Tarifaço de Trump ameaça encarecer carne bovina no Brasil
A tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, anunciada por Donald Trump e válida a partir de 6 de agosto de 2025, pode elevar os preços da carne bovina no Brasil. A medida afeta diretamente as exportações, especialmente para os EUA, segundo maior comprador da carne brasileira, com 12% das vendas externas. A redução nas exportações pode levar a menos abates, intensificando a alta já prevista para 2025 devido ao ciclo pecuário. Economistas apontam que, apesar de uma possível queda inicial nos preços, o impacto a médio prazo será de aumento no varejo. A notícia gera preocupação entre produtores e consumidores, enquanto o governo busca alternativas para mitigar os efeitos.
O anúncio da tarifa gerou reações imediatas no setor agropecuário. Produtores temem perdas de até US$ 1 bilhão em 2025, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A China, principal destino das exportações, absorve quase metade do volume, mas não é suficiente para compensar a queda no mercado americano.
- Impacto imediato: Preços do boi gordo caíram 7,21% em julho, segundo o Cepea.
- Efeito a médio prazo: Menos abates podem elevar preços no varejo em 2025.
- Alternativas: Redirecionamento para mercados como Egito e Oriente Médio.
O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, enfrenta um cenário complexo com a nova política comercial dos EUA.
Reação do setor pecuário
A notícia da tarifa de 50% pegou o setor de surpresa. Frigoríficos já relatam redução na produção destinada aos EUA, com cerca de 30 mil toneladas retidas em portos, segundo representantes da Abiec. A carne brasileira, usada principalmente para hambúrgueres nos EUA, perde competitividade, já que o preço por tonelada pode saltar de US$ 5.732 para cerca de US$ 8.600.
Cesar de Castro Alves, gerente de Consultoria Agro do Itaú BBA, explica que a queda nas vendas para os EUA intensifica a retenção de fêmeas para reprodução, um movimento já esperado no ciclo pecuário. “Isso reduz a oferta de animais para abate, pressionando os preços no mercado interno”, diz.
- Ciclo pecuário: Pecuaristas seguram fêmeas para aumentar o rebanho, reduzindo abates.
- Exportações em 2024: Brasil exportou 181 mil toneladas para os EUA no primeiro semestre.
- Previsão de perdas: US$ 1 bilhão em receita pode ser perdido em 2025.
O setor busca novos mercados, como Egito e Vietnã, mas a adaptação exige tempo e investimentos logísticos.
Pressão no mercado interno
Apesar do impacto inicial, com queda de 7,21% no preço do boi gordo em julho, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o cenário a médio prazo é de alta. Wagner Yanaguizawa, especialista do Rabobank, destaca que a redução global na oferta de carne, estimada em 2%, contribui para a pressão altista.
A China, que compra 48% da carne brasileira exportada, está exigindo preços mais baixos, o que pode frear temporariamente as vendas externas e aumentar a oferta interna. No entanto, essa oferta extra não deve durar. “A China pressiona por preços menores, mas a redução de abates no Brasil vai prevalecer, elevando os custos no varejo”, explica Yanaguizawa.
O custo da ração, que caiu recentemente, pode aliviar os pecuaristas, mas não evita o impacto da tarifa. Consumidores já sentem a alta acumulada de 20,8% em 2024, segundo o IBGE, com cortes como acém (25,2%) e contrafilé (20%) liderando os aumentos.
- Alta em 2024: Carne subiu 20,8%, maior aumento em cinco anos.
- Redução global: Oferta mundial de carne deve cair 2% em 2025.
- Demanda interna: Crescimento da renda e baixo desemprego sustentam consumo.
A combinação de fatores externos e internos torna o cenário desafiador para o consumidor brasileiro.
Estratégias para mitigar os efeitos
O governo brasileiro busca alternativas para reduzir o impacto da tarifa. A Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025, permite retaliações comerciais, mas analistas sugerem cautela. Negociações com os EUA e diversificação de mercados são as principais estratégias.
Países como Egito, Vietnã e Oriente Médio já demonstram interesse na carne brasileira. A Abiec abriu um escritório na China para ampliar negócios na Ásia, enquanto o Vietnã retomou compras em 2025. “Temos mais de 100 países comprando nossa carne. Isso nos dá margem para redirecionar”, afirma Roberto Perosa, presidente da Abiec.
O Ministério da Agricultura planeja acelerar negociações com Japão e Coreia do Sul, mercados ainda pouco explorados. Apesar do otimismo, a adaptação exige ajustes na logística e certificações sanitárias, o que pode levar meses.
- Novos mercados: Egito, Vietnã e Oriente Médio são alvos prioritários.
- Negociações: Japão e Coreia do Sul podem abrir portas para a carne brasileira.
- Retaliação: Lei de Reciprocidade Econômica dá margem para resposta comercial.
A diversificação é vista como essencial para manter a competitividade do setor.
Impacto nos consumidores americanos
A tarifa também afeta os Estados Unidos, onde a carne brasileira é usada em produtos de baixo custo, como hambúrgueres. Com a redução do rebanho americano, o menor em 80 anos, os EUA dependem de importações. A Austrália, principal fornecedora, não compete diretamente com o Brasil, mas sua carne é mais cara, custando US$ 7.169 por tonelada em maio de 2025, contra US$ 6.143 da brasileira.
Com a tarifa, o preço da carne brasileira nos EUA pode chegar a US$ 8.415 por tonelada, encarecendo produtos no varejo. A inflação da carne nos EUA já bate recordes, com alta de 9% no acumulado de 2025. Consumidores americanos podem sentir o impacto em cadeias de fast-food e supermercados.
- Rebanho americano: Menor nível em 80 anos, reduzindo oferta interna.
- Preço da carne: Alta de 9% nos EUA em 2025 pressiona consumidores.
- Dependência: Brasil fornece carne barata para a indústria americana.
A medida de Trump, motivada por questões políticas, pode gerar pressões internas nos EUA para revisão da tarifa.
Cenário econômico mais amplo
A tarifa de 50% não afeta apenas a carne. Produtos como café, suco de laranja e celulose também enfrentam desafios. O dólar, que subiu após o anúncio, pressiona a inflação no Brasil, com a Selic a 15%, a maior em quase 20 anos. A desvalorização do real encarece importações, como combustíveis, impactando toda a economia.
O Goldman Sachs estima que a tarifa pode reduzir o PIB brasileiro em 0,3 a 0,4 ponto percentual em 2025. A diversificação de mercados, com foco em Ásia e União Europeia, é vista como crucial para mitigar os efeitos. O governo Lula sinaliza negociações com os EUA, mas a imprevisibilidade de Trump torna o cenário incerto.
- Impacto no PIB: Redução estimada de 0,3 a 0,4 ponto percentual.
- Câmbio: Dólar em alta pressiona inflação e importações.
- Diversificação: Acordos com Ásia e UE são prioridades do governo.
O Brasil enfrenta um momento delicado, com reflexos diretos no bolso do consumidor.
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