Aos 28 anos, Gabriel Monteiro, ex-vereador do Rio de Janeiro, teve sua liberdade concedida pela Justiça nesta sexta-feira, 21 de março de 2025, após permanecer preso desde novembro de 2022. A decisão da 34ª Vara Criminal da Capital, sob a juíza Renata Guarino Martins, encerra um período de mais de dois anos de reclusão no Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, conhecido como Bangu 8, na Zona Oeste da cidade. Preso inicialmente por denúncias de estupro, Monteiro agora terá de cumprir medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico em juízo e a proibição de deixar o Rio de Janeiro ou manter contato com pessoas específicas determinadas pelo tribunal. A soltura, que ocorre em meio a um processo que tramita em segredo de justiça, reacende debates sobre o controverso histórico do ex-parlamentar, que já foi policial militar, youtuber e figura política marcada por escândalos.
Antes de sair da prisão, Monteiro já havia perdido o mandato na Câmara Municipal do Rio em agosto de 2022, cassado por 48 votos a 2 por quebra de decoro parlamentar. A trajetória dele, que o levou da fama nas redes sociais à política e, posteriormente, à prisão, é repleta de episódios polêmicos, incluindo acusações de assédio, abuso de autoridade e manipulação de vídeos. Eleito em 2020 como o terceiro vereador mais votado da cidade, com 60.326 votos, o ex-parlamentar construiu uma carreira pública que dividiu opiniões, conquistando milhões de seguidores na internet enquanto acumulava denúncias graves.
Agora, com a liberdade condicional, Monteiro tem cinco dias para se apresentar e instalar a tornozeleira eletrônica, dispositivo que monitorará seus deslocamentos. A decisão judicial marca um novo capítulo na saga do ex-vereador, que se entregou à polícia em Niterói em 2022, após ser alvo de mandado de prisão preventiva por estupro e outras denúncias relacionadas a crimes sexuais contra ex-assessores.
Passado na PM e ascensão nas redes sociais
Gabriel Monteiro ingressou na Polícia Militar do Rio de Janeiro em 2015, mas sua passagem pela corporação foi tumultuada. Em menos de quatro anos, acumulou 16 transgressões disciplinares, resultando em 33 dias de detenção e duas repreensões. Entre os episódios, destacam-se faltas ao serviço, especialmente quando escalado para operações na Rocinha, e o porte irregular de arma fora do horário de trabalho. Classificado como um PM de “mau comportamento” — a pior categoria do estatuto da corporação —, ele chegou a ser expulso por deserção, mas conseguiu reintegração judicial antes de pedir demissão para assumir o cargo de vereador.
A fama, no entanto, veio das redes sociais. Como youtuber, Monteiro produzia vídeos que mostravam operações policiais e supostas fiscalizações, muitas vezes em tom sensacionalista, o que lhe rendeu milhões de seguidores. Estima-se que, no auge, ele faturava entre R$ 150 mil e R$ 300 mil mensais com a monetização de conteúdos no YouTube, onde tinha mais de 6 milhões de inscritos. Essas produções, porém, começaram a ser questionadas por denúncias de manipulação, incluindo o uso de menores de idade em situações encenadas para atrair audiência.
O salto para a política ocorreu em 2020, quando se filiou ao PSD e, posteriormente, migrou para o PL, partido alinhado ao bolsonarismo. Sua eleição, com votação expressiva, foi impulsionada pela popularidade online e pelo discurso de combate à corrupção, mas a gestão como vereador logo se viu envolta em controvérsias que culminaram na perda do mandato.
Escândalos que marcaram a trajetória política
Durante o mandato, Gabriel Monteiro protagonizou uma série de episódios que alimentaram investigações no Conselho de Ética da Câmara Municipal. Sob a justificativa de fiscalizar serviços públicos, ele invadia hospitais, UPAs e abrigos, acompanhado de assessores que gravavam tudo para suas redes sociais. Em um dos casos, entrou em um hospital psiquiátrico em Botafogo, filmando pacientes sem autorização, o que gerou denúncias de abuso de autoridade. Em outro, deu voz de prisão a uma médica em uma UPA da Zona Norte, acusando-a de dormir durante o expediente, ação que motivou o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) a mover uma representação contra ele.
As denúncias mais graves, porém, vieram em 2022. Uma reportagem do “Fantástico” revelou depoimentos de ex-assessores que o acusaram de assédio moral e sexual, além de manipulação de vídeos com menores. Uma mulher relatou ter sido estuprada por Monteiro em julho de 2022, após sair de uma boate e ser levada à casa de um amigo dele no Joá. Segundo a denúncia do Ministério Público, ele a ameaçou com uma arma, recusou-se a usar preservativo e tentou filmar o ato. A vítima contraiu HPV, e um laudo confirmou lesões genitais, reforçando a acusação.
Outro caso envolveu a filmagem de uma relação sexual com uma adolescente de 15 anos, crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Monteiro alegou que acreditava que ela tinha 18 anos, mas as evidências levaram à abertura de processos criminais. Esses episódios culminaram na cassação do mandato e na prisão preventiva, decretada em novembro de 2022.
Cronologia dos eventos que levaram à prisão
A trajetória de Gabriel Monteiro é marcada por uma sequência de acontecimentos que refletem sua ascensão e queda. Confira os principais marcos:
- 2015: Ingressa na Polícia Militar do Rio de Janeiro e inicia carreira como youtuber.
- 2016-2019: Acumula 16 transgressões disciplinares na PM, incluindo faltas e porte irregular de arma.
- 2020: É eleito vereador com 60.326 votos, terceiro mais votado no Rio.
- 2021: Realiza invasões a órgãos públicos, como hospitais e abrigos, para produzir vídeos.
- Março de 2022: Reportagem do “Fantástico” expõe denúncias de assédio e manipulação de vídeos.
- Agosto de 2022: Tem o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.
- Novembro de 2022: É preso por estupro após se entregar em Niterói.
- Março de 2025: Justiça concede liberdade com medidas cautelares.
Essa linha do tempo destaca como as ações de Monteiro, inicialmente vistas como fiscalizações legítimas por seus apoiadores, se transformaram em evidências de crimes e abusos, segundo as investigações.
Impacto da cassação e os processos judiciais
A cassação de Gabriel Monteiro em agosto de 2022 foi um marco na Câmara Municipal do Rio. Com 48 votos favoráveis e apenas 2 contrários — dele próprio e do vereador Chagas Bola —, o processo foi conduzido pelo Conselho de Ética, que apontou violações graves, como exposição de menores, assédio e agressões. O relator, vereador Chico Alencar (PSOL), destacou que as provas eram “contundentes” para justificar a perda do mandato.
Além do estupro que motivou sua prisão, Monteiro responde a outros processos. Um deles trata de importunação e assédio sexual contra ex-assessores, com denúncias de atos libidinosos no ambiente de trabalho. Outro envolve abuso de poder por invadir instituições de acolhimento em 2021, resultando em uma condenação, em dezembro de 2024, a um ano de detenção — pena que foi convertida em serviços comunitários. Esses casos seguem em tramitação, e a liberdade condicional não significa absolvição.
Os processos judiciais também trouxeram à tona o uso da estrutura pública para fins pessoais. Ex-assessores revelaram que Monteiro mantinha uma equipe dedicada a produzir conteúdos monetizados e a perseguir adversários políticos, como a vereadora Laura Carneiro, então secretária municipal. Essas práticas contribuíram para a imagem de um parlamentar que misturava atuação pública com interesses privados.
Repercussão da soltura e medidas cautelares
A decisão de soltar Gabriel Monteiro gerou reações imediatas. Para seus apoiadores, a liberdade é vista como uma chance de provar inocência, enquanto críticos apontam o risco de impunidade em casos de crimes graves. A juíza Renata Guarino Martins determinou medidas rigorosas para monitorar o ex-vereador, incluindo:
- Uso de tornozeleira eletrônica para rastreamento.
- Proibição de sair do Rio de Janeiro sem autorização judicial.
- Comparecimento mensal em juízo.
- Restrição de contato com vítimas ou testemunhas dos processos.
A expectativa é que Monteiro deixe Bangu 8 ainda na noite desta sexta-feira, após os trâmites burocráticos. Ele terá cinco dias para instalar o dispositivo de monitoramento, sob pena de voltar à prisão em caso de descumprimento.
Detalhes das acusações de estupro
O caso que levou à prisão de Monteiro em 2022 envolve uma jovem de 22 anos na época dos fatos. Segundo a denúncia, ela conheceu o ex-vereador em uma boate e foi levada à casa de um amigo dele no Joá. Lá, ele teria trancado o quarto, apontado uma arma e forçado a relação sexual. A vítima relatou violência física, com tapas no rosto, e afirmou que Monteiro se recusou a usar preservativo, resultando na transmissão de HPV. Um laudo médico corroborou as lesões, fortalecendo a acusação do Ministério Público.
Esse não foi o único episódio. Outra denúncia, aceita em maio de 2022, trata da filmagem de sexo com uma adolescente de 15 anos, conhecida de Monteiro em seu condomínio no Recreio dos Bandeirantes. O vídeo circulou nas redes sociais, agravando as suspeitas de crimes contra menores. Esses casos expuseram um padrão de comportamento que chocou a opinião pública e alimentou as investigações.
O que dizem os números da carreira de Monteiro
A trajetória de Gabriel Monteiro pode ser resumida em dados que ilustram sua ascensão e os problemas enfrentados:
- 60.326 votos: Obtidos na eleição de 2020, tornando-o o terceiro mais votado.
- 16 transgressões: Registradas na PM entre 2015 e 2019.
- 48 a 2: Resultado da votação que cassou seu mandato em 2022.
- R$ 150 mil a R$ 300 mil: Estimativa mensal de faturamento com vídeos no YouTube.
Esses números refletem tanto o sucesso inicial quanto os desdobramentos de uma carreira marcada por controvérsias e denúncias.