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Adolescente de 15 anos debate com pais os perigos da misoginia online após série da Netflix

Adolescência
Foto: Adolescência - Foto: Netflix

Ben, um adolescente de 15 anos, sentou-se com seus pais, Sophie e Martin, em uma típica sala de estar britânica para discutir os temas pesados da série Adolescência, um sucesso recente da Netflix. Exibida em março de 2025, a produção acompanha Jamie, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega após ser influenciado por conteúdos misóginos na internet. A família, que assistiu ao programa junta na noite anterior, abriu espaço para uma conversa franca sobre redes sociais, influenciadores como Andrew Tate e os desafios enfrentados por jovens expostos a ideologias tóxicas. A discussão, realizada em um ambiente acolhedor com fotos de família nas prateleiras e um piano ao fundo, revelou preocupações compartilhadas e perspectivas distintas entre gerações.

Sophie, na casa dos 40 anos, preparou uma lista de tópicos antes da conversa, determinada a explorar como o uso do celular por Ben pode refletir os problemas mostrados na série. Martin, seu marido, também na faixa dos 40, acompanhou o diálogo com interesse, enquanto a irmã mais nova de Ben, considerada jovem demais para participar, ficou de fora. A série, que mistura drama e crítica social, serviu como ponto de partida para abordar questões como cyberbullying, pornografia e a cultura “incel” – termo que, surpreendentemente, Ben não conhecia até o pai explicá-lo durante o episódio. O adolescente, estudante de uma escola pública só para meninos, mostrou-se confiante ao expor suas visões, mas também admitiu desconforto ao falar de temas sexuais com os pais.

A iniciativa da família reflete uma tentativa de entender o universo digital que molda a vida dos jovens hoje. Enquanto Sophie e Martin buscam proteger o filho dos perigos online, Ben oferece uma perspectiva interna, destacando tanto os aspectos negativos quanto os positivos das redes sociais, que ele acha negligenciados na trama de Adolescência. A conversa também tocou em questões práticas, como o acesso de Ben a conselhos online via ChatGPT e TikTok, e em desafios sociais, como a dificuldade de formar amizades com meninas em um ambiente dominado por interações virtuais. O diálogo, marcado por momentos de tensão e compreensão mútua, expôs as complexidades de crescer na era digital.

Primeiras impressões sobre Adolescência

Assistir a uma série como Adolescência com os pais não é algo comum para a maioria dos adolescentes, mas Ben encarou a experiência com curiosidade. Ele descreveu a trama como um “retrato aproximado” da vida jovem, mas criticou o foco excessivo no lado sombrio das redes sociais. Para ele, o programa foi feito mais para adultos preocupados do que para refletir a realidade dos adolescentes de hoje. Jamie, o protagonista, é mostrado como um garoto vulnerável, influenciado por fóruns misóginos e cyberbullying até cometer um ato extremo. Ben, por outro lado, acha que a série exagera em detalhes como “códigos secretos de emojis”, que ele nunca viu entre seus colegas.

Sophie viu na série uma oportunidade de abrir o diálogo com o filho. Ela notou que Ben, apesar de popular na escola, já enfrentou problemas disciplinares por “comentários inadequados”, algo que a faz questionar o que ele absorve online. Martin, que apreciou a tensão dramática da produção, reconheceu que o enredo pode apelar ao “pior pesadelo” dos pais, mas concordou com Ben que falta um equilíbrio na portrayal das redes sociais. A família, então, mergulhou em uma análise que foi além da ficção, conectando os temas da série à vida real de Ben e às influências que o cercam.

Termos da machosfera explicados

A cultura “incel” e outros conceitos da chamada “machosfera” – um universo online que promove misoginia e antifeminismo – apareceram com força na série e na conversa da família. Ben surpreendeu os pais ao dizer que nunca tinha ouvido o termo “incel” antes, apesar de reconhecer insultos como “virgem” entre seus colegas. Martin precisou esclarecer que “incel” significa “celibatário involuntário”, referindo-se a homens que culpam mulheres por sua falta de relacionamentos sexuais. O termo, associado a ataques violentos nos últimos anos, parece ter perdido força nas redes sociais frequentadas por Ben, mostrando como a linguagem online evolui rapidamente entre os jovens.

Outros termos também surgiram na discussão:

  • Redpill: Ideia de “despertar” para uma suposta verdade sobre a dominação feminina na sociedade, comum em fóruns misóginos.
  • Machosfera: Rede de sites e comunidades que disseminam ódio contra mulheres e ideias de supremacia masculina.
  • Cyberbullying: Assédio online, como o sofrido pela vítima de Jamie na série, que reflete experiências reais de Ben e seus amigos.

Andrew Tate e sua influência

Um nome que ecoou na série e na conversa foi Andrew Tate, influenciador conhecido por suas visões misóginas e por atrair um público jovem masculino. Ben revelou que Tate foi “popular” em sua escola há cerca de dois anos, mas hoje é visto como “coisa do passado”. Ele analisou o apelo do influenciador com clareza: Tate mistura conselhos de bem-estar, como “se exercite por uma hora por dia”, com ideias extremistas, como a de que homens devem trabalhar enquanto mulheres ficam em casa. Para Ben, essa combinação é enganosa, mas já não tem o mesmo impacto entre seus colegas atualmente.

Sophie e Martin, por outro lado, veem Tate como um sintoma de algo maior. Eles acreditam que a misoginia online não começa nem termina com ele, mas reflete um problema social mais profundo, alimentado pela falta de modelos positivos e pela exposição constante a conteúdos tóxicos. A série usa Tate como exemplo do tipo de influência que pode radicalizar jovens como Jamie, mas a família de Ben sugere que o verdadeiro desafio está em oferecer alternativas que contraponham essas mensagens.

Redes sociais na vida de Ben

Crescer conectado é a realidade de Ben, que passa boa parte do dia no celular. Ele admite que as redes sociais têm um lado positivo, como manter contato com amigos e encontrar entretenimento, algo que Adolescência não mostra. No entanto, ele também reconhece os riscos. Cerca de um em cada dez vídeos que ele assiste contém material perturbador, como violência extrema, e a pornografia é um problema sério entre seus colegas. Alguns, segundo ele, são “viciados” e dependem dela para enfrentar o dia, um eco da trama da série, onde Jamie compartilha imagens sexuais online.

Sophie ficou preocupada ao ouvir que Ben busca conselhos sobre como falar com meninas no ChatGPT e no TikTok. Frequentando uma escola só para meninos, ele tem poucas chances de interagir com garotas da mesma idade, o que o leva a depender de fontes digitais. Um momento marcante na conversa veio quando ela lembrou de uma visita à casa de um primo de Ben, que estuda em uma escola mista. Lá, o primo o corrigiu ao sugerir que ele tinha interesse romântico por uma amiga, mostrando a Ben que meninos e meninas podem, sim, ser apenas amigos – uma lição que ele levou para casa com entusiasmo.

Amizades entre meninos e meninas

Explorar amizades entre gêneros foi um ponto sensível na discussão. Na série, Jamie vê as meninas apenas como objetos de dominação, uma visão distorcida que preocupa Sophie em relação ao filho. Ela teme que a falta de contato real com garotas, combinada com influências online, esteja moldando a percepção de Ben de forma negativa. “É um ciclo sem fim”, disse ela, ao perceber que ele busca orientação na internet quando se sente inseguro. Ben, por sua vez, admite que aprendeu mais sobre amizade com meninas na casa do primo do que em qualquer outro lugar.

Martin entrou na conversa, destacando que a série exagera a incapacidade dos jovens de formar laços saudáveis. Ele acredita que Ben, apesar das limitações de sua escola, tem potencial para desenvolver amizades equilibradas se tiver mais oportunidades. A família concordou que o ambiente escolar e as redes sociais criam barreiras, mas que experiências reais, como a visita ao primo, podem fazer a diferença. Esse contraste entre o mundo online e o offline ficou evidente como um dos maiores desafios para os pais de Ben.

Abuso online e pornografia

Outro tema que emergiu foi o compartilhamento de imagens íntimas, um problema central em Adolescência. Na série, a vítima de Jamie, Katie, sofre bullying após a divulgação de fotos pessoais sem seu consentimento. Ben relatou algo semelhante em sua própria escola: um garoto teve suas “partes íntimas” expostas em um grupo no TikTok, gerando grande repercussão. Ele vê esse tipo de abuso como comum entre adolescentes, algo que o deixa desconfortável, mas que ele não sabe como evitar completamente.

A pornografia, porém, foi o que mais o agitou durante a conversa. Olhando para a parede ou mexendo no celular, ele confessou que muitos colegas dependem dela de forma preocupante. A facilidade de acesso, mostrada na série quando Jamie posta imagens sexuais, é algo que Ben confirma na vida real. Sophie e Martin ouviram em silêncio, visivelmente inquietos com a naturalidade com que o filho descreveu o fenômeno, reforçando suas preocupações sobre o impacto do conteúdo digital na adolescência.

Cronologia da série e da discussão

A série Adolescência e a conversa da família seguiram uma linha do tempo que ajuda a contextualizar os eventos:

  • Início de março de 2025: Adolescência estreia na Netflix, ganhando destaque por sua abordagem de temas atuais.
  • Noite de 30 de março: Ben, Sophie e Martin assistem à série juntos em casa.
  • 31 de março, 00h: A família inicia a discussão, abordando os temas levantados pela trama.
  • 1º de abril: Data em que a conversa foi relatada, com atualizações sobre o impacto da série.

Soluções propostas pela família

Resolver os problemas destacados por Adolescência não é simples, mas a família tem ideias. Martin e Sophie defendem que os jovens precisam de mais atividades fora do mundo digital para construir autoestima e conexões reais. Eles citam os treinadores esportivos de Ben como exemplos de modelos masculinos positivos, algo que o próprio adolescente elogia com entusiasmo. No entanto, os pais reconhecem que essas oportunidades custam caro, deixando estudantes de baixa renda em desvantagem.

Sophie usou Jamie como exemplo: sem esportes ou apoio, ele se torna vulnerável a influências tóxicas. Ela e Martin acreditam que empresas de tecnologia, governos, escolas e famílias devem trabalhar juntos para oferecer alternativas à “machosfera”. Ben, por sua vez, insiste que os adultos precisam tratar as redes sociais como parte da “vida real”, e não como algo separado, já que elas moldam sua geração de forma profunda. “É um tsunami e alguém me deu um guarda-chuva”, resumiu Sophie, destacando a enormidade do desafio.

Impacto da machosfera nos jovens

A “machosfera” não é apenas ficção na série – ela afeta milhões de adolescentes globalmente. Dados recentes mostram sua escala:

  • Cerca de 1 em cada 5 jovens já foi exposto a conteúdos misóginos online antes dos 18 anos.
  • Plataformas como TikTok e YouTube hospedam milhares de vídeos com mensagens de ódio disfarçadas de “motivação”.
  • Ataques associados à ideologia “incel” cresceram 50% na última década em países como Reino Unido e EUA.

Vida escolar de Ben

Frequentando uma escola só para meninos, Ben é popular, mas nem sempre bem-visto pelos professores. Seus “comentários inadequados” já o levaram a detenções e períodos de isolamento, algo que Sophie liga às influências que ele pode estar absorvendo online. Apesar disso, ele se mostra articulado e reflexivo na conversa com os pais, sugerindo que o ambiente escolar sozinho não define quem ele é. A falta de interação com meninas na escola, porém, segue sendo uma preocupação para a família, que vê nisso um obstáculo para seu desenvolvimento social.

A série Adolescência amplificou essas questões ao mostrar como a exposição a ideias tóxicas pode distorcer a percepção dos jovens. Ben reconhece paralelos com sua vida, como o cyberbullying, mas mantém que sua experiência é mais equilibrada do que a de Jamie. Seus pais, enquanto isso, buscam formas de guiá-lo, equilibrando liberdade e proteção em um mundo onde o digital e o real se confundem cada vez mais.