de cada Força e não exonera nenhum oficial de alta patente pelos critérios de antiguidade.
Apesar dos receios no período de transição, Múcio conseguiu se aproximar do ex-ministro Paulo Sérgio e dos ex-comandantes do Exército (Freire Gomes) e Aeronáutica (Baptista Júnior).
O único a embarreirar o diálogo foi o comandante da Marinha, Almir Garnier, como mostrou a Folha de S.Paulo.
O almirante também decidiu não realizar a tradicional passagem de comando, marcada para sexta-feira (5), como sinal de protesto.
No domingo (1º), parte dos bolsonaristas acampados em frente ao quartel-general do Exército em Brasília começou a se desmobilizar em meio à posse de Lula.
Cinco ônibus estacionaram nas proximidades do acampamento ao longo da manhã para levar embora manifestantes que estavam havia semanas no local. À tarde, outros dez ônibus cheios partiram do lugar.
De acordo com militares que acompanham a movimentação, um dos fatores que contribuiu para a desmobilização foi a viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos na sexta-feira (30). O agora ex-presidente deve permanecer um mês nos EUA.
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