A Polícia Federal prendeu, na manhã desta sexta-feira, 13 de junho de 2025, o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. A operação, que também resultou na detenção do ex-ministro do Turismo Gilson Machado, investiga a tentativa de obtenção de um passaporte português para Cid, com o objetivo de facilitar sua saída do Brasil. A ação é desdobramento de um inquérito que apura uma suposta trama golpista para manter Bolsonaro no poder após a derrota nas eleições de 2022. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a PF apontam indícios de que Machado atuou junto ao Consulado de Portugal em Recife, em maio de 2025, para viabilizar o documento. Cid, que já havia buscado cidadania portuguesa em 2023, é réu em um processo que envolve 29 outras pessoas, incluindo o ex-presidente.
A prisão de Cid ocorre em um momento de intensificação das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado. Ele, que já foi peça-chave como delator no caso, enfrenta agora acusações relacionadas à possível obstrução de justiça. A PF encontrou, em seu celular, evidências de que ele planejava obter cidadania portuguesa, o que levantou suspeitas sobre intenções de evasão. O caso ganhou destaque pela gravidade das acusações e pela proximidade dos envolvidos com o núcleo político do governo anterior.
- Pontos principais da investigação:
- A tentativa de obtenção de passaporte português por Cid.
- A atuação de Gilson Machado junto ao consulado em Recife.
- A conexão com a trama golpista de 2022.
O inquérito, conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), tem como base informações fornecidas por Cid em sua delação premiada, homologada em 2023. Ele revelou detalhes sobre reuniões e documentos que previam medidas antidemocráticas, como a prisão de autoridades do Judiciário e do Legislativo.
Origem da investigação
A operação que levou às prisões começou a ganhar forma após a PF identificar movimentações suspeitas de Gilson Machado em maio de 2025. Segundo os investigadores, o ex-ministro do Turismo, que serviu no governo Bolsonaro entre 2020 e 2022, teria contatado o Consulado de Portugal em Recife para agilizar a emissão de um passaporte português para Cid. A ação, conforme a PGR, tinha como objetivo permitir que o militar deixasse o país antes do encerramento do processo judicial no qual é réu. A tentativa, no entanto, não foi bem-sucedida, mas os indícios levantados foram suficientes para justificar a abertura de um inquérito.
A PF também descobriu que Cid já havia tomado providências para obter cidadania portuguesa em janeiro de 2023, antes de sua primeira prisão. Arquivos encontrados em seu celular incluíam imagens de documentos pessoais, como sua carteira funcional e comprovantes de cidadania portuguesa de sua mãe, Agnes Barbosa Cid. Esses elementos reforçam a tese de que o tenente-coronel planejava, há pelo menos dois anos, uma possível saída do Brasil.
Mauro Cid e a delação premiada
Mauro Cid tornou-se uma figura central nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado. Em setembro de 2023, após quatro meses preso por suspeita de fraude em cartões de vacinação, ele fechou um acordo de delação premiada com a PF, homologado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. No acordo, Cid forneceu informações detalhadas sobre a minuta de um decreto golpista que previa a prisão de autoridades e a convocação de novas eleições. Ele afirmou que Bolsonaro revisou e alterou o documento, retirando algumas autoridades da lista de alvos, mas mantendo o ministro Alexandre de Moraes como principal foco.
A delação de Cid foi considerada um marco no inquérito, mas também gerou controvérsias. Em março de 2024, ele voltou a ser preso após o vazamento de áudios em que criticava a PF e o STF, alegando pressões para delatar fatos que não teriam ocorrido. Apesar disso, sua colaboração foi mantida, e ele foi solto em maio de 2024, sob medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de deixar Brasília.
Papel de Gilson Machado no caso
Gilson Machado, ex-ministro do Turismo e aliado próximo de Bolsonaro, nega as acusações. Ele afirma que sua ida ao Consulado de Portugal em Recife foi para tratar do passaporte de seu pai, e não de Cid. Machado, conhecido por tocar sanfona nas lives do ex-presidente, também se destacou recentemente por organizar uma campanha de arrecadação de fundos para Bolsonaro, iniciada em maio de 2025. A PF investiga se essa campanha, realizada nas redes sociais, teria relação com os esforços para facilitar a saída de Cid do país.
A PGR, no entanto, considera que há “elementos sugestivos” de que Machado tentou obstruir a justiça. O procurador-geral, Paulo Gonet, solicitou ao STF medidas como busca e apreensão e quebra de sigilo telefônico do ex-ministro. A suspeita é de que ele poderia buscar outras embaixadas ou consulados para alcançar o mesmo objetivo.
Detalhes da operação de prisão
A operação que resultou nas prisões de Cid e Machado foi conduzida pela PF em Brasília e Recife. Além das detenções, os investigadores realizaram buscas em endereços ligados aos suspeitos. No caso de Cid, a prisão ocorreu após ele prestar depoimento no STF, onde foi questionado sobre as tentativas de obtenção do passaporte. Já Machado foi detido em Recife, onde reside.
- Cronologia dos eventos recentes:
- Janeiro de 2023: Cid busca assessoria para cidadania portuguesa.
- Maio de 2025: Machado tenta obter passaporte para Cid em Recife.
- 9 de junho de 2025: PF pede investigação contra Machado.
- 13 de junho de 2025: Cid e Machado são presos.
A operação reforça o compromisso das autoridades em coibir tentativas de obstrução de justiça, especialmente em um caso de alta relevância política.
Contexto da trama golpista
As prisões de Cid e Machado estão inseridas em um inquérito mais amplo, que investiga uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Segundo a PGR, o plano envolvia militares, políticos e assessores próximos de Bolsonaro, com o objetivo de impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cid, como delator, revelou que o ex-presidente participou de reuniões com militares de alto escalão e revisou minutas golpistas.
Entre os réus do processo, além de Cid e Bolsonaro, estão figuras como o general Walter Braga Netto e o ex-assessor Filipe Martins. A investigação também apura a disseminação de notícias falsas sobre o sistema eleitoral e a tentativa de pressionar as Forças Armadas para apoiar o plano.
Reações à prisão
As prisões de Cid e Machado geraram repercussão imediata. Parlamentares da oposição ao governo Lula classificaram as detenções como “perseguição política”, enquanto aliados do governo destacaram a importância de punir tentativas de obstrução da justiça. Cid, por sua vez, reagiu com surpresa às acusações sobre o passaporte, afirmando a pessoas próximas que nunca conversou com Machado sobre o assunto.
O advogado de Cid, Cezar Bittencourt, declarou que seu cliente não tinha intenção de deixar o Brasil e que as acusações carecem de fundamento. Já Machado, em nota à imprensa, reiterou que as suspeitas são infundadas e que está à disposição para esclarecimentos.
Próximos passos da investigação
O STF, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, deve decidir nos próximos dias sobre a continuidade das medidas cautelares contra Cid e Machado. A PGR defende a manutenção das prisões preventivas, argumentando que ambos representam risco à ordem pública. Além disso, os investigadores planejam aprofundar a análise de comunicações e documentos apreendidos para esclarecer a extensão da tentativa de obtenção do passaporte.
A PF também avalia se outras pessoas estão envolvidas no caso. A possibilidade de Machado ter contatado outros consulados ou embaixadas é uma das linhas de apuração. Enquanto isso, Cid permanece no Batalhão da Polícia do Exército, em Brasília, onde cumpre prisão preventiva.
Implicações judiciais
O caso do passaporte português agrega mais um capítulo às investigações contra Cid e o entorno de Bolsonaro. A tentativa de evasão, se confirmada, pode agravar a situação do tenente-coronel, que já enfrenta acusações de obstrução de justiça e participação na trama golpista. Para Machado, as suspeitas representam um revés em sua trajetória política, especialmente após sua derrota na disputa pela prefeitura de Recife em 2024.
O inquérito, que já resultou em dezenas de prisões e indiciamentos, continua a revelar detalhes sobre os bastidores do governo Bolsonaro e suas tentativas de desafiar o resultado eleitoral de 2022. As próximas etapas do processo no STF serão cruciais para determinar o desfecho do caso.
