Banco Central recua: Drex sem blockchain decepciona mercado financeiro

DREX

DREX - foto: Saulo Ferreira Angelo/shutterstock.com

Drex, a moeda digital do Banco Central, enfrenta um revés: o projeto, anunciado em 2023 como uma revolução financeira baseada em blockchain, foi reduzido a uma infraestrutura de bastidor, com entrega adiada para 2026. Sob críticas por falta de transparência e mudanças drásticas, como a exclusão da tecnologia blockchain, o Drex decepciona o mercado e levanta dúvidas sobre sua relevância. A ausência de debates públicos e a resistência política, com uma PEC exigindo aprovação do Congresso, complicam o cenário. Enquanto isso, o setor de criptoativos clama por regulação, evidenciando a desconexão entre as prioridades do Banco Central e as necessidades do mercado financeiro.

O projeto Drex, inicialmente apresentado como uma moeda digital inovadora, prometia transformar o sistema financeiro brasileiro com inclusão, tokenização de ativos e integração com o Pix. No entanto, o Banco Central mudou o discurso, redefinindo o Drex como uma ferramenta administrativa, o que gerou questionamentos sobre sua viabilidade. A decisão de abandonar o blockchain, pilar tecnológico do projeto, chocou especialistas e investidores.

  • Principais mudanças no Drex:
    • Abandono do blockchain na primeira versão.
    • Adiamento do projeto para 2026.
    • Redefinição como infraestrutura, não moeda digital.

A guinada estratégica do Banco Central reflete desafios técnicos e preocupações com privacidade, mas também expõe falhas na comunicação e na execução do projeto.

Novo direcionamento do Drex

O Banco Central anunciou o Drex em 2023 como uma Central Bank Digital Currency (CBDC) que utilizaria blockchain permissionada e contratos inteligentes para modernizar o sistema financeiro. A promessa era ousada: facilitar transações, reduzir custos e promover inclusão financeira. No entanto, em 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, revelou que a primeira versão do Drex não usará blockchain, citando dificuldades técnicas e questões de privacidade. Essa decisão reformulou o projeto como uma infraestrutura de tokenização, focada em funções como reconciliação de gravames, em vez de uma moeda digital para uso cotidiano.

A mudança gerou críticas no mercado financeiro. Especialistas esperavam que o Drex seguisse tendências globais, como o uso de tecnologias descentralizadas para garantir transparência e segurança. A ausência de blockchain, aliada ao adiamento do projeto, reforça a percepção de que o Drex perdeu sua essência inovadora. O código publicado pelo BC no GitHub em 2023, que incluía funcionalidades como congelamento de contas e alteração de saldos, também levantou preocupações sobre controle estatal excessivo, alimentando desconfianças.

Banco Central – Foto: Marcello Casal Jr Agência Brasil

Resistência política e falta de diálogo

A condução do Drex pelo Banco Central tem sido marcada pela ausência de debates públicos, um contraste com países que discutem CBDCs em fóruns abertos. A falta de transparência motivou a deputada Júlia Zanatta a propor uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que exige aprovação do Congresso para a criação e circulação do Drex. A iniciativa reflete temores sobre privacidade e liberdade econômica, já que uma CBDC mal implementada poderia ampliar o controle estatal sobre transações financeiras.

  • Objetivos da PEC do Drex:
    • Garantir aprovação congressional para projetos de impacto.
    • Proteger a privacidade dos cidadãos.
    • Promover debates públicos sobre CBDCs.

A resistência política evidencia a necessidade de maior legitimidade para o Drex. Diferentemente de nações como a Suécia, que priorizam consultas públicas, o Brasil avançou o projeto de forma centralizada, o que compromete a confiança no processo.

Setor de criptoativos em espera

Enquanto o Banco Central foca no Drex, o mercado de ativos virtuais enfrenta entraves regulatórios. A Lei 14.478/22, que regula as Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs), como corretoras de criptomoedas, prevê licenciamento pelo BC, mas a implementação está atrasada. Questões como a “travel rule”, norma internacional que exige compartilhamento de informações para combater lavagem de dinheiro, e a segregação patrimonial, que protege ativos de clientes, seguem sem diretrizes claras.

  • Principais desafios regulatórios do setor:
    • Atraso no licenciamento de VASPs.
    • Falta de normas para segregação patrimonial.
    • Demora na adoção da travel rule.
    • Incerteza jurídica que prejudica investidores.

A ausência de regulação clara contrasta com o foco do BC no Drex, um projeto que, em sua forma atual, não atende às demandas urgentes do mercado. A falta de priorização regulatória afeta a competitividade do Brasil no setor global de criptoativos.

Lições internacionais ignoradas

Países como China e Bahamas já implementaram CBDCs, mas com objetivos distintos. A China utiliza sua moeda digital para reforçar o controle estatal, enquanto as Bahamas focam na inclusão financeira em regiões remotas. O Drex, por sua vez, parece não seguir um rumo claro. A decisão de abandonar o blockchain vai na contramão de tendências globais, onde tecnologias descentralizadas são valorizadas por sua segurança e transparência.

Na Europa, a regulação de criptoativos precede o desenvolvimento de CBDCs, garantindo um ecossistema financeiro equilibrado. No Brasil, a falta de diálogo público e a demora em regular o mercado de criptoativos comprometem a credibilidade do Drex. Países como a Suécia, que promovem debates abertos antes de lançar moedas digitais, servem como exemplo de transparência que o BC não adotou.

  • Práticas internacionais em CBDCs:
    • China: foco em controle estatal.
    • Bahamas: ênfase em inclusão financeira.
    • Suécia: debates públicos amplos.
    • União Europeia: regulação de criptoativos antes de CBDCs.

A ausência de um modelo claro para o Drex reforça a percepção de um projeto desconexo das necessidades do mercado e das tendências globais.

Futuro incerto do projeto

O Drex, que deveria ser um marco no sistema financeiro brasileiro, enfrenta críticas por sua falta de clareza e constantes mudanças de direção. A redefinição como infraestrutura, o abandono do blockchain e o adiamento para 2026 sugerem um projeto que perdeu força. Enquanto o Banco Central ajusta suas prioridades, o mercado de criptoativos clama por regulação, e a sociedade cobra maior transparência.

  • Perguntas abertas sobre o Drex:
    • Qual será o papel do Drex no sistema financeiro?
    • Como o BC garantirá a privacidade dos usuários?
    • Por que o blockchain foi descartado?
    • Quando haverá um cronograma confiável?

O projeto, que já foi comparado a iniciativas globais de CBDCs, agora parece mais uma promessa não cumprida. A PEC proposta por Zanatta pode trazer o escrutínio necessário, mas o futuro do Drex segue envolto em incertezas.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.