A produção de Liga da Justiça (2017) permanece como um marco controverso na história do cinema de super-heróis. Dirigido inicialmente por Zack Snyder e finalizado por Joss Whedon, o filme enfrentou desafios que vão desde tragédias pessoais até decisões corporativas questionáveis. O resultado foi um longa que dividiu fãs, críticos e marcou o declínio do Universo Estendido DC (DCEU). As histórias de bastidores, repletas de conflitos, mudanças criativas e polêmicas, revelam como o projeto se tornou um dos mais caóticos da Warner Bros.
O caminho até a estreia envolveu trocas de diretores, refilmagens custosas e desentendimentos entre elenco e equipe. A visão inicial de Snyder, com tons sombrios e narrativas densas, colidiu com a tentativa do estúdio de adotar um estilo mais leve, inspirado nos sucessos da Marvel. Enquanto isso, os atores enfrentaram condições difíceis, e o público acompanhou um movimento crescente por uma versão alternativa do filme.
Alguns pontos definiram a turbulência do projeto:
- A saída de Zack Snyder após uma tragédia familiar.
- Acusações graves contra Joss Whedon por comportamento no set.
- Problemas técnicos, como o infame bigode de Henry Cavill.
- A campanha dos fãs que resultou no Snyder Cut.
Esses eventos transformaram Liga da Justiça em mais do que um filme: um estudo de caso sobre os desafios de grandes produções cinematográficas.
Uma tragédia interrompe a visão original
Zack Snyder comandava Liga da Justiça ao lado de sua esposa, Deborah Snyder, quando uma tragédia abalou a produção. Em 2017, a filha do casal, Autumn Snyder, faleceu por suicídio, impactando profundamente a família. Apesar do luto, Snyder tentou continuar no projeto, mas as pressões dos executivos da Warner Bros. tornaram a situação insustentável. A decisão de abandonar o filme veio após meses de conflitos criativos, com o estúdio exigindo mudanças para tornar o longa mais acessível ao grande público.
O casal deixou a produção com cerca de 70% do filme concluído. A saída marcou o início de uma reformulação que alteraria drasticamente o tom e a narrativa planejados. A escolha de Snyder de priorizar a família foi respeitada pelo elenco, mas abriu espaço para uma série de decisões controversas por parte do estúdio.
A chegada de Joss Whedon
Para substituir Snyder, a Warner contratou Joss Whedon, conhecido por dirigir Os Vingadores (2012) e Vingadores: Era de Ultron (2015). A escolha gerou desconfiança imediata entre os fãs, que viam Whedon como um símbolo do estilo leve e humorístico da Marvel. Na época, Whedon também trabalhava no projeto de Batgirl para a DC, o que aumentou a percepção de que o estúdio buscava replicar a fórmula de sucesso da concorrente.
Whedon assumiu a tarefa de finalizar as filmagens e liderar extensas refilmagens. Suas alterações incluíram cortes significativos no arco do Ciborgue, interpretado por Ray Fisher, e a adição de cenas mais cômicas. As mudanças, no entanto, não agradaram a todos, e relatos de tensões no set começaram a surgir, apontando para um ambiente de trabalho conturbado.
Reações inesperadas do público
Antes da saída oficial de Snyder, a produção brincou com os fãs em 1º de abril, anunciando que George Miller, diretor de Mad Max: Estrada da Fúria, assumiria o comando. A reação do público foi surpreendentemente positiva, com muitos expressando entusiasmo pela possibilidade de um novo olhar sobre o DCEU. A Warner interpretou o apoio como um sinal de descontentamento com a visão de Snyder, o que influenciou decisões futuras.
Quando a troca por Whedon foi confirmada, as reações foram mais contidas. A tragédia pessoal de Snyder gerou condolências generalizadas, e o debate sobre a direção do filme ficou em segundo plano. Ainda assim, a escolha de Whedon foi vista como um divisor de águas, sinalizando o fim do chamado SnyderVerso.
Acusações graves no set
Em 2020, Ray Fisher, intérprete do Ciborgue, fez denúncias públicas contra Joss Whedon. Segundo o ator, o diretor foi anti-profissional, tratando o elenco com grosseria e promovendo mudanças que diminuíram a relevância de seu personagem. Fisher também acusou Whedon de clarear digitalmente sua pele na pós-produção, uma decisão que levantou debates sobre representação racial.
Gal Gadot, a Mulher-Maravilha, corroborou as denúncias, revelando que Whedon a pressionou a gravar cenas com maior carga sexual, ameaçando prejudicar sua carreira caso ela recusasse. As acusações expuseram um ambiente tóxico durante as refilmagens e levaram a investigações internas pela Warner. Whedon negou as alegações, mas o escândalo manchou ainda mais a reputação do filme.
Alguns pontos destacados nas denúncias incluem:
- Comportamento agressivo de Whedon com membros do elenco.
- Alterações no roteiro sem consulta aos atores.
- Falta de resposta da Warner às queixas iniciais.
- Impacto emocional no elenco, especialmente em Fisher e Gadot.
Gravidez nos bastidores
Gal Gadot enfrentou desafios únicos durante as filmagens. Após concluir Mulher-Maravilha (2017), ela começou a trabalhar em Liga da Justiça no dia seguinte, sem pausas. Durante os meses finais de produção, Gadot descobriu estar grávida, mas optou por manter a informação em segredo.
Jason Momoa, intérprete do Aquaman, percebeu sinais da gravidez, como o brilho na pele da colega, e perguntou diretamente se ela estava esperando um bebê. Gadot confirmou, e Momoa guardou o segredo, demonstrando apoio à amiga. A gravidez exigiu ajustes discretos no cronograma de filmagens, mas não comprometeu o desempenho da atriz.
Desafios com o traje do Batman
Ben Affleck, que viveu o Batman, enfrentou dificuldades com o uniforme do personagem. Em entrevista, o ator descreveu o traje como desconfortável e pouco prático, projetado mais para estética do que para o conforto. O material não permitia ventilação, causando calor excessivo durante as filmagens.
Affleck relatou suar intensamente dentro do uniforme, especialmente em cenas de ação. A experiência foi tão desgastante que o ator passou a evitar longos períodos com o traje sempre que possível. As reclamações destacaram os desafios práticos enfrentados pelo elenco em produções de grande escala.
Uma fala que virou piada
A sequência de introdução do Aquaman, gravada na Islândia, incluiu uma fala de Jason Momoa em islandês. A pronúncia do ator, no entanto, foi tão imprecisa que gerou risadas durante uma sessão de teste no país. O público local teve dificuldade em entender a fala, transformando a cena em um momento cômico não intencional.
Para resolver o problema, a Warner adicionou legendas em islandês na versão exibida nos cinemas do país. O incidente, embora leve, tornou-se mais uma curiosidade na lista de peculiaridades da produção.
O bigode que custou milhões
Uma das polêmicas mais comentadas de Liga da Justiça envolveu o bigode de Henry Cavill. Durante as refilmagens, o ator estava comprometido com Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018), onde seu personagem usava um bigode. A Paramount, estúdio responsável pelo filme, proibiu Cavill de raspar o rosto, forçando a Warner a remover o bigode digitalmente.
O processo de edição custou cerca de US$ 30 milhões, mas o resultado foi desastroso. A remoção digital deixou o rosto de Cavill com uma aparência artificial, especialmente nas cenas do Superman. A falha técnica virou alvo de memes e críticas, simbolizando os problemas das refilmagens.
A campanha pelo Snyder Cut
Após a estreia de Liga da Justiça, Zack Snyder começou a compartilhar imagens de sua versão original do filme nas redes sociais. A insatisfação dos fãs com o corte de Whedon gerou um movimento chamado Release the Snyder Cut, que pressionava a Warner a lançar a visão de Snyder.
A campanha ganhou força nas redes, com apoio de atores como Ray Fisher e Ben Affleck. Em 2021, a HBO Max anunciou o lançamento de Zack Snyder’s Justice League, com quatro horas de duração. O filme, exclusivo para streaming, foi bem recebido, superando as avaliações do corte original.
Os principais fatores da campanha incluíram:
- Mobilização intensa nas redes sociais.
- Apoio de celebridades e membros do elenco.
- Investimento da HBO Max para atrair assinantes.
- Diferenças narrativas, como maior foco no Ciborgue.
Um diretor que evitou o filme
Zack Snyder revelou nunca ter assistido ao corte de Liga da Justiça dirigido por Joss Whedon. A decisão foi influenciada por Christopher Nolan, diretor de O Cavaleiro das Trevas, que aconselhou Snyder a evitar o filme para preservar sua saúde emocional. Nolan acreditava que o corte final seria doloroso para o diretor original.
A escolha de Snyder foi confirmada em interações com fãs, onde ele demonstrou desconhecimento sobre cenas específicas do filme lançado nos cinemas. A revelação reforçou a percepção de que o projeto final divergia completamente de sua visão inicial.
Descontentamento do roteirista
Chris Terrio, roteirista de Liga da Justiça, também expressou insatisfação com o filme. As alterações de Whedon modificaram significativamente o roteiro original, frustrando Terrio. O roteirista tentou remover seu nome dos créditos, mas a Warner negou o pedido.
A experiência de Terrio reflete o clima de descontentamento generalizado entre os envolvidos na produção. Suas críticas públicas ao projeto destacaram as tensões criativas que marcaram o desenvolvimento do longa.
Legado de um projeto conturbado
A produção de Liga da Justiça deixou marcas duradouras no DCEU. A saída de Snyder e as polêmicas envolvendo Whedon sinalizaram o fim de uma era para a DC nos cinemas. O movimento pelo Snyder Cut demonstrou o poder dos fãs em influenciar decisões de estúdios, enquanto as denúncias de Fisher e Gadot trouxeram à tona questões sobre ética nos sets.
O filme também revelou os desafios de equilibrar visões criativas com demandas comerciais. A chegada de James Gunn, anos depois, marcou um recomeço para a DC, com um novo universo planejado. As histórias de bastidores de Liga da Justiça continuam a fascinar, oferecendo lições sobre os altos e baixos de Hollywood.
