A transmissão do Carnaval 2025 no Rio de Janeiro foi palco de uma controvérsia que reverberou pelas redes sociais e agitou o debate público. Durante o esquenta da escola de samba Paraíso do Tuiuti, na noite de 4 de março, a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) teve seu discurso abruptamente cortado pela TV Globo, emissora responsável pela exibição oficial dos desfiles. O momento, que antecedia a entrada da agremiação na Marquês de Sapucaí, era carregado de simbolismo: Hilton falava sobre a violência contra pessoas trans e travestis, representando Xica Manicongo, figura central do enredo da escola. A interrupção gerou acusações de censura e transfobia, enquanto a Globo justificou a edição como parte do ritmo da cobertura. O episódio expôs tensões entre representatividade, mídia e narrativa histórica no maior espetáculo cultural do Brasil.
Ocorrido no terceiro dia de desfiles do Grupo Especial, o corte aconteceu quando Erika, integrante da comissão de frente da Tuiuti, discursava sobre a resistência das mulheres trans no país. A escola de São Cristóvão trouxe o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, que narra a trajetória da primeira travesti documentada no Brasil, escravizada no Congo e trazida a Salvador no século 16. A fala da deputada, ovacionada pelo público presente, foi substituída na transmissão por uma intervenção da repórter Mariana Gross, que passou a descrever detalhes técnicos de um carro alegórico, como o uso de fibra de vidro e isopor nas estruturas.
A reação nas redes sociais foi imediata. Usuários do X acusaram a emissora de silenciar uma mensagem histórica em prol da diversidade, enquanto outros apontaram que a Globo também cortou falas de outros participantes ao longo da transmissão, sugerindo um padrão editorial. O caso reacendeu discussões sobre o papel da mídia na amplificação de vozes marginalizadas e o espaço dado à representatividade no Carnaval, uma festa que, para muitos, vai além do entretenimento e carrega forte carga política e social.
Deputada na Sapucaí: o peso simbólico do discurso cortado
Erika Hilton não estava na Sapucaí apenas como espectadora ou convidada especial. A deputada federal, uma das primeiras mulheres trans eleitas para o Congresso Nacional, integrou a comissão de frente da Paraíso do Tuiuti, ao lado de outras figuras como a deputada Duda Salabert (PDT-MG), a vereadora Amanda Paschoal (Psol-SP) e a deputada estadual Dani Balbi (PC do B-RJ). Todas mulheres trans, elas carregaram a responsabilidade de abrir o desfile que homenageava Xica Manicongo, uma personagem histórica que desafiou normas de gênero impostas pelos colonizadores e foi morta por sua resistência.
Antes de entrar na avenida, Hilton tomou o microfone no esquenta da escola para destacar a importância de recontar a história de Xica e denunciar a violência que ainda atinge a comunidade trans no Brasil. “O ainda primeiro país do mundo que mata mulheres como Xica Manicongo terá que olhar a sua história sendo recontada”, disse ela, em um trecho que ecoou entre os presentes, mas não chegou integralmente aos telespectadores. A interrupção da Globo ocorreu justamente quando a deputada abordava a tentativa histórica de “calar os corpos trans”, um paralelo que muitos interpretaram como irônico diante do corte na transmissão.
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O discurso, embora não exibido na íntegra pela emissora, foi gravado por presentes e rapidamente compartilhado nas redes. A aclamação do público na Sapucaí, marcada pela percussão de leques – um símbolo tradicional da comunidade LGBTQIA+ no Carnaval –, evidenciou o impacto da mensagem. Para Hilton, o Carnaval é mais que festa: é resistência, luta e denúncia, como ela mesma declarou em entrevista recente ao portal Uol, destacando a relevância de levar a narrativa de Xica Manicongo à avenida.
Repercussão imediata: críticas e defesas nas redes sociais
A decisão da Globo de cortar o discurso de Erika Hilton não passou despercebida. Nas horas seguintes ao desfile, o X virou um campo de batalha entre críticas à emissora e defesas de sua escolha editorial. “A transfobia da Globo colocando a repórter pra falar sem parar bem na hora do discurso histórico da Erika Hilton”, escreveu um usuário, resumindo o sentimento de indignação de muitos. Outros foram além, classificando o ato como “vergonha” e “censura”, especialmente por se tratar de um momento que celebrava a diversidade em um espaço tradicionalmente inclusivo como o Carnaval.
Por outro lado, houve quem relativizasse a polêmica. Alguns internautas apontaram que a Globo tem histórico de cortar falas durante as transmissões dos desfiles, independentemente de quem esteja falando, para manter o ritmo da programação. Um exemplo citado foi o fato de, por mais de 15 anos, as primeiras escolas a desfilar nos domingos e segundas-feiras terem partes de suas apresentações suprimidas para dar espaço ao “Big Brother Brasil”. “Se outra escola colocasse um político de direita pra falar e a Globo não cortasse, iam ter que mostrar também”, argumentou um usuário, sugerindo que a edição foi menos ideológica e mais prática.
A polarização nas redes reflete um debate maior sobre o papel da mídia em eventos culturais. Enquanto alguns viam o corte como um ataque direto à representatividade trans, outros o interpretaram como uma escolha logística, comum em coberturas ao vivo de longa duração. O alcance da discussão, no entanto, ampliou a visibilidade do enredo da Tuiuti e da mensagem que Hilton buscava传递.
Xica Manicongo em foco: a história que inspirou o desfile
A Paraíso do Tuiuti levou à Sapucaí um enredo que resgata uma figura pouco conhecida da história brasileira. Xica Manicongo, escravizada no Congo e trazida ao Brasil no século 16, é considerada a primeira travesti não indígena do país. Vivendo em Salvador, ela desafiou as imposições coloniais ao se recusar a usar trajes masculinos, o que levou à sua condenação e execução na fogueira. O carnavalesco Jack Vasconcelos transformou essa trajetória em um desfile que celebra a resistência e denuncia a violência de gênero, temas que continuam atuais.
O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans há mais de uma década, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Em 2023, foram registrados 100 assassinatos de travestis e transexuais no país, um número que, embora menor que os 131 de 2022, ainda reflete a gravidade da situação. O enredo da Tuiuti, ao trazer Xica como símbolo, conecta passado e presente, mostrando como a intolerância atravessou séculos e ainda persiste. A participação de Erika Hilton e outras mulheres trans na comissão de frente reforçou essa narrativa, dando rosto e voz a uma luta histórica.
A escola, conhecida por enredos críticos – como o de 2018, que abordou a escravidão e suas sequelas –, mais uma vez usou o Carnaval como plataforma de reflexão. O desfile foi elogiado por sua potência visual e política, com destaque para o abre-alas, onde a cantora trans Hud Burk, cria da comunidade de São Cristóvão, celebrou a abertura de portas por figuras como Xica. “Quem diria que, depois de 40 anos de Sapucaí, uma mulher grande, preta e trans seria o enredo do maior espetáculo do mundo?”, declarou Burk, emocionada.
Cronologia do caso: como o corte aconteceu
Entender o episódio exige olhar para o desenrolar dos fatos na noite de 4 de março. Aqui está um resumo dos principais momentos:
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- Início do esquenta: Por volta das 23h, a Paraíso do Tuiuti se preparava para entrar na Sapucaí, no terceiro dia de desfiles do Grupo Especial.
- Discurso de Hilton: Erika tomou o microfone e começou a falar sobre Xica Manicongo e a violência contra pessoas trans, recebendo aplausos e percussão de leques do público.
- Interrupção da Globo: Minutos após o início, a transmissão cortou a fala para uma entrada ao vivo de Mariana Gross, que descreveu materiais das alegorias enquanto o áudio de Hilton seguia ao fundo.
- Reação nas redes: A partir da meia-noite, postagens no X começaram a criticar a emissora, com vídeos do discurso completo viralizando.
- Desfile na avenida: Já na passagem pela Sapucaí, a Tuiuti apresentou seu enredo sem interrupções na transmissão, mas o foco permaneceu na polêmica do esquenta.
O timing do corte, em um momento de forte carga simbólica, alimentou as acusações de intencionalidade. A Globo, por sua vez, não emitiu comunicado oficial sobre o caso até o fechamento desta matéria, mas o padrão de edições rápidas em transmissões ao vivo sugere que a decisão pode ter sido técnica, não necessariamente ideológica.
Impacto nas redes: amplificação da mensagem
Mesmo com o corte na TV, o discurso de Erika Hilton ganhou vida própria nas plataformas digitais. Vídeos gravados por espectadores e compartilhados no X e Instagram alcançaram milhares de visualizações em poucas horas. “Podem cortar, silenciar, desviar o foco… Não adianta! É força, é representatividade, é história viva sendo escrita”, escreveu um usuário, sintetizando o sentimento de muitos. A hashtag #ErikaHiltonNaSapucaí chegou aos trending topics na madrugada de 5 de março, ampliando o alcance da mensagem que a Globo não exibiu.
A controvérsia também trouxe visibilidade extra ao enredo da Tuiuti. Enquanto a emissora focava em aspectos técnicos das alegorias, as redes destacaram a potência política do desfile, com fotos e trechos da comissão de frente circulando amplamente. Para especialistas em mídia digital, o caso ilustra como as plataformas sociais podem contrabalançar decisões editoriais da TV tradicional, dando voz a narrativas que, de outra forma, seriam silenciadas.
A participação de Hilton na Sapucaí, aliada à polêmica, reforçou sua posição como uma das figuras mais influentes na luta por direitos LGBTQIA+ no Brasil. Eleita em 2022 com 256.903 votos, a deputada já havia feito história como a primeira vereadora trans de São Paulo, em 2020, e agora usa o Carnaval como palco para ampliar sua mensagem.
Números da violência: o contexto por trás do discurso
A fala de Erika Hilton sobre a violência contra pessoas trans não é apenas retórica – ela reflete uma realidade documentada em números alarmantes. O Brasil segue como líder mundial em assassinatos de travestis e transexuais, uma estatística que coloca o país no centro de debates globais sobre direitos humanos. Dados da Antra mostram que:
- 100 pessoas trans foram assassinadas em 2023, contra 131 em 2022.
- A expectativa de vida de travestis e transexuais no Brasil é de apenas 35 anos, menos da metade da média nacional, que supera os 76 anos.
- 90% das travestis e mulheres trans no país recorrem à prostituição como meio de sobrevivência, segundo estimativas da entidade.
Esses números dão peso ao discurso cortado pela Globo, que buscava conectar a história de Xica Manicongo ao presente. A deputada destacou que o Brasil, ao mesmo tempo que mata, agora precisa encarar sua história – uma provocação que o enredo da Tuiuti materializou na avenida.
A interrupção da fala de Hilton não diminuiu seu impacto entre os presentes. Testemunhas na Sapucaí relataram que o público respondeu com gritos de “presidenta”, apelido usado por apoiadores da deputada nas redes, e a percussão de leques continuou mesmo após o corte na TV. O episódio reforça a dualidade do Carnaval: ao mesmo tempo que é festa, é também um espaço de luta e memória.
Carnaval como resistência: a visão de Erika Hilton
Para Erika Hilton, o Carnaval vai além das fantasias e sambas ensaiados. Em entrevista ao Uol antes do desfile, ela descreveu a festa como “um espaço de resistência, luta, ousadia e denúncia”. A participação na comissão de frente da Tuiuti foi, para ela, uma forma de encher o coração de esperança e mostrar que a cultura pode ser mais democrática. A deputada viveu uma maratona para conciliar os ensaios com sua agenda em Brasília, muitas vezes chegando ao Rio após a meia-noite para treinar em segredo com a equipe.
A escolha da Tuiuti por um enredo sobre Xica Manicongo não foi aleatória. A escola tem tradição em temas críticos, como o desfile de 2018, que abordou os 130 anos da abolição da escravatura e suas consequências inacabadas. Em 2025, o foco em uma figura trans do século 16 reforça essa vocação, alinhando-se à visão de Hilton de que o Carnaval é um espelho da sociedade – com suas glórias e feridas.
A polêmica com a Globo, embora centrada no corte do discurso, acabou ampliando o debate sobre o espaço dado às minorias na mídia. Enquanto a emissora priorizou detalhes técnicos, o público nas redes fez questão de destacar a mensagem política e histórica que a Tuiuti e Hilton trouxeram à Sapucaí.
