Um devastador atentado suicida abalou a Igreja Ortodoxa Grega Mar Elias, no bairro de Dweil’a, nos arredores de Damasco, capital da Síria, na manhã deste domingo, 22 de junho de 2025. Um homem-bomba, identificado como membro do grupo extremista Estado Islâmico, invadiu o templo durante uma missa, abriu fogo contra os fiéis e detonou um colete explosivo, deixando pelo menos 20 mortos e 52 feridos, incluindo crianças. O ataque, o primeiro do tipo na capital desde a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, expõe a fragilidade do governo de transição liderado por Ahmad al-Sharaa, que luta para conter a violência sectária e garantir a segurança das minorias religiosas em um país marcado por anos de guerra civil. A tragédia reacende o temor de que células extremistas adormecidas estejam aproveitando o vácuo de poder para intensificar ações terroristas.
A explosão ocorreu por volta das 10h, horário local, quando a igreja estava lotada de fiéis celebrando o culto dominical. Testemunhas relatam cenas de pânico, com gritos ecoando enquanto o atirador disparava antes de acionar os explosivos. Imagens divulgadas pela agência de notícias estatal síria SANA mostram o interior do templo destruído, com bancos carbonizados, vitrais estilhaçados e manchas de sangue espalhadas pelo chão. Socorristas e equipes de segurança foram mobilizados rapidamente, mas a extensão dos danos e o número de vítimas dificultaram os esforços iniciais de resgate.
O Ministério do Interior sírio confirmou a autoria do Estado Islâmico, descrevendo o agressor como um “lobo solitário” que agiu com precisão para maximizar o impacto do ataque. Informações preliminares apontam que o terrorista, cuja identidade não foi revelada, teria planejado a ação com outros dois cúmplices, que fugiram do local antes da explosão. A ausência de reivindicação oficial imediata por parte do grupo extremista não diminui as suspeitas, já que o padrão do ataque é consistente com operações anteriores do Estado Islâmico contra minorias religiosas na Síria.
- Vítimas: Pelo menos 20 mortos, incluindo mulheres e crianças, e 52 feridos, alguns em estado grave.
- Local: Igreja Mar Elias, uma das principais igrejas ortodoxas gregas de Damasco, localizada em Dweil’a.
- Contexto: Primeiro atentado suicida na capital desde a deposição de Assad, em meio a uma transição política instável.
- Autoria: Estado Islâmico, segundo o governo sírio, com investigações em andamento sobre possíveis cúmplices.
Escalada da violência sectária na Síria pós-Assad
O atentado na Igreja Mar Elias ocorre em um momento crítico para a Síria, que enfrenta os desafios de uma transição política após quase 14 anos de guerra civil. A queda de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, trouxe esperanças de estabilidade, mas também abriu espaço para o ressurgimento de tensões sectárias. Ahmad al-Sharaa, líder do grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS) e presidente interino, tem prometido proteger as minorias religiosas, incluindo cristãos, alauítas e drusos. No entanto, a incapacidade de consolidar o controle sobre o território nacional tem permitido que grupos extremistas, como o Estado Islâmico, explorem as brechas de segurança.
A Síria é um mosaico religioso, com uma maioria sunita (74%), mas também comunidades significativas de alauítas (10%), cristãos (cerca de 5%) e drusos. Durante o regime de Assad, as minorias religiosas, especialmente os cristãos, eram frequentemente protegidas pelo governo laico, embora a custo de repressão política. Com a ascensão do HTS, que tem raízes em movimentos jihadistas, crescem os receios de que a nova administração, apesar de suas promessas de inclusão, possa falhar em conter a violência sectária.
A Igreja Mar Elias, localizada em um bairro de classe média em Dweil’a, é um símbolo da presença cristã na capital síria. O ataque não apenas devastou a comunidade local, mas também enviou uma mensagem de intimidação às minorias religiosas em todo o país. Líderes cristãos, como o patriarca ortodoxo Jean X, expressaram profunda preocupação com a segurança de suas comunidades, exigindo ações concretas do governo para evitar novos ataques.
Reações internacionais e pressão sobre o governo sírio
A comunidade internacional reagiu com indignação ao atentado. O Ministério das Relações Exteriores da Grécia emitiu uma condenação veemente, exigindo que as autoridades sírias responsabilizem os culpados e implementem medidas para proteger as comunidades cristãs. A União Europeia, que recentemente flexibilizou algumas sanções contra a Síria para apoiar a transição política, reiterou a necessidade de respeito ao direito internacional humanitário e à proteção de civis.
Nos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio classificou o ataque como um “ato bárbaro” e prometeu apoio às minorias religiosas sírias. A Rússia, que mantém uma base militar em Latakia e historicamente apoiou o regime de Assad, também condenou o atentado, mas alertou contra tentativas de desestabilizar ainda mais a região.
No âmbito regional, países como o Irã, aliado de longa data dos alauítas, e a Turquia, que apoia facções rebeldes sunitas, expressaram preocupação com a escalada da violência. O Irã, em particular, descreveu o ataque como parte de uma “onda sistemática” de violência contra minorias, enquanto a Arábia Saudita pediu uma resposta coordenada contra o terrorismo.
- Grécia: Condenou o ataque e exigiu proteção às comunidades cristãs.
- EUA: Prometeram apoio às minorias e classificaram o atentado como “bárbaro”.
- Rússia: Alertou contra a desestabilização da Síria.
- Irã: Associou o ataque a uma perseguição sistemática de minorias.
- UE: Reforçou a importância do respeito aos direitos humanos na transição síria.
Histórico de ataques do Estado Islâmico contra minorias
O Estado Islâmico tem um longo histórico de ataques contra minorias religiosas na Síria e no Iraque. Durante seu auge, entre 2014 e 2016, o grupo promoveu massacres contra yazidis, cristãos e xiitas, além de destruir patrimônio cultural, como igrejas e mesquitas históricas. Embora tenha perdido seu território em 2019, o grupo se reorganizou em células clandestinas, operando em áreas instáveis, como o deserto sírio.
Um dos ataques mais notórios foi o atentado de 2016 contra peregrinos xiitas em Sayeda Zainab, que deixou dezenas de mortos. A escolha de alvos religiosos, como a Igreja Mar Elias, reflete a estratégia do grupo de semear o medo e aprofundar divisões sectárias. Especialistas em segurança alertam que o vácuo de poder deixado pela queda de Assad pode estar permitindo o ressurgimento dessas células, que se aproveitam da desorganização das forças de segurança sírias.
O governo de Ahmad al-Sharaa anunciou a formação de uma comissão para investigar o atentado e prometeu intensificar operações contra o Estado Islâmico. No entanto, analistas apontam que a falta de um exército unificado e a dependência de milícias armadas, muitas delas com lealdades divididas, complicam os esforços para restaurar a segurança.
Desafios para a proteção das minorias religiosas
A proteção das minorias religiosas é um dos maiores desafios do governo de transição sírio. Desde a queda de Assad, episódios de violência sectária têm se intensificado. Em março de 2025, mais de 700 civis alauítas foram mortos em massacres na costa mediterrânea, enquanto drusos e curdos também enfrentaram ataques em outras regiões do país. A comunidade cristã, que já foi reduzida de 1,5 milhão em 2012 para cerca de 250 mil em 2025, vive em constante temor.
Líderes religiosos, como o padre George Sabé, de Aleppo, têm apelado por uma reconstrução que vá além da infraestrutura, enfocando a restauração da confiança entre as comunidades. A Igreja Ortodoxa Grega, uma das maiores denominações cristãs da Síria, tem desempenhado um papel central na defesa dos direitos das minorias, mas enfrenta críticas por seu apoio ao regime de Assad no passado.
- Redução da população cristã: De 1,5 milhão em 2012 para 250 mil em 2025.
- Outros episódios de violência: Massacres de alauítas em março de 2025 e ataques a drusos em maio.
- Demanda por segurança: Líderes religiosos pedem medidas concretas para proteger comunidades minoritárias.
- Críticas à Igreja: Apoio histórico ao regime de Assad gera desconfiança entre algumas comunidades.
Futuro incerto para a estabilidade síria
O atentado na Igreja Mar Elias reforça a complexidade da transição política na Síria. Ahmad al-Sharaa, que assumiu o poder prometendo uma “nova Síria” inclusiva, enfrenta pressões internas e externas para demonstrar que pode controlar a violência extremista. A assinatura de uma constituição temporária em março de 2025, que garante a primazia da lei islâmica, mas também promete liberdade de expressão, foi um passo para apaziguar as tensões, mas não conseguiu dissipar as desconfianças das minorias.
Enquanto isso, a comunidade internacional observa com cautela. A flexibilização de sanções por parte dos Estados Unidos e da União Europeia, anunciada em maio de 2025, foi condicionada ao respeito pelos direitos humanos. O atentado de 22 de junho, porém, pode reacender o ceticismo sobre a capacidade do HTS de liderar uma transição democrática.
A população de Damasco, ainda marcada pelas cicatrizes da guerra, tenta retomar a normalidade. Para os fiéis da Igreja Mar Elias, o domingo que deveria ser de oração transformou-se em um dia de luto. A reconstrução do templo e a cicatrização das feridas da comunidade dependerão de ações concretas para conter o terrorismo e promover a coexistência religiosa em um país que, mais do que nunca, precisa de paz.
