O Carnaval de São Paulo foi marcado por reviravoltas emocionantes neste ano, com a apuração das notas trazendo surpresas e decepções no Sambódromo do Anhembi. Realizada na tarde de 4 de março, a leitura dos votos revelou o destino das 14 escolas do Grupo Especial, culminando na consagração da Rosas de Ouro como campeã e no rebaixamento de duas tradicionais agremiações: Acadêmicos do Tucuruvi e Mancha Verde. Com pontuações de 269 e 268,9, respectivamente, as escolas não conseguiram se manter na elite do samba paulistano e agora terão de disputar o Grupo de Acesso I em 2026 para tentar retornar ao topo. O evento, que mobilizou milhares de foliões e apaixonados pelo carnaval, destacou a competitividade acirrada e o rigor do sistema de avaliação, que considera nove quesitos e descarta a menor nota de cada categoria para garantir equilíbrio na disputa.
A Mancha Verde, conhecida por sua ligação com a torcida do Palmeiras e por títulos em 2019 e 2022, viu seu desempenho aquém do esperado selar a queda após quase uma década sem frequentar o grupo inferior. Já a Acadêmicos do Tucuruvi, que em 2024 havia terminado em sétimo lugar, também não conseguiu repetir o sucesso recente e amargou o rebaixamento. Enquanto isso, a Rosas de Ouro celebrou a conquista de seu oitavo título, encerrando um jejum de 15 anos com um desfile que encantou jurados e público.
A apuração, acompanhada por diretores das escolas, convidados e imprensa, seguiu um protocolo rígido, com a leitura das notas começando pelo quesito enredo e terminando em evolução – este último decisivo para definir as posições finais. O resultado não apenas redesenhou o cenário do Carnaval paulistano, mas também acendeu debates entre os sambistas sobre os critérios de julgamento e os desafios enfrentados pelas agremiações.
Desfiles marcantes, mas insuficientes para evitar a queda
A Mancha Verde entrou na avenida na sexta-feira, 28 de fevereiro, com um desfile vibrante que explorou a ancestralidade africana do povo baiano sob o enredo “Bahia, da Fé ao Profano”. A proposta era ambiciosa: celebrar a dualidade entre a religiosidade e a festa, trazendo elementos como a devoção aos orixás e a alegria do axé. Viviane Araújo, rainha de bateria há anos, brilhou com uma fantasia cravejada de pedrarias e efeitos de LED, simbolizando o luxo e a energia da escola. O desfile contou com alas bem estruturadas e carros alegóricos que representavam a cultura baiana, mas os jurados apontaram falhas em quesitos como harmonia e evolução, que comprometeram a pontuação final.
Com 268,9 pontos, a escola ficou na lanterna do Grupo Especial, um resultado que pegou muitos integrantes de surpresa. A Mancha, que não disputava o Grupo de Acesso I desde 2016, agora terá de se reinventar para voltar à elite. Nos bastidores, membros da agremiação demonstraram um misto de tristeza e inconformismo, enquanto outros já falavam em usar o rebaixamento como motivação para um retorno triunfal em 2026.
Acadêmicos do Tucuruvi exalta os Tupinambás e tropeça na evolução
No sábado, 1º de março, foi a vez da Acadêmicos do Tucuruvi cruzar o Sambódromo com o enredo “Assojabá – a busca pelo manto”, uma homenagem às vestimentas sagradas dos indígenas tupinambás, levadas do Brasil para museus estrangeiros. O desfile trouxe uma narrativa forte sobre a cultura e a resistência dos povos originários, com destaque para alegorias que reproduziam mantos de plumária e cenários que remetiam à história colonial. Carla Prata, rainha de bateria, e Isabelle Nogueira, ex-BBB que integrou o elenco, foram presenças marcantes, mas nem mesmo o apelo visual salvou a escola de um desempenho irregular.
A pontuação de 269 colocou a Tucuruvi na penúltima posição, com problemas no quesito evolução sendo apontados como o principal fator para a queda. Apesar de ter alcançado a sétima colocação em 2024, a escola não manteve a consistência necessária para se segurar no Grupo Especial. Integrantes se emocionaram com o resultado, e o rebaixamento reacendeu discussões sobre os desafios de traduzir enredos complexos em apresentações coesas na avenida.
Rosas de Ouro brilha e rouba a cena no Grupo Especial
Enquanto Mancha Verde e Tucuruvi lamentavam o rebaixamento, a Rosas de Ouro protagonizou uma virada histórica na apuração. Com o enredo “Rosas de Ouro em uma grande jogada”, a escola da Brasilândia explorou a influência dos jogos na humanidade, desde tabuleiros antigos até cassinos e videogames. O desfile, realizado na madrugada de sábado, trouxe carros alegóricos imponentes – como um que remetia ao xadrez e outro inspirado em personagens de games como Pokémon – e fantasias luxuosas que refletiram os primeiros raios do sol. A combinação de criatividade e execução impecável conquistou os jurados, especialmente no quesito evolução, que decidiu o título.
A escola terminou com 269,8 pontos, empatando com a Acadêmicos do Tatuapé, mas levou a melhor nos critérios de desempate. Foi o oitavo título da Rosas de Ouro, que não vencia desde 2010, consolidando sua posição entre as agremiações mais vitoriosas do Carnaval paulistano. A vitória foi celebrada com euforia no Sambódromo, marcando o fim de um jejum de 15 anos e reacendendo o orgulho da comunidade da Zona Norte.
Como funciona o sistema de julgamento?
O Carnaval de São Paulo adota um rigoroso sistema de avaliação para definir os vencedores e rebaixados. Aqui estão os principais pontos do processo:
- Nove quesitos são analisados: enredo, bateria, samba-enredo, mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, harmonia, alegoria, fantasia e evolução.
- Cada quesito é julgado por cinco jurados, com notas de 8,0 a 10,0, sempre com uma casa decimal.
- A menor nota de cada quesito é descartada para equilibrar a disputa.
- Em caso de empate, o quesito evolução serve como critério principal de desempate, seguido pela soma total das notas, incluindo as descartadas.
Esse sistema, embora elogiado por sua transparência, frequentemente gera debates entre os sambistas sobre a subjetividade das avaliações e a pressão sobre as escolas para entregar desfiles perfeitos.
Caminho das escolas no Grupo de Acesso I
Com o rebaixamento confirmado, Mancha Verde e Acadêmicos do Tucuruvi já começam a planejar sua passagem pelo Grupo de Acesso I. Ambas as escolas têm histórico de superação e contam com comunidades apaixonadas, o que pode ser um trunfo na luta pelo retorno ao Grupo Especial. A Mancha Verde, por exemplo, saiu do Acesso em 2016 e conquistou dois títulos em menos de uma década, mostrando resiliência. Já a Tucuruvi, que já passou por momentos difíceis como um incêndio em sua quadra em 2017, também tem tradição de recuperação.
O Grupo de Acesso I é conhecido por sua competitividade, com escolas como Tom Maior e Mocidade Unida da Mooca subindo para o Especial neste ano após pontuações de 269,8. Para voltar à elite, Mancha e Tucuruvi precisarão ajustar falhas apontadas pelos jurados e investir em desfiles mais consistentes, especialmente nos quesitos técnicos que pesaram contra elas.
Calendário do Carnaval paulistano
O ciclo do Carnaval de São Paulo segue um cronograma intenso, e as próximas etapas já estão no radar das agremiações:
- 8 de março: Desfile das Campeãs, com as cinco primeiras colocadas do Grupo Especial (Rosas de Ouro, Acadêmicos do Tatuapé, Gaviões da Fiel, Mocidade Alegre e Camisa Verde e Branco) e as vencedoras do Acesso I.
- Julho: Início oficial dos preparativos para 2026, com escolha de enredos e planejamento das escolas.
- Fevereiro de 2026: Desfiles do Grupo de Acesso I, onde Mancha Verde e Tucuruvi buscarão o retorno ao Especial.
Esse calendário reflete a dinâmica do samba paulistano, que não para mesmo após o fim da festa na avenida.
Impactos e perspectivas para o futuro
A queda de Mancha Verde e Acadêmicos do Tucuruvi não passou despercebida entre os amantes do Carnaval. Nos corredores do Anhembi e nas redes sociais, muitos questionaram o rigor do julgamento, especialmente no quesito evolução, que selou o destino das duas escolas. Para alguns, o sistema privilegia a perfeição técnica em detrimento da emoção e da conexão com o público. Outros defendem que a competitividade é o que mantém o nível elevado do Grupo Especial, forçando as agremiações a se aprimorarem constantemente.
O rebaixamento também levanta questões sobre os investimentos das escolas. Mancha Verde, por exemplo, é conhecida por desfiles grandiosos, mas desta vez não conseguiu traduzir o luxo em pontuação. Já a Tucuruvi enfrentou desafios como o roubo da fantasia de Carla Prata dias antes do desfile, o que pode ter impactado a preparação. Esses episódios mostram como imprevistos e falhas de execução podem custar caro na disputa.
Rosas de Ouro reforça tradição e inspira renovação
A vitória da Rosas de Ouro, por outro lado, foi um sopro de esperança para escolas tradicionais que buscam se reinventar. Com um enredo acessível e uma apresentação que uniu criatividade e técnica, a agremiação da Brasilândia provou que é possível competir com gigantes como Mocidade Alegre e Vai-Vai, as maiores campeãs de São Paulo. O título também deve impulsionar a escola em 2026, quando tentará manter o bom momento no Grupo Especial.
Para Mancha Verde e Tucuruvi, o desafio agora é transformar a derrota em motivação. Com comunidades engajadas e histórias de superação, ambas têm potencial para voltar mais fortes. O Carnaval paulistano, conhecido por sua diversidade e paixão, segue sendo um palco de emoções intensas, onde cada nota conta e cada desfile pode mudar o rumo de uma agremiação.

