Bancos podem interromper crédito consignado do INSS devido à alta da Selic

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FGTS - Foto: rafapress / Shutterstock.com

A possibilidade de uma interrupção completa na concessão de crédito consignado do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) vem ganhando força nos últimos dias. A alta da taxa básica de juros, a Selic, para 12,25% ao ano, anunciada na última quarta-feira, 11 de dezembro, gerou um impacto significativo na viabilidade econômica desse produto, que já operava sob margens apertadas. Essa situação preocupa não apenas o setor bancário, mas também os aposentados e pensionistas que dependem dessa modalidade para acessar crédito a condições mais favoráveis.

A pressão da Selic sobre o crédito consignado

A elevação da Selic em 1 ponto percentual criou um cenário de custos operacionais elevados para os bancos. O teto de juros para o crédito consignado, atualmente limitado a 1,68% ao mês pelo Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), tornou-se insustentável em um contexto onde os custos de captação das instituições financeiras continuam subindo. Dados do setor apontam que, sob as condições atuais, as margens operacionais variam entre -0,1% e -0,23%, tornando esse produto financeiramente inviável.

A situação é ainda mais complicada para os bancos de médio porte, que enfrentam custos de captação maiores, geralmente entre 115% e 130% do CDI. Para essas instituições, que dependem fortemente de correspondentes bancários para distribuir seus produtos, os custos adicionais tornam quase impossível operar dentro do teto de juros estabelecido.

Impacto da suspensão nos correspondentes bancários

Nos últimos dias, vários bancos já anunciaram a suspensão do crédito consignado via correspondentes bancários. Entre eles estão grandes nomes como Bradesco, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Santander, BMG, Pan, Mercantil e Paraná Banco. Esses correspondentes desempenham um papel essencial na distribuição desse tipo de crédito, especialmente para os bancos de menor porte, onde chegam a responder por até 80% das operações realizadas.

A decisão de suspender as operações reflete o peso do pagamento de comissões aos correspondentes, que aumenta significativamente os custos. Embora o modelo seja eficiente para ampliar o alcance do crédito, ele se torna inviável em um contexto de margens negativas. O aumento da Selic amplificou o problema, afetando tanto grandes instituições quanto os bancos menores.

Evolução do teto de juros e desafios enfrentados pelos bancos

O crédito consignado para beneficiários do INSS já vinha enfrentando dificuldades antes mesmo da alta mais recente da Selic. Desde 2023, o CNPS promoveu uma série de reduções no teto de juros, com o objetivo de proteger os consumidores. Em abril de 2024, o limite foi reduzido para 1,68% ao mês, o menor já registrado. Embora essa medida tenha buscado oferecer condições mais acessíveis, ela ignorou a escalada nos custos de captação, especialmente com a tendência de alta nos juros futuros.

Essa combinação de fatores levou os bancos a registrarem margens cada vez mais apertadas, até atingirem níveis negativos. Para os tomadores de maior idade, os custos operacionais são ainda mais altos devido ao risco associado. Segundo estimativas do setor, os custos médios de captação, somados às exigências regulatórias e tributárias, estão muito acima do teto permitido, criando uma situação insustentável.

Impacto na vida dos aposentados e pensionistas

A possibilidade de interrupção completa no crédito consignado afeta diretamente os aposentados e pensionistas que dependem dessa modalidade para complementar sua renda ou lidar com despesas inesperadas. Sem acesso a essa linha de crédito, muitos poderão recorrer a alternativas mais caras, como empréstimos pessoais com juros elevados, aumentando o risco de superendividamento.

O crédito consignado é especialmente popular entre esse público porque oferece taxas mais baixas em comparação com outros produtos financeiros, graças ao desconto direto na folha de pagamento. Entretanto, a atual crise ameaça restringir o acesso a essa opção, gerando impactos socioeconômicos significativos em várias regiões do país.

O papel do CNPS e o impasse entre bancos e governo

Apesar das reiteradas tentativas do setor bancário de apresentar dados que demonstram a inviabilidade do crédito consignado sob o teto atual, o CNPS tem resistido a discutir mudanças significativas na política de juros. Na última reunião do conselho, realizada em 10 de dezembro, o tema sequer entrou na pauta, deixando os bancos em uma posição ainda mais delicada.

A composição atual do CNPS, dominada por representantes do governo, tem dificultado o avanço de propostas para revisar o teto de juros. Enquanto o Ministério da Previdência mantém uma posição mais conservadora, outras pastas, como a Fazenda, mostram-se abertas a discutir alternativas. No entanto, a falta de consenso interno impede que medidas sejam implementadas de forma eficaz.

Queda nas operações e perspectivas futuras

Desde julho de 2024, o volume diário de registros de crédito consignado junto à Dataprev caiu 25%, reflexo direto da alta dos juros futuros e das margens negativas enfrentadas pelos bancos. Em média, o setor tem registrado R$ 5,6 bilhões em concessões mensais, uma redução de 3% em relação ao ano anterior. Esse desempenho reflete a estagnação do mercado, que já havia encolhido 23% em 2023.

A perspectiva de novas altas na Selic, sinalizada pelo Banco Central, agrava ainda mais a situação, tornando improvável uma recuperação a curto prazo. Se a taxa básica de juros continuar subindo, a interrupção completa do crédito consignado pode se tornar uma realidade inevitável.

Alternativas em análise e o futuro do crédito consignado

Diante desse cenário, algumas alternativas estão sendo analisadas por especialistas e representantes do setor. Uma das principais propostas envolve a revisão do teto de juros para refletir os custos reais de operação, garantindo a sustentabilidade econômica para os bancos. No entanto, essa medida enfrenta resistência política, com receios de que o aumento dos juros prejudique os consumidores.

Outra possibilidade é a adoção de tecnologias para reduzir custos operacionais e diminuir a dependência de correspondentes bancários. Embora promissora, essa solução demanda investimentos significativos e tempo para implementação, o que dificulta sua aplicação imediata.

Impactos macroeconômicos da suspensão do crédito consignado

A crise no crédito consignado não afeta apenas os beneficiários do INSS, mas também tem implicações mais amplas para a economia. Essa modalidade de crédito desempenha um papel importante na dinamização do consumo, especialmente em cidades menores e regiões mais dependentes da renda previdenciária.

Com a suspensão das operações, espera-se uma redução no poder de compra dos aposentados e pensionistas, impactando setores como comércio e serviços. Esse efeito cascata pode gerar pressões adicionais sobre a economia local, ampliando as desigualdades regionais.

Reações do setor e a busca por soluções

O setor bancário tem buscado intensificar o diálogo com o governo para encontrar uma solução que equilibre as necessidades dos consumidores e a viabilidade econômica do produto. Representantes das instituições financeiras defendem que, sem ajustes no teto de juros, a continuidade do crédito consignado em suas condições atuais é inviável.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam para a necessidade de políticas públicas que promovam a inclusão financeira dos beneficiários do INSS, evitando que eles sejam expostos a alternativas mais caras e menos seguras. Isso inclui iniciativas de educação financeira e maior transparência nas condições contratuais.

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