Neguinho da Beija-Flor encanta em despedida histórica na Sapucaí

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Neguinho da Beija-Flor Foto: Neguinho da Beija-Flor - Foto: Instagram

Luiz Antonio Feliciano Marcondes, o eterno Neguinho da Beija-Flor, protagonizou uma noite inesquecível na Marquês de Sapucaí em 3 de março de 2025, ao se despedir oficialmente como intérprete da Beija-Flor de Nilópolis após 50 anos de dedicação. Aos 75 anos, o sambista cruzou a passarela do samba pela última vez na competição do Grupo Especial, levando o público às lágrimas com sua voz marcante e um carisma que ecoou em cada setor da avenida. O desfile, que homenageou o carnavalesco Laíla com o enredo “Laíla de todos os sambas, Laíla de todos os santos”, transformou-se em um tributo duplo: ao legado de Laíla, falecido em 2021, e à trajetória de Neguinho, presente em todos os 14 títulos da escola desde 1976. A chegada dele à concentração no setor 1 causou um tumulto impressionante, com gritos de “Neguinho! Neguinho!” entoados por milhares de foliões, enquanto ele, emocionado, comparava a saída a “um divórcio após 50 anos de casado”. Vestindo as cores azul e branca da Beija-Flor, o intérprete agradeceu ao público com um gesto simples, mas carregado de significado: “Obrigada por tudo”, disse, antes de puxar o samba que marcou seu adeus oficial.

A despedida, anunciada em novembro de 2024, não pegou os fãs de surpresa, mas a emoção ao vivo foi avassaladora. Neguinho prometeu seguir no samba com projetos solo, como um disco com Xande de Pilares e shows internacionais, mas a Sapucaí jamais será a mesma sem sua presença no carro de som da Beija-Flor.

Com uma carreira que começou em 1975, Neguinho deixa um vazio na escola, que agora busca um novo intérprete através de um reality show no Globoplay, com ele próprio no júri, mantendo viva sua ligação com a agremiação.

Chegada tumultuada à avenida

Por volta das 18h do dia 3 de março, Neguinho da Beija-Flor chegou à Sapucaí cercado por uma multidão de fãs e componentes, desencadeando um alvoroço no setor 1 da concentração. O público, que lotava as arquibancadas e as áreas abertas, gritava seu nome em um coro ensurdecedor, enquanto ele acenava com lágrimas nos olhos. “Começamos antes da Beija-Flor”, declarou, relembrando os tempos de Neguinho da Vala, seu apelido original, antes de se tornar a voz icônica da escola.

Equipado com seu microfone inseparável, ele fez exercícios de respiração para controlar a emoção antes de dar o grito tradicional “Olha a Beija-Flor aí, gente!”, que ressoou pela avenida e foi capturado em vídeos que viralizaram instantaneamente nas redes sociais.

Emoção amplificada pelo enredo

O enredo “Laíla de todos os sambas, Laíla de todos os santos” trouxe um peso especial ao último desfile de Neguinho. Homenageando Laíla, que conduziu a Beija-Flor a nove de seus 14 títulos entre 1998 e 2018, o sambista viu na narrativa uma oportunidade de encerrar sua trajetória em grande estilo. “Se for campeã, será o maior gol da minha vida”, afirmou na concentração, comparando o desfile a uma final de futebol que ele queria vencer pelo amigo falecido.

O desfile recriou momentos marcantes da parceria entre Laíla e Neguinho, com alas que rememoravam os tricampeonatos de 1976-1978 e carros alegóricos inspirados em clássicos como “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” de 1989. A emoção tomou conta quando ele puxou o samba, com a voz embargada em trechos que exaltavam o carnavalesco.

Cinco décadas de glórias

Neguinho da Beija-Flor começou sua história com a escola em 11 de junho de 1975, ainda como compositor, com o samba “Sonhar com rei dá leão”, que garantiu o primeiro título da agremiação em 1976 sob a direção de Joãsosinho Trinta. Desde então, ele se tornou a voz oficial da Beija-Flor, presente em todos os 14 campeonatos, incluindo os tricampeonatos de 1976-1978 e 2003-2005, e momentos icônicos como o desfile de 1989, que revolucionou a Sapucaí com sua ousadia visual e sonora. Sua trajetória é um marco na história do Carnaval carioca, consolidando a escola como a terceira maior vencedora do Grupo Especial, atrás apenas de Portela e Mangueira.

Além dos títulos, Neguinho enfrentou batalhas pessoais que fortaleceram sua ligação com a Beija-Flor. Em 2008, diagnosticado com câncer, ele desfilou em 2009 ainda em tratamento, recebendo apoio da comunidade em um dos momentos mais difíceis de sua vida. “O Carnaval foi meu remédio”, declarou em sua carta de despedida em 2024, destacando como a energia da avenida o ajudou a superar a doença. A aposentadoria, planejada há três anos e acelerada pela morte de Bakaninha, seu substituto em formação, reflete o desgaste físico de meio século de dedicação.

A relação com a escola foi tão visceral que ele nunca teve contrato formal ou salário fixo. “Se alguém deve algo, sou eu à Beija-Flor”, disse, enfatizando o amor que o manteve na agremiação por 50 anos, desde os tempos em que cantava sambas como “A criação do mundo na tradição Nagô” em 1978.

Energia da comunidade nos ensaios

A preparação para o desfile de 2025 mobilizou a comunidade da Beija-Flor em Nilópolis desde o fim de 2024. O ensaio técnico de 1º de fevereiro na Sapucaí foi um dos pontos altos, com Neguinho puxando o samba diante de milhares de componentes que cantaram em uníssono. “Foi um desafio e uma alegria ver minha comunidade soberana comigo”, escreveu nas redes sociais, onde o vídeo do momento alcançou mais de 100 mil visualizações em poucas horas.

Em dezembro de 2024, a escolha do samba-enredo na quadra lotada mostrou a força da escola, com a composição número 5 sendo aclamada por exaltar Laíla e trazer uma melodia envolvente. Neguinho participou de cada etapa, recebendo homenagens de intérpretes como Zé Paulo Sierra e Tinga, que reconheceram sua influência no samba carioca.

Legado vivo na Sapucaí

A voz inconfundível de Neguinho da Beija-Flor moldou a identidade da escola e do Carnaval do Rio. Compositor de sucessos como “Deusa da passarela”, hino-exaltação da Beija-Flor, e intérprete de sambas históricos, ele foi essencial nas parcerias com Joãosinho Trinta e Laíla, que transformaram a agremiação em uma potência. No desfile de 3 de março, ele subiu ao carro de som decorado com referências ao enredo, puxando o samba com a energia que o tornou uma lenda, mesmo aos 75 anos.

O público respondeu com aplausos e gritos que duraram até o fim da apresentação, enquanto Neguinho prometia um “penúltimo” grito, já que planeja voltar no Desfile das Campeãs em 8 de março, caso a Beija-Flor fique entre as seis primeiras colocadas na apuração.

Momentos-chave da despedida

A despedida de Neguinho da Beija-Flor seguiu um calendário que emocionou fãs e sambistas. Confira os eventos marcantes:

  • 1º de fevereiro: Ensaio técnico na Sapucaí, com Neguinho liderando a comunidade.
  • 3 de março: Desfile oficial do Grupo Especial, às 23h, na segunda noite da folia.
  • 4 de março: Presença em camarotes, acompanhando o encerramento do Carnaval.
  • 8 de março: Possível participação no Desfile das Campeãs, dependendo do resultado.

Esses dias foram acompanhados por milhares de mensagens nas redes sociais, com vídeos do sambista circulando amplamente entre os admiradores de sua trajetória.

Futuro da escola e do sambista

A saída de Neguinho abre espaço para um novo intérprete na Beija-Flor, que será escolhido em um reality show no Globoplay com oito episódios. Com Neguinho no júri ao lado de Selminha Sorriso e Pinah, a competição já tem nomes cotados como Leozinho e Nino do Milênio, mas o sambista confessou que sentirá “um ciúme” ao ouvir outra voz no carro de som em 2026.

Fora da escola, Neguinho planeja projetos ambiciosos, como o disco com Xande de Pilares, regravando 27 sucessos, e um musical sobre sua vida, além de uma biografia prevista para 2025 e shows internacionais, incluindo Orlando em 2026.

Homenagens pelo mundo

A influência de Neguinho vai além do Brasil, com a escola uruguaia Garra y Corazón, de Artigas, dedicando seu desfile de 2025 ao sambista com o enredo “Flores em vida… Neguinho da Beija-Flor, a voz da Sapucaí”, marcado para 1, 2 e 3 de março. “Quero estar lá para agradecer”, disse, destacando o orgulho de ser reconhecido internacionalmente.

No Rio, o desfile de 3 de março contou com apoio de nomes como Zeca Pagodinho e Teresa Cristina, que exaltaram Neguinho nas redes, enquanto o público da Sapucaí gritava seu nome até o último acorde, celebrando meio século de contribuição ao samba.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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