A economia brasileira desacelerou no segundo trimestre de 2025, registrando crescimento de apenas 0,28%, segundo o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, 18 de agosto, em Brasília. Considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), o indicador reflete a soma de bens e serviços produzidos no país e aponta uma forte perda de ritmo em relação ao primeiro trimestre, que havia crescido 1,3%. A retração de 0,05% em junho, último mês do período, reforça a tendência de arrefecimento. O resultado, calculado com ajuste sazonal, é atribuído à política monetária restritiva, com a taxa Selic em 15% ao ano, e à retração no setor agropecuário. O dado oficial do PIB será divulgado pelo IBGE em 2 de setembro.
O desempenho do segundo trimestre marca o oitavo período consecutivo de crescimento, mas a menor taxa desde o terceiro trimestre de 2023, quando o IBC-Br caiu 0,6%. A desaceleração já era esperada por analistas e pelo próprio Banco Central, que atribuem o resultado aos juros elevados para conter a inflação. O setor de serviços foi o principal responsável por sustentar o crescimento, enquanto a agropecuária registrou queda significativa.
O cenário econômico reflete um equilíbrio delicado entre o controle inflacionário e a manutenção da atividade produtiva. A redução no ritmo de crescimento levanta debates sobre os impactos de longo prazo da política monetária e os desafios para a retomada mais robusta da economia.
- Setores em destaque: O setor de serviços cresceu 0,7%, enquanto a agropecuária caiu 3,1%.
- Taxa de juros: A Selic, mantida em 15%, influencia diretamente o consumo e o investimento.
- Comparação trimestral: O primeiro trimestre de 2025 teve expansão de 1,3%, quase cinco vezes maior.
- Perspectiva anual: O Banco Central projeta crescimento de 2,1% para o PIB em 2025.
Desempenho setorial no segundo trimestre
O setor de serviços foi o principal motor do crescimento econômico entre abril e junho de 2025, com alta de 0,7%. Atividades como comércio, informação e comunicação lideraram a expansão, impulsionadas pelo aumento do consumo em áreas urbanas. No entanto, o desempenho foi insuficiente para compensar a retração de 3,1% na agropecuária, que havia registrado forte crescimento no primeiro trimestre devido a condições climáticas favoráveis. A indústria, por sua vez, apresentou variação positiva tímida, de 0,1%, com destaque para a construção civil, que se beneficiou de projetos iniciados no final de 2024.
A queda na agropecuária reflete a sazonalidade do setor e a base de comparação elevada do primeiro trimestre, quando a safra de soja alcançou níveis recordes. Apesar disso, analistas apontam que o setor agrícola ainda deve contribuir positivamente para o PIB anual, com projeções de crescimento de 6,5% em 2025. A indústria, embora estável, enfrenta desafios relacionados à alta dos custos de produção e à menor demanda externa, impactada por tarifas internacionais, como as impostas pelos Estados Unidos.
- Serviços: Crescimento de 0,7%, com destaque para comércio e tecnologia da informação.
- Agropecuária: Retração de 3,1%, influenciada por fatores sazonais e base alta de comparação.
- Indústria: Alta de 0,1%, com construção civil compensando estagnação na manufatura.
- Impactos externos: Tarifas dos EUA podem reduzir o PIB em até R$ 175 bilhões.
Fatores que explicam a desaceleração
A política monetária restritiva adotada pelo Banco Central, com a manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, é um dos principais fatores por trás da desaceleração. A medida visa controlar a inflação, que permanece pressionada por custos de energia e alimentos. A alta dos juros encarece o crédito, reduzindo o consumo das famílias e os investimentos em setores como construção e manufatura. Além disso, o menor impulso fiscal, com corte em gastos públicos, também contribui para o ritmo mais lento da economia.
O cenário externo também desempenha um papel relevante. A imposição de tarifas de 50% pelo governo norte-americano, liderado por Donald Trump, ameaça as exportações brasileiras, especialmente no setor de commodities. Estudos estimam que o impacto dessas tarifas pode custar até R$ 175 bilhões ao PIB brasileiro, com reflexos diretos na balança comercial. Apesar disso, o mercado interno tem se mostrado resiliente, com o setor de serviços mantendo a economia em terreno positivo.
O Banco Central destacou que a economia opera acima de seu potencial, com o chamado hiato do produto ainda positivo. Isso indica que, apesar da desaceleração, há espaço para crescimento sem pressões inflacionárias significativas. A instituição espera que a moderação no ritmo econômico continue no segundo semestre, mas sem comprometer a trajetória de expansão anual.
Resultados mensais e perspectivas futuras
O mês de junho foi particularmente desafiador, com o IBC-Br registrando uma contração de 0,05% na comparação com maio, após ajuste sazonal. Essa foi a segunda queda mensal consecutiva, seguindo uma retração de 0,7% em maio. Apesar do recuo, o indicador acumula alta de 3,2% no primeiro semestre de 2025, em relação ao mesmo período de 2024, e de 3,9% nos últimos 12 meses até junho.
A comparação com o primeiro trimestre, que registrou crescimento de 1,3%, evidencia a perda de dinamismo. No entanto, o acumulado do ano sugere que a economia brasileira mantém uma trajetória de crescimento, ainda que em ritmo mais lento. O mercado financeiro projeta uma expansão de 2,21% para o PIB em 2025, enquanto o Banco Central estima 2,1%, números inferiores aos 3,4% registrados em 2024.
- Junho de 2025: Retração de 0,05%, a segunda queda mensal consecutiva.
- Acumulado do semestre: Alta de 3,2% em relação ao primeiro semestre de 2024.
- Projeção anual: Mercado prevê 2,21%, enquanto o BC estima 2,1% para 2025.
- Comparação com 2024: O PIB de 2024 cresceu 3,4%, maior que o projetado para 2025.
Papel da política monetária
A manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, reflete a estratégia do Banco Central para conter pressões inflacionárias. A instituição sinalizou que os juros permanecerão elevados por um período prolongado, com cortes previstos apenas para 2026. Essa postura tem gerado debates entre economistas, que apontam os impactos negativos no consumo e no investimento.
O aumento do custo do crédito afeta diretamente setores sensíveis, como a indústria de transformação e o varejo. Por outro lado, a alta dos juros tem contribuído para manter a inflação dentro de um intervalo controlável, embora acima da meta de 3%. O Banco Central avalia que a desaceleração econômica é um elemento necessário para alcançar a convergência da inflação à meta no médio prazo.
Empresas e consumidores sentem os efeitos da política monetária restritiva, com redução no poder de compra e adiamento de projetos de expansão. Ainda assim, setores menos sensíveis aos juros, como a agropecuária e a produção de petróleo, continuam a sustentar a economia, com projeções otimistas para o segundo semestre.
Influência do setor externo
As tensões comerciais internacionais, especialmente com os Estados Unidos, representam um risco significativo para o crescimento econômico. As tarifas impostas pelo governo norte-americano afetam diretamente as exportações brasileiras de commodities, como soja e minério de ferro. O impacto potencial de R$ 175 bilhões no PIB reforça a necessidade de diversificação dos mercados de exportação.
Apesar dos desafios, o setor de serviços, que representa cerca de 70% da economia brasileira, continua a mostrar resiliência. Atividades como tecnologia da informação e comércio eletrônico registraram crescimento acima da média, impulsionadas pela digitalização e pelo aumento do consumo online. Esses fatores ajudam a mitigar os efeitos negativos das tarifas externas e da política monetária restritiva.
- Exportações: Crescimento de 2,9% no primeiro trimestre, mas ameaçado por tarifas.
- Comércio eletrônico: Alta de 6,9% em atividades de informação e comunicação.
- Diversificação: Brasil busca novos mercados para reduzir dependência dos EUA.
- Resiliência: Setor de serviços sustenta economia com peso de 70% no PIB.
Expectativas para o segundo semestre
O Banco Central projeta que a economia brasileira manterá um crescimento moderado no segundo semestre, com destaque para o setor de serviços e a produção agrícola. A safra recorde de soja, prevista para o início de 2026, deve impulsionar a agropecuária, enquanto a construção civil pode se beneficiar de projetos de infraestrutura. No entanto, a indústria enfrenta desafios devido à menor demanda externa e aos custos elevados.
O mercado financeiro mantém uma visão cautelosa, com projeções de crescimento abaixo de 2,5% para 2025. A combinação de juros altos, tarifas internacionais e menor impulso fiscal cria um ambiente de incertezas. Apesar disso, o aumento do salário mínimo e a liberação de recursos do FGTS no início do ano devem sustentar o consumo das famílias, especialmente no primeiro trimestre.
A divulgação oficial do PIB pelo IBGE, marcada para 2 de setembro, será crucial para confirmar as tendências apontadas pelo IBC-Br. Até lá, analistas acompanham indicadores mensais, como o PMI Composto e o Índice de Confiança da Indústria, que sinalizam desafios para o crescimento econômico no curto prazo.

