A partir de julho de 2025, milhões de brasileiros que dependem do auxílio-doença enfrentam um cenário alarmante: a fila de espera por perícias médicas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) pode triplicar, atingindo até 3,6 milhões de segurados até o final do ano. A situação, agravada pela extinção do sistema Atestmed e pela redução do prazo de concessão de benefícios por atestados médicos de 180 para 60 dias, expõe a fragilidade do atendimento previdenciário. Em cidades como Salesópolis, no interior de São Paulo, trabalhadores relatam dificuldades para acessar benefícios essenciais durante períodos de incapacidade. A nova portaria do governo federal, que exige perícia presencial após dois meses, busca conter gastos, mas pode comprometer a assistência a quem mais precisa. Por que a espera se tornou um obstáculo tão grande? A combinação de filas históricas, capacidade reduzida nos postos e mudanças regulatórias explica o problema.
O INSS, responsável por garantir benefícios como o auxílio-doença, enfrenta desafios estruturais que se intensificaram nos últimos anos. Durante a pandemia, o Atestmed permitiu a concessão de benefícios por análise documental, aliviando a pressão sobre as perícias presenciais. Agora, com o fim do sistema e a obrigatoriedade de avaliações médicas presenciais após 60 dias, a demanda por agendamentos dispara. Em algumas regiões, o tempo de espera já ultrapassa meses, deixando segurados em situação de vulnerabilidade.
- Principais mudanças anunciadas:
- Redução do prazo de concessão por atestado de 180 para 60 dias.
- Extinção do Atestmed, que agilizava processos online.
- Exigência de perícia presencial para prorrogações após dois meses.
- Previsão de aumento na fila para até 3,6 milhões de segurados.
O impacto dessas alterações é sentido especialmente por trabalhadores de baixa renda, que dependem do benefício para cobrir despesas básicas durante afastamentos por doença. Em 2024, o INSS processou mais de 1,38 milhão de pedidos via Atestmed, com 45% de deferimentos, segundo dados do Ministério da Previdência Social. A expectativa é que, sem o sistema, o volume de perícias presenciais sobrecarregue ainda mais o órgão.
Mudanças nas regras do auxílio-doença
A portaria conjunta do INSS e do Ministério da Previdência Social, publicada em 18 de junho de 2025, marcou a redução do prazo de concessão do auxílio-doença por análise documental. Anteriormente, segurados podiam receber o benefício por até 180 dias com base em atestados enviados online. A nova regra, válida por 120 dias, limita esse período a 60 dias, com a possibilidade de prorrogação apenas mediante perícia presencial. Em casos de espera superior a 30 dias para agendamento, o benefício é automaticamente estendido por mais um mês, mas limitado a duas prorrogações por segurado.
Essa alteração responde a críticas sobre a necessidade de maior controle nos gastos previdenciários, que cresceram 50% em 2025, conforme apontado por especialistas. No entanto, a medida gerou preocupações entre sindicatos e advogados previdenciários, que destacam o impacto nas camadas mais vulneráveis da população. Em cidades menores, como Salesópolis, a falta de peritos e a distância até os postos do INSS agravam a situação, obrigando segurados a aguardar meses por atendimento.
Filas históricas e desafios estruturais
O problema das filas no INSS não é novo. Em 2023, a espera por perícias já alcançava 1,1 milhão de segurados, número que caiu temporariamente com a ampliação do Atestmed. Contudo, em maio de 2025, a fila voltou a crescer, atingindo quase 4 milhões de pedidos pendentes. A redução da capacidade operacional dos postos, com menos peritos disponíveis e agências funcionando abaixo do ideal, contribui para o gargalo.
A Associação Nacional dos Peritos Médicos Federais (ANMP) critica a dependência de sistemas como o Atestmed, argumentando que a falta de rigor na análise documental pode elevar fraudes. Por outro lado, advogados previdenciários, como Adriane Bramante, do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário, defendem que a prioridade deveria ser a agilidade no atendimento, sem prejudicar os segurados. A nova portaria tenta equilibrar essas demandas, mas os primeiros meses de implementação mostram que o sistema ainda enfrenta dificuldades para absorver a demanda.
Impacto financeiro para os segurados
Para muitos brasileiros, a demora na concessão do auxílio-doença significa dificuldades financeiras imediatas. O benefício, cujo valor varia entre R$ 1.518 (salário mínimo) e R$ 8.157,41 (teto do INSS) em 2025, é essencial para trabalhadores que não podem exercer suas atividades por motivos de saúde. Sem o pagamento, despesas com medicamentos, consultas e até alimentação ficam comprometidas.
- Principais desafios enfrentados pelos segurados:
- Atrasos na liberação do benefício devido à fila de perícias.
- Falta de peritos em regiões remotas, dificultando o acesso.
- Burocracia na apresentação de documentos, que pode levar à negativa do pedido.
- Dependência de terceiros para custear despesas durante a espera.
Em áreas urbanas, como São Paulo, a situação é agravada pela alta demanda, enquanto em regiões rurais o acesso aos postos do INSS é limitado. A digitalização do processo, por meio do aplicativo Meu INSS, ajuda a reduzir a burocracia, mas não resolve o problema da falta de peritos.
Como os segurados podem se preparar
Organizar a documentação é o primeiro passo para enfrentar a espera. Laudos médicos detalhados, com informações como diagnóstico, data de emissão e prazo de afastamento, são fundamentais para evitar indeferimentos. O INSS exige que os atestados sejam emitidos por profissionais registrados e sem rasuras, com detalhes claros sobre a incapacidade do segurado.
Outro ponto importante é acompanhar as mudanças nas regras. Portarias recentes, como a de agosto de 2024, limitaram a prorrogação automática a duas vezes, exceto em casos judiciais. Segurados que se sentem aptos a retornar ao trabalho podem solicitar a cessação do benefício pelo Meu INSS ou pela Central 135, evitando a necessidade de nova perícia.
Regiões mais afetadas pela espera
O tempo de espera varia significativamente entre as regiões do Brasil. Em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a alta densidade populacional eleva a demanda por perícias, resultando em filas maiores. Já em áreas do Norte e Nordeste, a escassez de peritos e a distância até as agências do INSS são os principais entraves. Em 2024, localidades como Manaus e Recife registraram esperas de até 300 dias para agendamento de perícias.
A desigualdade no atendimento reflete a estrutura limitada do INSS. Apesar de iniciativas como a contratação de novos peritos e a modernização do sistema, o órgão ainda não conseguiu atender a demanda crescente. A extinção do Atestmed, embora justificada por questões fiscais, deve intensificar essas disparidades.
Alternativas para agilizar o processo
Uma opção para os segurados é buscar a via judicial. Quando o benefício é negado ou a espera ultrapassa 45 dias, é possível entrar com uma ação para garantir o pagamento retroativo, corrigido pela inflação. Advogados previdenciários recomendam essa alternativa apenas em casos extremos, devido aos custos e ao tempo do processo.
- Dicas para reduzir atrasos:
- Enviar documentos completos e legíveis pelo Meu INSS.
- Acompanhar o status do pedido regularmente no aplicativo.
- Consultar um advogado especializado em caso de negativa ou demora excessiva.
- Verificar a possibilidade de perícia hospitalar ou domiciliar, em casos graves.
Mudanças regulatórias recentes
Além da portaria de junho de 2025, outras normas recentes impactam o auxílio-doença. Em setembro de 2024, o INSS limitou as prorrogações automáticas a duas por segurado, visando reduzir os gastos previdenciários. A medida, embora criticada por sindicatos, reflete a tentativa do governo de equilibrar a sustentabilidade do sistema com a demanda por benefícios.
Em 2023, a introdução do Atestmed já havia reduzido a fila de 1,8 milhão para 1,1 milhão de segurados, mas o aumento das concessões elevou os custos. A nova política, que prioriza perícias presenciais, busca maior rigor na análise, mas à custa de maior espera para os trabalhadores.
Planejamento para o futuro
O Ministério da Previdência Social anunciou que avaliará os resultados da portaria de 60 dias após 120 dias de vigência. Dependendo dos dados, a regra pode se tornar permanente ou sofrer ajustes. Enquanto isso, o INSS planeja aumentar o número de peritos e melhorar a infraestrutura dos postos, mas os resultados devem demorar a aparecer.
Para os segurados, a realidade atual exige paciência e organização. Acompanhar o status dos pedidos, manter a documentação em dia e buscar orientação profissional são medidas essenciais para enfrentar as longas filas e garantir o acesso ao auxílio-doença.
