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Angelina Jolie dialoga com cacique Raoni e reforça luta pela Amazônia no Xingu

Angelina Jolie
Foto: Angelina Jolie - Foto: Instagram

Angelina Jolie, atriz e ativista reconhecida mundialmente, desembarcou na aldeia Piaraçu, localizada na Terra Indígena Capoto-Jarina, no Parque do Xingu, Mato Grosso, em 2 de abril de 2025. O objetivo da visita foi um encontro com o cacique Raoni Metuktire, líder do povo Mẽbêngôkre-Kayapó e ícone global na defesa dos direitos indígenas e da preservação ambiental. Acompanhada pela organização Re:wild, focada na conservação da biodiversidade, Jolie passou horas conversando com Raoni e outras lideranças Kayapó, mergulhando nos desafios enfrentados pela comunidade, como o avanço do desmatamento, a mineração ilegal e a pressão do agronegócio. A presença da estrela de Hollywood, que há mais de duas décadas atua em causas humanitárias e ambientais, trouxe visibilidade internacional à luta pela proteção da Amazônia e da cultura indígena.

A visita ocorreu em um momento estratégico, às vésperas de um encontro entre Raoni e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcado para 4 de abril na mesma aldeia. Jolie, que não anunciou a viagem previamente nas redes sociais, foi recebida com entusiasmo pelos moradores de São José do Xingu, município próximo à terra indígena. Imagens mostram a atriz descendo de um pequeno avião ao lado de Raoni, enquanto vídeos capturam celebrações organizadas pelos indígenas em sua homenagem. O diálogo com as lideranças abordou a conexão profunda entre o povo Kayapó e a floresta, além das ameaças que colocam em risco a sobrevivência de ambos, reforçando o compromisso de Jolie com a conservação ambiental, algo que ela já pratica há 20 anos no Camboja.

Raoni, com mais de 90 anos, é uma figura histórica. Nascido na região do Xingu, ele ganhou projeção internacional em 1977, com um documentário exibido no Festival de Cannes, e em 1989, ao lado do cantor Sting, em uma turnê global pela causa indígena. Hoje, sua liderança é essencial na resistência contra a destruição da Amazônia, que perdeu 11.088 km² apenas em 2022, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A presença de Jolie no Xingu amplifica essa luta, conectando a realidade local a uma audiência global.

Marcos na trajetória de Raoni

A história de Raoni Metuktire é marcada por momentos que o transformaram em símbolo de resistência:

  • 1971: Liderou a oposição à construção da BR-080 (atual MT-322), que ameaçava terras indígenas.
  • 1977: Documentário sobre sua vida foi destaque em Cannes, levando sua voz ao mundo.
  • 1989: Junto a Sting, percorreu 17 países para arrecadar fundos e apoio à causa indígena.
  • 2023: Convocou o evento “Chamado do Raoni”, reunindo 54 etnias para discutir o marco temporal e mudanças climáticas.

Esses eventos mostram como Raoni se tornou uma ponte entre os povos indígenas e o cenário internacional, algo que a visita de Jolie agora reforça.

Uma ativista no coração da Amazônia

Angelina Jolie não é novata em causas humanitárias. Nomeada Embaixadora da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em 2001, ela realizou mais de 60 missões em países como Sudão e Síria, antes de se tornar Enviada Especial em 2012. No Camboja, onde mantém um projeto de conservação desde 2003, protegeu mais de 60 mil hectares de floresta, um trabalho que a conecta diretamente às questões enfrentadas no Xingu. Sua chegada à aldeia Piaraçu, a 42 km de São José do Xingu, foi discreta, mas o impacto foi imediato, com fotos e vídeos viralizando nas redes sociais.

Durante o encontro, Jolie ouviu relatos sobre o garimpo ilegal, que contamina rios como o Xingu com mercúrio, afetando a saúde de comunidades que dependem da pesca. Dados da Rede Xingu+ apontam que, em 2024, mais de 165 casos de Covid-19 foram registrados na Terra Indígena Capoto-Jarina, evidenciando a vulnerabilidade dessas populações a ameaças externas. A atriz também se informou sobre o avanço do agronegócio, que pressiona os limites das terras indígenas, reduzindo áreas de floresta nativa. Sua presença, ao lado da Re:wild, destaca a urgência de ações globais para preservar a Amazônia, que abriga 28 milhões de hectares no Parque do Xingu.

O interesse de Jolie pela causa indígena não é apenas simbólico. Ela caminhou pela aldeia, interagiu com os Kayapó e até participou de uma pintura tradicional no braço, um gesto que reflete respeito pela cultura local. A visita, embora breve, reacende o debate sobre a proteção de territórios que abrigam 16 etnias, como os Yawalapiti e os Kuikuro, e que enfrentam pressões crescentes.

Ameaças à terra e à cultura Kayapó

A Terra Indígena Capoto-Jarina, com cerca de 360 mil hectares, está na transição entre o Cerrado e a Amazônia, uma região crítica para a biodiversidade. Nos últimos anos, o desmatamento na Amazônia atingiu níveis alarmantes, com uma média anual de 10 mil km² entre 2019 e 2022. No Xingu, a situação é agravada pela mineração ilegal, que, segundo a Funai, cresceu 20% em 2023, invadindo áreas protegidas. Esse cenário ameaça a subsistência dos Kayapó, que dependem da floresta para caça, pesca e coleta.

Raoni, que já enfrentou a Covid-19 em 2020 e perdeu a esposa no mesmo ano, segue como voz ativa contra essas invasões. Em 2023, durante o “Chamado do Raoni”, ele reuniu mais de 800 indígenas de 54 etnias na aldeia Piaraçu, discutindo temas como o marco temporal, que limita a demarcação de terras às áreas ocupadas em 1988. A visita de Jolie ocorre em um contexto de renovação dessa luta, com o cacique anunciando sucessores, como Megaron Txucarramãe, para dar continuidade ao seu legado.

Além disso, a Ferrogrão, ferrovia planejada para escoar soja do Mato Grosso ao Pará, preocupa as lideranças. O terminal em Matupá, a 200 km da terra indígena, pode intensificar o tráfego de caminhões na MT-322, aumentando a pressão sobre o Parque do Xingu. Jolie, ao ouvir esses relatos, manifestou apoio às iniciativas que buscam frear tais projetos, alinhando-se à visão de Raoni de um futuro sustentável para a região.

Encontro com raízes globais

O diálogo entre Jolie e Raoni não é apenas um evento local. A atriz, que já se encontrou com líderes mundiais em suas missões humanitárias, traz uma perspectiva global à causa Kayapó. Em 1989, Raoni e Sting arrecadaram milhões para a preservação da Amazônia, um marco que inspirou a criação do Instituto Raoni. Hoje, a presença de Jolie repete esse padrão, conectando a luta indígena a uma audiência internacional que acompanha seus passos.

Na aldeia, as conversas abordaram a saúde indígena, afetada por doenças trazidas por invasores, e a educação, com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) formando mais de 600 indígenas desde 2001. A Re:wild, parceira de Jolie na visita, trabalha para proteger 30% das florestas globais até 2030, um objetivo que ressoa com os esforços de Raoni para manter o Xingu intacto. A troca de experiências entre os dois reflete uma aliança improvável, mas poderosa, entre Hollywood e a Amazônia.

A visita também coincide com um aumento na atenção global à Amazônia. Em 2024, o rei Charles III enviou uma carta a Raoni, elogiando sua luta, enquanto líderes como Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, participaram de eventos na região. Jolie, ao pisar em Piaraçu, reforça essa rede de apoio, trazendo visibilidade a um território que abriga mais de 5,5 mil indígenas.

Fatos que unem Jolie e Raoni

Alguns pontos conectam a trajetória da atriz e do cacique:

  • Ambos têm mais de 20 anos de ativismo ambiental, ela no Camboja e ele no Xingu.
  • Jolie visitou mais de 60 países em missões humanitárias; Raoni percorreu 17 com Sting.
  • A Re:wild, parceira de Jolie, protege áreas como o Xingu, lar de Raoni.
  • Os dois enfrentaram crises pessoais: ela com divórcios, ele com a perda da esposa.

Essas coincidências mostram como suas histórias, apesar de distintas, convergem na defesa da natureza e dos direitos humanos.

Um olhar para o futuro do Xingu

Raoni, aos 93 anos, prepara sua sucessão. Em 2023, anunciou nomes como Megaron Txucarramãe e Beptuk Metuktire para liderar a próxima geração Kayapó. A visita de Jolie, dias antes do encontro com Lula, sinaliza um momento de transição, com o cacique buscando aliados globais para fortalecer sua causa. O presidente, que já se reuniu com Raoni em 2023, deve discutir segurança alimentar e mudanças climáticas na agenda de 4 de abril.

Enquanto isso, a Amazônia segue em alerta. Em 2023, o garimpo ilegal gerou um prejuízo ambiental estimado em R$ 2 bilhões, segundo a Polícia Federal, com o Xingu entre as áreas mais afetadas. A presença de Jolie na aldeia Piaraçu, onde a MT-322 corta a paisagem, destaca a urgência de proteger esse ecossistema, que abriga 2,6 milhões de hectares de floresta. Sua interação com os Kayapó, pintando o braço e ouvindo histórias, mostra um respeito que vai além da fama.

A rotina na terra indígena, marcada por rituais e pela luta diária contra invasores, ganhou um novo capítulo com a chegada da atriz. Crianças Kayapó, que corriam ao redor do avião, e anciãos, que compartilharam saberes, foram parte de um dia que uniu duas figuras improváveis em prol de um objetivo comum: salvar o Xingu e sua gente.