Após 26 anos de uma parceria marcada por altos e baixos, o grupo brasileiro Caoa e a montadora sul-coreana Hyundai encerraram a produção conjunta de veículos na fábrica de Anápolis, em Goiás, em abril de 2025. A decisão, que põe fim à fabricação dos modelos Tucson e HR, ocorreu durante férias coletivas na planta e foi confirmada por fontes do setor automotivo, embora nenhuma das empresas tenha feito um anúncio oficial. A separação industrial, que não afeta a distribuição de veículos Hyundai pelas concessionárias Caoa, reflete mudanças estratégicas de ambas as partes. O movimento ocorre pouco mais de um ano após um acordo que prometia novos investimentos na fábrica goiana, mas que não se concretizou. A reestruturação abre caminhos para a Caoa focar em sua joint venture com a Chery e para a Hyundai priorizar sua planta em Piracicaba, São Paulo.
A notícia, revelada inicialmente pela revista Autoesporte e confirmada pelo Jornal do Carro, pegou o mercado de surpresa. A fábrica de Anápolis, inaugurada em 2007, foi um marco na história da parceria, que começou em 1999 e ajudou a consolidar a marca Hyundai no Brasil. Desde maio de 2025, a unidade goiana passou a produzir exclusivamente modelos da Caoa Chery, como os SUVs Tiggo 5X, Tiggo 7 e Tiggo 8.
Principais pontos da mudança:
- Fim da produção dos modelos Hyundai Tucson e HR em Anápolis.
- Caoa mantém a distribuição de veículos Hyundai em suas concessionárias.
- Hyundai concentra sua produção na fábrica de Piracicaba, São Paulo.
- Caoa Chery ganha prioridade na planta goiana, com modernização em curso.
A decisão marca uma nova fase para o setor automotivo brasileiro, com implicações para a estratégia de ambas as empresas em um mercado cada vez mais competitivo.
História de uma aliança turbulenta
A parceria entre Caoa e Hyundai começou em 1999, quando o grupo brasileiro, fundado por Carlos Alberto de Oliveira Andrade, assumiu a importação exclusiva da marca sul-coreana. O lançamento do Tucson em 2004 foi um divisor de águas, transformando o SUV em um dos modelos importados mais vendidos do Brasil. A Caoa investiu em campanhas publicitárias agressivas e ofereceu cinco anos de garantia, estratégias que fortaleceram a imagem da Hyundai no país. Em 2007, a inauguração da fábrica de Anápolis consolidou a aliança, com a produção inicial do Tucson e dos utilitários HR e HD.
No entanto, a relação nunca foi isenta de conflitos. Em 2018, a Hyundai tentou romper o contrato que garantia à Caoa exclusividade na importação e produção de seus veículos. A disputa chegou a um tribunal arbitral em Frankfurt, na Alemanha, e, em 2021, a Caoa saiu vitoriosa, assegurando seus direitos até 2028. Apesar da renovação do contrato, tensões persistiram. A Hyundai limitava a produção de novos modelos no Brasil, enquanto a Caoa restringia a importação de veículos como Kona, Ioniq 5N e Palisade, populares em outros mercados.
Mudanças estratégicas anunciadas em 2024
Em fevereiro de 2024, Caoa e Hyundai anunciaram uma reestruturação na parceria, com promessas de sinergia inédita. A expectativa era que a fábrica de Anápolis recebesse investimentos para produzir novos modelos Hyundai de maior valor agregado, como versões híbridas do Tucson. A Hyundai assumiria a importação e distribuição de seus veículos, unificando a rede de concessionárias. Carlos Alberto de Oliveira Andrade Filho, presidente da Caoa, destacou que a mudança traria benefícios ao consumidor, enquanto Airton Cousseau, CEO da Hyundai para as Américas Central e do Sul, reforçou a importância da unificação.
Apesar das intenções, o plano não se concretizou. A produção do Tucson e do HR foi interrompida em abril de 2025, durante férias coletivas na fábrica goiana. Após o retorno das atividades, em maio, apenas os modelos da Caoa Chery voltaram à linha de montagem. A falta de novos projetos conjuntos e a queda nas vendas do Tucson, com apenas 69 emplacamentos em junho de 2025, contribuíram para o fim da parceria industrial.
Foco da Caoa na joint venture com a Chery
Com o encerramento da produção Hyundai em Anápolis, a Caoa voltou suas atenções para a Caoa Chery, sua joint venture com a montadora chinesa. A fábrica goiana, que já produziu mais de 400 mil veículos desde 2007, passa por uma modernização de R$ 3 bilhões. O investimento inclui a instalação de 165 novos robôs e a ampliação da área fabril, duplicando a capacidade de produção para até 160 mil veículos por ano.
Atualmente, a planta fabrica os SUVs Tiggo 5X, Tiggo 7 e Tiggo 8, com planos de nacionalizar o Tiggo 8 Pro Hybrid. A Caoa também mantém a representação da Subaru e opera uma segunda fábrica em Jacareí, São Paulo, onde produz outros modelos Chery, como o Arrizo 6. A estratégia multimarcas da empresa garante estabilidade, mesmo com o fim da parceria industrial com a Hyundai.
Prioridades da Hyundai no Brasil
A Hyundai, por sua vez, concentra sua produção na fábrica de Piracicaba, inaugurada em 2012, com capacidade para mais de 200 mil veículos por ano. A planta é responsável pelos modelos HB20, HB20S e Creta, que sustentam a posição da montadora como a quinta maior do Brasil. Em 2024, o HB20 foi o segundo carro mais vendido do país, com 88 mil unidades emplacadas.
A montadora sul-coreana também aposta na importação de novos modelos para diversificar seu portfólio. Veículos como o Ioniq 5, um SUV elétrico, e o Palisade, um SUV de sete lugares, estão entre as novidades aguardadas. A unificação da rede de concessionárias, iniciada em 2024, permite que todas as lojas vendam tanto modelos nacionais quanto importados, eliminando a antiga divisão entre as operações da Hyundai Motor Brasil (HMB) e da Caoa.
Números que contam a história da parceria
A parceria entre Caoa e Hyundai deixou um legado significativo no mercado brasileiro. Alguns dados destacam a relevância da aliança:
- Mais de 300 mil unidades do Tucson foram comercializadas no Brasil desde 2004.
- A fábrica de Anápolis produziu cerca de 400 mil veículos Hyundai e Chery desde 2007.
- A Caoa investiu R$ 1,2 bilhão na construção da planta goiana, inaugurada em 2007.
- Em 2020, a Caoa anunciou R$ 1,5 bilhão em investimentos até 2025 para novos modelos, principalmente da Chery.
- A Hyundai mantém 250 concessionárias no Brasil, das quais 46 pertencem à Caoa.
Esses números refletem a escala da operação conjunta e a importância da fábrica de Anápolis no cenário automotivo nacional.
Motivos por trás da separação
Embora as empresas não tenham detalhado os motivos do fim da parceria industrial, alguns fatores ajudam a explicar a decisão. A queda nas vendas do Tucson e do HR, aliada à entrada em vigor das normas de emissões Proconve PL8 em 2025, pode ter influenciado a Hyundai a descontinuar os modelos em Anápolis. Além disso, a falta de atualizações nos veículos produzidos na planta goiana reduziu sua competitividade frente a concorrentes mais modernos.
A Caoa, por outro lado, viu na joint venture com a Chery uma oportunidade de crescimento em um segmento em alta, especialmente com a demanda por SUVs e veículos híbridos. A modernização da fábrica de Anápolis, com foco na produção de modelos Chery, reforça essa estratégia.
Possibilidades futuras para a fábrica de Anápolis
A fábrica de Anápolis, com capacidade para 100 mil veículos por ano, tem potencial para novos projetos. Fontes do setor indicam que a Caoa negocia parcerias com outras montadoras, embora nenhum acordo tenha sido confirmado. A planta, modernizada entre 2017 e 2018, está preparada para produzir veículos híbridos plug-in, o que abre portas para modelos como a nova geração do Tucson, com motorização híbrida, a partir de 2026.
A Caoa também estuda o lançamento de uma marca 100% brasileira, um projeto ambicioso que poderia aproveitar a infraestrutura de Anápolis. Enquanto isso, a empresa mantém sua posição como a maior distribuidora de veículos do Brasil, com uma rede robusta e diversificada.
Hyundai e o mercado de eletrificados
A Hyundai tem planos ousados para o mercado brasileiro, especialmente no segmento de veículos eletrificados. A montadora anunciou um investimento de US$ 1,1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões) até 2032, com foco na introdução de modelos híbridos e elétricos. O Ioniq 5, já flagrado em testes no Brasil, é um dos candidatos a liderar essa ofensiva.
A empresa também estuda a produção de uma picape compacta, como a Santa Cruz, para competir com modelos como Fiat Toro e Chevrolet Montana. A fábrica de Piracicaba, operando em três turnos, é o principal pilar dessa estratégia, mas parcerias com terceiros, incluindo a Caoa, não estão descartadas para projetos futuros.
Legado da parceria no setor automotivo
A aliança entre Caoa e Hyundai transformou o mercado brasileiro, popularizando modelos como o Tucson e consolidando a presença da montadora sul-coreana no país. A fábrica de Anápolis, com seus 174 mil metros quadrados de área construída, foi um símbolo dessa colaboração. A separação industrial, embora significativa, não encerra a relação comercial entre as empresas, que continuam parceiras na distribuição de veículos.
A Caoa, com sua estratégia multimarcas, e a Hyundai, com sua aposta em inovação e eletrificação, seguem caminhos distintos, mas complementares, em um mercado automotivo em constante evolução. O fim da produção conjunta em Anápolis marca o encerramento de um capítulo, mas também o início de novas oportunidades para ambas as empresas.
