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Mais de 1,2 mil casos de aftas e inchaço levam Anvisa a vetar creme dental Colgate

Colgate
Foto: Colgate Clean Mint — Foto: Divulgação

Mais de 1,2 mil consumidores relataram reações adversas à pasta de dente Colgate Total Prevenção Ativa Clean Mint, levando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a manter a proibição de sua comercialização em todo o Brasil desde maio de 2025. Os sintomas, que incluem ardência, aftas, inchaço nos lábios e dificuldades para falar ou comer, começaram a surgir após a reformulação do produto em julho de 2024, quando a Colgate substituiu o fluoreto de sódio pelo fluoreto de estanho. A empresa, que inicialmente conseguiu suspender a interdição, agora colabora com a Anvisa para investigar possíveis causas, como aromatizantes à base de óleos essenciais e outros aditivos. A medida reflete a preocupação com a segurança dos consumidores e a necessidade de esclarecer os riscos associados à nova fórmula.

A reformulação da linha Colgate Total, anunciada como uma inovação para maior proteção bucal, gerou um aumento exponencial de queixas. Até o final de maio, a Anvisa contabilizou mais de 1,2 mil notificações, contra apenas 13 no início do ano. Casos graves, como o de uma educadora social de Miracatu (SP), que relatou inchaço severo e queimaduras na mucosa oral, evidenciam o impacto na qualidade de vida dos usuários.

  • Principais sintomas relatados: Aftas, ardência, inchaço nos lábios e mucosa, dor intensa.
  • Período crítico: Reações dispararam após julho de 2024, com pico em 2025.
  • Ação da Anvisa: Interdição cautelar de 90 dias, renovada em maio de 2025.
  • Resposta da Colgate: Colaboração com a agência e recomendação de interrupção do uso.

O caso expõe desafios na reformulação de produtos de higiene e levanta questões sobre a segurança de ingredientes amplamente utilizados.

Reformulação sob escrutínio
A mudança na fórmula da Colgate Total Clean Mint foi apresentada como um avanço tecnológico. O fluoreto de estanho, adotado em substituição ao fluoreto de sódio, é reconhecido por suas propriedades antimicrobianas e anticárie, além de benefícios contra inflamações gengivais. Segundo especialistas, como a cirurgiã-dentista Ianara Pinho, o composto oferece maior proteção contra erosão dentária, o que justificou sua inclusão. No entanto, a Anvisa aponta que a causa das reações pode não estar exclusivamente no fluoreto de estanho, mas em sua interação com outros componentes, como óleos essenciais usados como aromatizantes.

Relatos de consumidores indicam que os sintomas surgem logo após o uso, variando de desconforto leve a casos extremos, como lesões bucais que dificultam a alimentação. A dermatologista americana Keri Chaney, em estudo publicado anos atrás, já havia associado o fluoreto de estanho a casos raros de queilite, uma inflamação nos lábios caracterizada por ressecamento e inchaço. Embora subnotificados, esses episódios reforçam a necessidade de testes mais amplos antes de reformulações.

A Colgate, em comunicado, destacou que o produto passou por mais de uma década de pesquisas e testes, atendendo a padrões regulatórios globais. Mesmo assim, a empresa reconhece que uma pequena parcela de usuários pode apresentar sensibilidade a ingredientes como corantes, sabores ou o próprio fluoreto de estanho.

Impacto nos consumidores
As reações adversas não se limitaram à variante Clean Mint. Consumidores relataram problemas com outras versões da linha Colgate Total, como Carvão Ativado e Whitening, embora a Anvisa não tenha identificado um padrão de queixas suficiente para interditar essas fórmulas. Uma cliente de Palmas (TO), por exemplo, descreveu no Reclame Aqui o surgimento de bolhas e sensibilidade gengival após usar a versão Carvão Ativado.

O impacto vai além do desconforto físico. Muitos consumidores enfrentaram custos médicos e odontológicos, além de dificuldades no dia a dia. Pedro Maciel, estudante de 25 anos, relatou ao portal O Tempo o aparecimento de mais de 50 aftas simultâneas, que o impediram de se alimentar normalmente por semanas. Casos como esse levaram o Procon-SP a orientar que vítimas de reações alérgicas podem buscar reembolso de despesas médicas, desde que comprovem a relação com o uso da pasta por meio de laudos profissionais.

  • Orientação do Procon-SP: Pedidos de reembolso podem ser feitos administrativamente ou na Justiça.
  • Documentação necessária: Laudo médico ou odontológico confirmando a alergia.
  • Canais de reclamação: Plataforma www.procon.sp.gov.br ou vias judiciais.

A gravidade dos casos gerou indignação nas redes sociais, onde usuários compartilharam imagens de lesões bucais e cobraram maior transparência da Colgate e da Anvisa.

Ações regulatórias e desafios
A interdição da Colgate Clean Mint começou em 27 de março de 2025, após a Anvisa registrar 13 eventos adversos em oito notificações. A medida, inicialmente válida por 90 dias, foi suspensa temporariamente após recurso da Colgate, mas retomada em 30 de abril, quando a empresa retirou o recurso, sinalizando colaboração com as investigações. A agência recomenda que consumidores verifiquem a embalagem do produto, identificando o número de processo 25351.159395/2024-82 ou a presença de “fluoreto estanoso” na composição.

A Anvisa também emitiu um alerta sanitário sobre cremes dentais com fluoreto de estanho, orientando a interrupção imediata do uso em caso de irritação e a notificação de reações pelo sistema e-Notivisa. Profissionais de saúde foram instruídos a monitorar alterações bucais e recomendar alternativas com fluoreto de sódio para pacientes sensíveis.

Apesar de o fluoreto de estanho ser usado em cremes dentais há mais de 30 anos, conforme aponta o Conselho Federal de Odontologia (CFO), a combinação com outros ingredientes, como lauril sulfato de sódio ou óleos essenciais, pode potencializar reações alérgicas. Jaime Cury, cirurgião-dentista da Unicamp, explica que o íon flúor, comum a ambas as formulações, não é o responsável, mas sim os agentes flavorizantes e detergentes.

Resposta da Colgate e perspectivas
A Colgate mantém que seus produtos são seguros e que as reações afetam uma minoria de usuários. A empresa disponibilizou o canal de atendimento 0800 703 7722 para dúvidas e reforçou a recomendação de suspender o uso em caso de sintomas. Em nota, a companhia destacou a colaboração com a Anvisa e a confiança na resolução do caso, sem detalhar prazos ou possíveis reformulações.

A investigação em curso busca identificar se o problema está na concentração de determinados ingredientes ou em sua interação. A Anvisa considera que os aromatizantes à base de óleos essenciais, amplamente reconhecidos como alergênicos, podem desempenhar um papel central. Corantes e aditivos usados para melhorar o sabor também estão sob análise.

  • Ingredientes sob suspeita: Fluoreto de estanho, óleos essenciais, corantes.
  • Próximos passos: Análise laboratorial e revisão da formulação pela Colgate.
  • Recomendações aos consumidores: Verificar rótulos e notificar reações à Anvisa.
  • Alternativas sugeridas: Pastas com fluoreto de sódio para usuários sensíveis.

Cenário global e lições do caso
Casos semelhantes já foram registrados em outros países. Na Europa, pesquisadores documentaram reações alérgicas associadas ao fluoreto de estanho, embora raras. Nos Estados Unidos, onde o fluoreto de sódio predomina, os relatos são menos frequentes, o que reforça a hipótese de que a combinação de ingredientes é um fator crítico. A dermatologista Keri Chaney destaca que pessoas com histórico de eczema ou dermatite atópica têm maior predisposição, mas qualquer indivíduo pode desenvolver sensibilidade.

O caso da Colgate Clean Mint expõe a complexidade de reformular produtos de consumo massivo. A introdução de novos ingredientes, mesmo com testes extensivos, pode desencadear reações imprevisíveis em populações diversas. A Anvisa, ao manter a interdição, prioriza a segurança pública enquanto busca respostas definitivas.

A confiança dos consumidores, abalada pelos relatos, dependerá da transparência da Colgate e da eficácia das medidas regulatórias. Por enquanto, a recomendação é clara: quem possui o produto deve evitar seu uso e buscar orientação médica em caso de sintomas persistentes. A investigação, que deve se estender até agosto de 2025, promete esclarecer as causas e definir o futuro da linha Colgate Total no Brasil.