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Argentina flexibiliza uso de dólares sem declarar origem para impulsionar economia

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Foto: Dolar - Foto: Julia Tsokur/Shuterstock.com

O governo da Argentina revelou, nesta quinta-feira (22), uma iniciativa que promete transformar a dinâmica econômica do país. A medida, anunciada pelo presidente Javier Milei, permite que cidadãos utilizem dólares mantidos fora do sistema financeiro sem a necessidade de declarar sua origem. O objetivo é incentivar a circulação de bilhões de dólares guardados informalmente, estimulando a compra de bens como eletrodomésticos, carros e imóveis. A proposta, que combina um decreto presidencial e um projeto de lei, já gera debates intensos sobre seus efeitos no mercado e na sociedade.

A estratégia, chamada de “Plano de reparação histórica da poupança dos argentinos”, busca reduzir controles rígidos sobre a poupança. Segundo o ministro da Economia, Luis Caputo, a medida pode liberar entre US$ 200 bilhões e US$ 400 bilhões, valores que representam até 66% do PIB argentino. Essa injeção de capital é vista como um motor para acelerar o crescimento econômico. O governo aposta que, ao facilitar o uso desses recursos, o consumo interno será impulsionado, trazendo alívio a um país marcado por inflação alta e desvalorização do peso.

O plano também inclui promessas ambiciosas de cortes fiscais. Caso a economia cresça entre 6% e 8%, o governo projeta devolver ao setor privado entre US$ 420 bilhões e US$ 550 bilhões por meio de reduções tributárias. A proposta, no entanto, depende da aprovação legislativa e da adesão da população, que historicamente recorre ao mercado informal para proteger suas economias.

  • Objetivo principal: Estimular a circulação de dólares guardados informalmente.
  • Bens contemplados: Eletrodomésticos, veículos, imóveis e terrenos.
  • Impacto esperado: Aceleração do crescimento econômico e aumento do consumo.
  • Valores estimados: Entre US$ 200 bilhões e US$ 400 bilhões fora do sistema financeiro.

Medida visa reduzir controles cambiais

A decisão de liberar o uso de dólares não declarados marca uma mudança significativa na política econômica argentina. O governo de Milei, desde sua posse, tem promovido a flexibilização de regulamentações financeiras. O decreto presidencial, que será complementado por um projeto de lei enviado ao Congresso, reduz as barreiras impostas aos cidadãos que acumulam moedas estrangeiras. Essas restrições, conhecidas como “cepo cambial”, vigoravam desde 2019 e limitavam a compra de dólares para conter a fuga de capitais.

O ministro Luis Caputo destacou que a medida elimina a obrigatoriedade de justificar a origem dos recursos. Em entrevista, ele afirmou que a iniciativa permitirá que os argentinos usem seus dólares livremente, sem temor de investigações fiscais. A expectativa é que a circulação desses valores fortaleça setores como o varejo e a construção civil, que têm sofrido com a crise econômica.

A proposta também reflete a realidade do mercado argentino, onde o dólar é visto como uma reserva de valor. A desvalorização constante do peso e a inflação elevada levaram muitos cidadãos a recorrerem ao “dólar blue”, o câmbio paralelo. Dados apontam que a diferença entre o câmbio oficial e o informal chegou a superar 100% em alguns momentos, incentivando a informalidade.

  • Principais mudanças: Fim da exigência de declarar origem dos dólares.
  • Setores beneficiados: Varejo, construção civil e mercado automotivo.
  • Contexto: Inflação e desvalorização do peso impulsionam o mercado paralelo.

Declarações de Milei geram controvérsia

As declarações do presidente Javier Milei sobre a medida têm provocado reações polarizadas. Em entrevista ao programa “Otra Mañana”, na última segunda-feira (19), Milei defendeu a flexibilização das regras tributárias e chegou a elogiar aqueles que evitam o pagamento de impostos. Ele classificou os sonegadores como “heróis” que se protegeram de “políticos ladrões”. A fala, transmitida pela emissora Radio Mitre, gerou críticas de setores que consideram a postura um incentivo à informalidade.

Milei argumentou que a alta carga tributária e a inflação, que ele descreveu como um “imposto inflacionário”, justificam a busca por alternativas fora do sistema financeiro. Segundo o presidente, a medida é uma forma de reconhecer a realidade dos argentinos, que acumulam dólares para proteger seu patrimônio. Ele também criticou as políticas anteriores, afirmando que elas “asfixiaram” a economia.

A entrevista, conduzida pelo jornalista Antonio Laje, destacou a escala dos recursos guardados informalmente. Milei reforçou que a liberação desses valores pode representar uma “revolução econômica”, desde que o Congresso aprove o projeto de lei. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de deputados opositores, que temem um aumento da evasão fiscal.

Histórico de restrições cambiais

A política de controle cambial, conhecida como “cepo”, foi implementada em 2019 pelo governo de Alberto Fernández. A medida visava estabilizar a economia em meio a uma crise marcada por alta inflação e fuga de capitais. Na época, o governo limitou a compra de dólares a US$ 200 por mês para pessoas físicas, com taxas adicionais que encareciam as transações. Essas restrições levaram ao fortalecimento do mercado paralelo, onde o “dólar blue” se tornou uma referência para os argentinos.

O governo de Milei, ao assumir em dezembro de 2023, prometeu desmontar o cepo gradualmente. Em abril de 2025, foi anunciada a adoção do câmbio flutuante, permitindo que o peso varie entre 1.000 e 1.400 por dólar, conforme a oferta e demanda. A medida, segundo o Banco Central da Argentina, busca estabilizar a moeda e atrair investimentos estrangeiros.

A liberação do uso de dólares não declarados é mais um passo nessa direção. O governo espera que a flexibilização estimule a confiança no sistema financeiro, reduzindo a dependência do mercado informal. Dados do Banco Central indicam que, em 2024, a saída de capitais diminuiu 15% em relação ao ano anterior, um sinal de que as medidas podem estar surtindo efeito.

  • Objetivo do cepo (2019): Evitar fuga de capitais e estabilizar o peso.
  • Câmbio flutuante (2025): Peso varia entre 1.000 e 1.400 por dólar.
  • Impacto no mercado informal: Redução da diferença entre câmbio oficial e “dólar blue”.
  • Dados recentes: Saída de capitais caiu 15% em 2024.

Promessa de cortes tributários

O plano de Milei inclui uma promessa ousada: reduzir significativamente a carga tributária caso a economia cresça. O ministro Luis Caputo afirmou que, com um crescimento de 6% a 8% ao ano, o governo poderá devolver ao setor privado entre US$ 420 bilhões e US$ 550 bilhões. Esses valores, segundo ele, serão liberados por meio de cortes de impostos e incentivos fiscais, beneficiando empresas e consumidores.

A proposta depende, no entanto, da aprovação do projeto de lei no Congresso. Parlamentares da oposição já expressaram preocupações com a viabilidade fiscal da medida. Eles argumentam que a redução de impostos pode comprometer as contas públicas, especialmente em um contexto de inflação persistente. Em 2024, a inflação argentina acumulou 45%, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC).

Apesar das críticas, o governo mantém o otimismo. Caputo destacou que a injeção de dólares na economia pode gerar um ciclo virtuoso, com aumento do consumo, criação de empregos e fortalecimento da indústria. Ele também mencionou o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), que liberou novos recursos para a Argentina em 2025.

Setores que podem se beneficiar

A liberação do uso de dólares não declarados deve impactar diretamente setores estratégicos da economia argentina. O mercado imobiliário, por exemplo, pode ganhar fôlego com a possibilidade de usar dólares para a compra de imóveis e terrenos. Em Buenos Aires, os preços de propriedades em dólar se mantiveram estáveis nos últimos anos, mas a falta de acesso à moeda limitava as transações.

O setor automotivo também espera um aumento na demanda. Dados da Associação de Concessionárias de Automóveis (ACARA) mostram que as vendas de veículos novos caíram 20% em 2024 devido à crise econômica. Com a nova medida, concessionárias preveem uma recuperação gradual, especialmente para modelos importados, que exigem pagamento em dólar.

O comércio varejista, especialmente de eletrodomésticos, é outro beneficiado. Lojas como Garbarino e Frávega já anunciaram promoções para atrair consumidores que utilizarem dólares. A expectativa é que o aumento do consumo impulsione a arrecadação de impostos indiretos, como o IVA, compensando parte da redução tributária prometida pelo governo.

  • Setores impactados: Imobiliário, automotivo e varejista.
  • Queda nas vendas de carros: 20% em 2024, segundo a ACARA.
  • Estratégia do varejo: Promoções para atrair compradores com dólares.

Reações no mercado financeiro

A anúncio da medida gerou movimentos no mercado financeiro argentino. Na Bolsa de Valores de Buenos Aires, as ações de empresas do setor imobiliário e varejista registraram alta de até 5% na quinta-feira (22). Analistas atribuem o otimismo à expectativa de maior circulação de dólares, que pode fortalecer o consumo interno.

Por outro lado, o mercado de câmbio mostrou cautela. O “dólar blue” subiu 2% no dia do anúncio, refletindo incertezas sobre o impacto da medida na demanda por moeda estrangeira. O Banco Central interveio para estabilizar o peso, vendendo US$ 50 milhões em reservas no mercado oficial.

A flexibilização do cepo e a liberação de dólares não declarados também atraíram a atenção de investidores estrangeiros. Segundo a agência Bloomberg, fundos de investimento estão monitorando a Argentina, mas aguardam sinais de estabilidade macroeconômica antes de ampliar suas apostas no país.

Apoio do FMI e perspectivas econômicas

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem desempenhado um papel central na reestruturação econômica da Argentina. Em 2025, o organismo liberou uma nova tranche de US$ 4,5 bilhões para o país, com condições que incluem a redução do déficit fiscal e a estabilização do peso. A medida de Milei alinha-se com as recomendações do FMI, que defende a flexibilização de controles cambiais para atrair investimentos.

O governo argentino espera que a injeção de dólares guardados informalmente complemente os recursos do FMI. A meta é reduzir a inflação, que atingiu 45% em 2024, para um patamar de 20% até o final de 2026. O fortalecimento do peso também é uma prioridade, já que a desvalorização da moeda encarece importações e pressiona os preços.

A liberação do uso de dólares não declarados é vista como um passo para integrar a economia informal ao sistema financeiro. Dados do Banco Mundial estimam que 40% da economia argentina opera na informalidade, um dos maiores índices da América Latina. A medida, se bem-sucedida, pode reduzir esse percentual, aumentando a arrecadação tributária.

  • Recursos do FMI: US$ 4,5 bilhões liberados em 2025.
  • Meta de inflação: Reduzir de 45% (2024) para 20% (2026).
  • Economia informal: Representa 40% do PIB, segundo o Banco Mundial.

Desafios legislativos

A implementação plena da medida depende da aprovação do projeto de lei no Congresso argentino. O partido de Milei, La Libertad Avanza, detém apenas 38 das 257 cadeiras na Câmara dos Deputados, o que exige negociações com outras legendas. A oposição, liderada pelo Partido Justicialista, já sinalizou resistência, alegando que a proposta pode incentivar a lavagem de dinheiro.

Para contornar as críticas, o governo prometeu incluir salvaguardas no projeto de lei. Entre as medidas, está a criação de um registro voluntário para quem optar por declarar os dólares, com incentivos fiscais. A iniciativa busca equilibrar a flexibilização com a necessidade de transparência.

As negociações no Congresso devem começar na próxima semana, com votação prevista para o início de junho. O governo trabalha para formar uma coalizão com partidos de centro-direita, como o PRO, que apoiam a agenda de desregulamentação econômica.

Perfil dos dólares guardados

A prática de guardar dólares fora do sistema financeiro é uma tradição na Argentina. A desconfiança nas instituições bancárias, agravada por crises como o “corralito” de 2001, levou muitos cidadãos a armazenarem moedas em casa ou no exterior. Estima-se que 70% dos dólares guardados estejam em território argentino, enquanto os 30% restantes estão em contas offshore ou bancos estrangeiros.

O ministro Luis Caputo destacou que a medida não visa apenas os grandes investidores, mas também a classe média. Famílias que acumulam pequenas quantias em dólar, muitas vezes para proteção contra a inflação, poderão usar esses recursos para compras do dia a dia. A expectativa é que a facilidade de uso incentive a circulação de moedas, reduzindo a pressão sobre o mercado paralelo.

O governo também planeja campanhas de conscientização para explicar os benefícios da medida. Anúncios em rádio e TV devem começar em junho, destacando exemplos práticos, como a compra de uma geladeira ou a entrada para um imóvel com dólares guardados.

  • Localização dos dólares: 70% na Argentina, 30% no exterior.
  • Público-alvo: Classe média e pequenos poupadores.
  • Campanhas previstas: Início em junho, com foco em bens de consumo.

Reações da sociedade

A medida dividiu opiniões entre os argentinos. Em Buenos Aires, comerciantes celebraram a possibilidade de aumento nas vendas, especialmente no setor de eletrodomésticos. Já trabalhadores informais, que dependem do “dólar blue” para pequenas transações, expressaram preocupação com a valorização do peso, que pode reduzir seus ganhos.

Sindicatos também criticaram a proposta, alegando que ela beneficia principalmente os mais ricos, que acumulam grandes quantias em dólar. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) planeja uma manifestação em julho, exigindo medidas que priorizem os salários e o emprego. A entidade aponta que a inflação corroeu o poder de compra em 25% desde 2023.

Por outro lado, associações de pequenos e médios empresários, como a CAME, apoiam a iniciativa. Elas acreditam que a circulação de dólares pode revitalizar o comércio local, especialmente em cidades menores, onde a crise econômica tem sido mais severa.

Próximos passos do governo

O governo de Milei planeja monitorar os efeitos da medida nos próximos meses. O Banco Central criará um comitê para acompanhar a circulação de dólares e seu impacto no câmbio. Relatórios mensais serão divulgados, com dados sobre o volume de transações em moeda estrangeira.

Além disso, o Ministério da Economia prepara incentivos adicionais para quem optar por declarar seus dólares. Entre as propostas, está a isenção de impostos para depósitos bancários em moeda estrangeira realizados até o final de 2025. A medida visa atrair parte dos recursos guardados para o sistema financeiro formal.

O sucesso da iniciativa dependerá de fatores como a confiança da população e a estabilidade política. Enquanto o governo celebra a medida como um marco, a oposição promete intensificar o escrutínio, garantindo que o debate sobre os dólares não declarados continue no centro da agenda argentina.