A fumaça branca subiu da Capela Sistina no dia 8 de maio de 2025, anunciando a eleição do novo papa, mas não era Pietro Parolin. O cardeal italiano, amplamente cotado como favorito, viu o Trono de Pedro ser ocupado por Robert Francis Prevost, que assumiu o nome de Leão XIV. Parolin, conhecido por sua carreira diplomática e papel como “vice-papa” de Francisco, liderou as apostas e projeções, mas perdeu a chance de liderar a Igreja Católica.
A trajetória de Parolin, marcada por décadas de serviço à Santa Sé, despertou interesse global durante o conclave. Sua experiência como Secretário de Estado do Vaticano e sua habilidade em transitar entre progressistas e conservadores o colocaram no centro das atenções. No entanto, fatores como tensões internas e a ascensão de Prevost mudaram o rumo da votação.
O conclave de 2025, iniciado em 7 de maio, reuniu 133 cardeais eleitores na Capela Sistina. Entre os fatores que influenciaram a escolha, destacam-se:
Cardinal Pietro Parolin has agreed on a lifetime deal to became the new Pope, sources tell ESPN. pic.twitter.com/sYnXaeHW0x
— Matheus (@marcolinomths) May 8, 2025
- A busca por continuidade das reformas de Francisco.
- A necessidade de um líder com experiência global.
- O desejo de equilíbrio entre correntes ideológicas.
- A influência de cardeais de regiões emergentes, como Ásia e América Latina.
Enquanto Parolin era apontado como o nome mais forte, a eleição de Prevost revelou a complexidade das dinâmicas no Vaticano. Este texto detalha quem é Pietro Parolin, sua trajetória, os motivos de sua não eleição e o perfil do novo papa, Robert Francis Prevost.
Raízes e formação de um diplomata
Pietro Parolin nasceu em 17 de janeiro de 1955, em Schiavon, uma pequena cidade na província de Vicenza, no Vêneto, Itália. Filho de Luigi Parolin, um lojista de ferragens, e Ada Miotti, professora primária, ele cresceu em uma família católica de classe média. A perda do pai em um acidente de carro, quando Parolin tinha apenas 10 anos, marcou sua infância e reforçou sua ligação com a fé. Ordenado sacerdote em 1980, ele rapidamente se destacou por sua inteligência e dedicação, ingressando na Pontifícia Academia Eclesiástica em 1983 para se preparar para o serviço diplomático da Santa Sé.
A formação de Parolin incluiu um doutorado em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, o que lhe deu uma base sólida para navegar nas complexidades da administração eclesiástica. Fluente em italiano, inglês, francês e espanhol, ele desenvolveu habilidades que o tornariam um dos diplomatas mais respeitados do Vaticano. Sua carreira inicial incluiu missões na Nigéria e no México, onde lidou com contextos sociopolíticos desafiadores, como tensões entre comunidades cristãs e muçulmanas.
Ascensão na hierarquia do Vaticano
A trajetória de Parolin no serviço diplomático da Santa Sé começou oficialmente em 1986, aos 31 anos. Entre 2002 e 2009, ele atuou como subsecretário para as Relações com os Estados, participando de negociações com países como China, Vietnã, Cuba e Israel. Sua habilidade em conduzir diálogos delicados lhe rendeu a confiança de papas e cardeais. Em 2009, Bento XVI o nomeou núncio apostólico na Venezuela, onde enfrentou o governo de Hugo Chávez, defendendo os interesses da Igreja em um cenário politicamente hostil.
Em 2013, o Papa Francisco escolheu Parolin como Secretário de Estado do Vaticano, cargo equivalente a um primeiro-ministro. Aos 58 anos, ele se tornou o mais jovem a ocupar essa posição desde Eugenio Pacelli, futuro Pio XII, em 1930. Como Secretário de Estado, Parolin gerenciou a política externa da Santa Sé e a administração da Cúria Romana, consolidando sua imagem como o “número 2” de Francisco.
Principais feitos de Parolin no cargo:
- Liderou a reaproximação entre o Vaticano e a China, culminando no acordo de 2018 sobre a nomeação de bispos.
- Fortaleceu relações com o Vietnã, promovendo diálogo em um país de regime comunista.
- Mediou tensões no Oriente Médio, incluindo conversas entre Israel e Palestina.
- Representou o Vaticano em eventos globais, como encontros com líderes mundiais.
Sua proximidade com Francisco, com quem compartilhava a residência na Casa Santa Marta, reforçou sua influência. Parolin conduziu orações públicas, como o rosário na Praça São Pedro pela saúde do papa em 2025, e foi uma figura central na transição após a morte de Francisco, em 21 de abril.
Por que Parolin era o favorito
Antes do conclave, Parolin dominava as projeções para suceder Francisco. Uma análise do ChatGPT, solicitada pela emissora francesa BFMTV, estimou que ele tinha 27,6% de chances de ser eleito, baseado em critérios como composição do colégio cardinalício, perfil diplomático e continuidade do legado de Francisco. Plataformas de apostas, como a Polymarket, também o colocavam à frente, com cerca de 29% das preferências dias antes da votação.
O cardeal italiano era visto como um candidato de compromisso, capaz de unir progressistas, que valorizavam suas reformas diplomáticas, e conservadores, atraídos por sua postura moderada em questões doutrinárias. Ele defendia os dogmas tradicionais da Igreja, como a oposição ao casamento homoafetivo, que classificou como “uma derrota para a humanidade” em 2015, mas mostrava abertura para discutir temas como o celibato clerical, sugerindo que a norma poderia ser revisada.
Parolin também contava com vantagens estratégicas. Como cardeal-bispo sênior com menos de 80 anos, ele presidiu o conclave de 2025, assumindo o papel devido à idade avançada do decano Giovanni Battista Re e do vice-decano Leonardo Sandri. Essa posição lhe deu visibilidade entre os eleitores. Além disso, sua origem italiana atendia ao desejo de parte do colégio cardinalício de devolver o papado à Itália após 47 anos, desde João Paulo I, em 1978.
Tensões e controvérsias
Apesar de sua posição privilegiada, Parolin enfrentou obstáculos que podem ter enfraquecido sua candidatura. Durante seu mandato como Secretário de Estado, ele foi associado a escândalos financeiros, como o caso envolvendo o cardeal Angelo Becciu, condenado por peculato e fraude em 2023. O escândalo girava em torno de um investimento milionário em um imóvel de luxo em Londres, financiado com fundos do Óbolo de São Pedro. Embora Parolin não tenha sido diretamente implicado, críticos apontaram falhas em sua supervisão.
Outro ponto de tensão foi o acordo de 2018 com a–
China e críticas conservadoras
A reaproximação com a China, liderada por Parolin, gerou divisões no Vaticano. O acordo de 2018, que permitiu maior diálogo na nomeação de bispos chineses, foi criticado por setores conservadores, que o viam como uma concessão ao governo de Pequim. Cardeais como Gerhard Müller acusaram Parolin de priorizar a diplomacia em detrimento da doutrina. Apesar de defender o pacto, argumentando que ele evitou um cisma e abriu canais de comunicação, Parolin enfrentou resistência de cardeais que temiam a influência chinesa sobre a Igreja.
O cardeal também foi alvo de críticas por suas relações com a maçonaria. Em 2019, Giuliano Di Bernardo, ex-Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália, afirmou ter ajudado Parolin a resolver um problema com o governo chinês anos antes. Embora não haja evidências de laços atuais, a menção alimentou especulações entre os conservadores, que viam Parolin como excessivamente pragmático.
Dinâmicas do conclave
O conclave de 2025, iniciado em 7 de maio, foi marcado por uma diversidade geográfica sem precedentes, com 71 países representados entre os 133 eleitores. Dos 135 cardeais aptos, dois desistiram por motivos de saúde, e 108 foram nomeados por Francisco, o que sugeria uma inclinação por candidatos alinhados às suas reformas. Parolin, que começou com cerca de 40 votos, segundo estimativas, enfrentou concorrência de nomes como o filipino Luis Antonio Tagle, o italiano Matteo Zuppi e o americano Robert Francis Prevost.
A eleição de Prevost, anunciada em 8 de maio, surpreendeu muitos observadores. O cardeal americano, nascido em Chicago em 1955, trouxe uma combinação de experiência internacional e moderação que conquistou os eleitores. Sua nomeação como prefeito do Dicastério para os Bispos em 2023, por Francisco, colocou-o em uma posição estratégica, influenciando a escolha de bispos globais.
Fatores que podem ter favorecido Prevost:
- Sua experiência de duas décadas no Peru, onde se tornou cidadão naturalizado.
- Sua abordagem equilibrada, vista como menos polarizadora que a de Parolin.
- O apoio de cardeais latino-americanos e asiáticos, que buscavam um papa com visão global.
- A rejeição de Parolin por setores conservadores devido ao acordo com a China.
Perfil de Robert Francis Prevost
Robert Francis Prevost, agora Papa Leão XIV, nasceu em 14 de setembro de 1955, em Chicago, Estados Unidos. Ordenado sacerdote em 1982, ele pertence à Ordem de Santo Agostinho e passou grande parte de sua carreira no Peru, onde atuou como missionário, pároco e bispo de Chiclayo. Sua trajetória inclui um doutorado em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade de Santo Tomás de Aquino, em Roma, e fluência em espanhol e italiano.
Prevost ganhou destaque em 2023, quando Francisco o nomeou prefeito do Dicastério para os Bispos, um cargo que lhe deu influência sobre a nomeação de bispos em todo o mundo. Sua experiência internacional, aliada a uma postura serena, o tornou uma alternativa viável em um conclave dividido. No Peru, ele foi elogiado por apoiar imigrantes venezuelanos e visitar comunidades remotas, mas enfrentou críticas por sua condução de casos de abuso sexual, embora defensores aleguem que ele foi alvo de campanhas difamatórias.
Momentos decisivos na votação
A eleição de Prevost ocorreu após intensas negociações na Capela Sistina. No primeiro dia do conclave, 7 de maio, as portas foram fechadas com o tradicional “Extra omnes”, e o cardeal Raniero Cantalamessa conduziu uma meditação para orientar os eleitores. Parolin, como presidente do conclave, supervisionou as sessões iniciais, mas sua candidatura perdeu força à medida que cardeais buscavam um nome menos associado a controvérsias.
A fumaça branca surgiu na manhã de 8 de maio, após poucas rodadas de votação, indicando a escolha de Prevost. O cardeal protodiácono Dominique Mamberti anunciou “Habemus Papam” da varanda da Basílica de São Pedro, apresentando Leão XIV ao mundo. A rapidez da decisão surpreendeu, dado o número de candidatos fortes, como Parolin, Tagle e Zuppi.
Reações à eleição
A escolha de Prevost foi recebida com entusiasmo em algumas regiões, especialmente na América Latina, onde sua experiência no Peru o tornou uma figura respeitada. Em Chicago, sua cidade natal, fiéis celebraram a possibilidade de um papa americano, o primeiro na história. No entanto, setores conservadores do Vaticano expressaram preocupação com sua abordagem moderada, temendo uma continuidade das políticas de Francisco.
Parolin, por sua vez, manteve-se discreto após o conclave. Como Secretário de Estado, ele deve continuar a desempenhar um papel central na transição para o novo pontificado, auxiliando Leão XIV na formação de sua equipe. Sua influência no Vaticano permanece significativa, apesar da não eleição.
Legado de Parolin
A carreira de Pietro Parolin, mesmo sem o papado, deixa marcas na história da Igreja. Sua diplomacia abriu portas em regiões onde o catolicismo enfrenta desafios, como a Ásia e o Oriente Médio. O acordo com a China, embora polêmico, é visto por alguns como um marco na expansão da influência da Igreja em um país com milhões de católicos.
Parolin também modernizou a administração da Santa Sé, promovendo maior transparência em questões financeiras, apesar dos escândalos. Sua habilidade em dialogar com líderes globais, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem se reuniu em 2024, reforçou a relevância do Vaticano na geopolítica.
Papel no futuro da Igreja
Com Leão XIV no comando, Parolin deve permanecer como uma figura de peso no Vaticano. Sua experiência como Secretário de Estado e sua proximidade com Francisco o tornam um conselheiro valioso para o novo papa. A transição para o novo pontificado exigirá equilíbrio, especialmente em temas como a sinodalidade, promovida por Francisco, e as tensões com a China.
O cardeal italiano, aos 70 anos, ainda tem anos de serviço pela frente, já que cardeais podem atuar em cargos importantes até os 80. Sua trajetória sugere que ele continuará a moldar a Igreja, mesmo fora do Trono de Pedro.
Cronologia do conclave
Os eventos que culminaram na eleição de Leão XIV seguiram um roteiro tradicional, mas com nuances modernas:
- 21 de abril de 2025: Papa Francisco morre aos 88 anos.
- 25 de abril: Funeral de Francisco é concluído, e o conclave é marcado para 7 de maio.
- 7 de maio: Cardeais iniciam o conclave na Capela Sistina, com Parolin como presidente.
- 8 de maio: Fumaça branca anuncia a eleição de Robert Francis Prevost como Leão XIV.
- 8 de maio, tarde: Prevost aparece na varanda da Basílica de São Pedro como novo papa.
Perfil global do novo papa
Leão XIV assume o papado em um momento de desafios globais, incluindo conflitos no Oriente Médio, tensões entre Estados Unidos e China, e a crise climática. Sua experiência no Peru e na Cúria Romana o prepara para enfrentar questões como a migração e a justiça social, temas caros a Francisco. Sua nacionalidade americana também levanta questões sobre o papel dos Estados Unidos na Igreja, tradicionalmente dominada por europeus.
Prevost já indicou, em discursos passados, uma visão de Igreja que transcende o Atlântico Norte, reconhecendo a importância de regiões como a África e a Ásia. Sua eleição reflete a crescente influência de cardeais de fora da Europa, um legado de Francisco, que nomeou 108 dos 135 eleitores do conclave.
Expectativas no Vaticano
A administração de Leão XIV deve priorizar a continuidade das reformas de Francisco, mas com um tom mais conciliador. Prevost é descrito como cauteloso, evitando declarações impulsivas, ao contrário do estilo direto de Francisco. Sua experiência no Dicastério para os Bispos sugere que ele dará atenção à escolha de líderes eclesiásticos alinhados com uma visão global.
No Vaticano, a transição já começou, com reuniões entre Prevost e membros da Cúria. Parolin, como Secretário de Estado, está envolvido na organização inicial do novo pontificado, garantindo a continuidade das operações. A nomeação de novos cardeais, esperada nos próximos anos, será um teste para a direção que Leão XIV deseja dar à Igreja.
