O leilão do primeiro túnel submerso do Brasil, que conectará Santos e Guarujá, no litoral de São Paulo, ocorre nesta sexta-feira, 5 de setembro de 2025, às 16h, na sede da B3, em São Paulo. Com investimento estimado em R$ 6,8 bilhões, a obra, parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), será executada por meio de uma parceria público-privada, com R$ 5,1 bilhões de recursos públicos e R$ 1,78 bilhão da iniciativa privada. Duas empresas estrangeiras, a espanhola Acciona Concesiones e a portuguesa Mota-Engil, disputam a concessão de 30 anos para construir, operar e manter a estrutura. O túnel, com 1,5 km de extensão, sendo 870 metros submersos, promete reduzir o tempo de travessia entre as cidades de até 60 minutos para cerca de dois minutos, beneficiando 720 mil moradores e o comércio local. A conclusão está prevista para 2030, atendendo a uma demanda centenária da Baixada Santista.
A obra, aguardada desde 1927, quando o engenheiro Enéas Marini apresentou o primeiro projeto, é considerada um marco para a mobilidade urbana e a economia da região. A tecnologia de túnel imerso, inédita no Brasil, utiliza módulos de concreto pré-moldados, construídos em docas secas, testados e afundados no canal portuário. A iniciativa, conduzida em parceria entre os governos federal e estadual, também reflete esforços conjuntos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador Tarcísio de Freitas, apesar de tensões políticas recentes.
- Principais características do projeto:
- Extensão total de 1,5 km, com 870 metros submersos.
- Três faixas de rolamento por sentido, incluindo uma para Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
- Ciclovia e espaço para pedestres, atendendo a 7,6 mil pedestres e 7,7 mil ciclistas diários.
- Investimento de R$ 6,8 bilhões, com 75% de aporte público.
Tecnologia pioneira na construção
A construção do túnel Santos-Guarujá utiliza a técnica de túnel imerso, amplamente aplicada em países como Holanda, Japão e China, mas inédita no Brasil. Diferentemente de túneis escavados, que exigem perfurações profundas em rocha, o método envolve a fabricação de módulos de concreto em terra firme. Esses blocos, construídos em docas secas, passam por testes rigorosos de vedação e resistência antes de serem transportados por flutuação até o canal. No local, são afundados com precisão, encaixados no leito do canal e protegidos por camadas de areia e pedras.
O processo começa com a preparação do fundo do canal, onde uma trincheira é escavada e nivelada com uma base de concreto para suportar os módulos. Cada módulo é posicionado com sistemas hidráulicos e fixado com pinos de aço, garantindo estabilidade contra correntes marítimas. A escolha dessa técnica foi motivada pelas condições do solo da região, composto por argilas moles e sedimentos fluviais, inadequados para escavações tradicionais. Além disso, o método reduz impactos ambientais e urbanísticos, minimizando desapropriações e interferências visuais no porto.
- Etapas principais da construção:
- Escavação do leito do canal e aplicação de base de concreto.
- Fabricação de seis módulos de concreto em docas secas.
- Transporte por flutuação e submersão controlada dos módulos.
- Fixação e proteção com camadas de areia e pedras.
Benefícios para a mobilidade urbana
A travessia entre Santos e Guarujá, hoje feita por balsas ou por um trajeto rodoviário de até 60 minutos, é um gargalo para moradores, turistas e o comércio local. Cerca de 78 mil pessoas cruzam o canal diariamente, enfrentando filas e atrasos, especialmente em períodos de alta temporada. O túnel reduzirá o tempo de travessia para cerca de dois minutos, conectando diretamente as regiões de Outeirinhos e Macuco, em Santos, ao bairro Vicente de Carvalho, em Guarujá.
A estrutura contará com três faixas de rolamento por sentido, uma delas reservada para o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), além de ciclovia e espaço para pedestres. Isso atenderá a demanda de 21 mil veículos, 7,7 mil ciclistas e 7,6 mil pedestres que utilizam a travessia diariamente. A professora Célia, moradora de Guarujá, destacou o impacto na rotina: “Hoje, perco muito tempo esperando a balsa. Com o túnel, vou poder atravessar rapidamente, o que também vai ajudar o comércio local.” A obra também promete impulsionar o turismo, facilitando o acesso às praias e ao porto de Santos, o maior da América Latina.
Histórico de um projeto centenário
A ideia de conectar Santos e Guarujá por uma travessia seca remonta aos anos 1920, quando o porto de Santos se consolidava como um dos principais da América Latina. Em 1927, o engenheiro Enéas Marini propôs o primeiro projeto de um túnel, mas a falta de tecnologia e recursos financeiros adiou a iniciativa. Nos anos 1940, a discussão sobre uma ponte levadiça ganhou força, mas foi descartada devido ao impacto no tráfego de navios.
Nas décadas seguintes, crises econômicas e falta de prioridade política mantiveram o projeto engavetado. Somente no início do século 21, com novos estudos, a proposta ganhou tração. Em 2010, anúncios reacenderam esperanças, mas foi apenas em 2025, com o lançamento do edital pelo presidente Lula e pelo governador Tarcísio, que a obra começou a se materializar. A parceria entre os governos federal e estadual, apesar de tensões políticas, foi essencial para viabilizar o financiamento e o leilão.
- Marcos históricos do projeto:
- 1927: Primeiro projeto proposto por Enéas Marini.
- 1948: Discussão sobre ponte levadiça, descartada por questões logísticas.
- 2010: Novos estudos e promessas de execução.
- 2025: Lançamento do edital e leilão na B3.
Aspectos ambientais e licenciamento
A construção do túnel exigiu um rigoroso processo de licenciamento ambiental, conduzido pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A licença prévia foi emitida em agosto de 2025, após a entrega do Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) em julho de 2024. O processo incluiu análises detalhadas para minimizar danos ao ecossistema do canal portuário, que abriga fauna marinha e é essencial para o equilíbrio ambiental da região.
Medidas de mitigação incluem o monitoramento contínuo da qualidade da água e a proteção de áreas sensíveis durante a obra. A escolha do túnel imerso, em vez de uma ponte, também reduz impactos visuais e evita interferências na Base Aérea de Santos e no tráfego de navios. A Cetesb ainda aguarda informações complementares do município para a emissão de licenças operacionais, mas o projeto já é considerado um exemplo de integração entre infraestrutura e sustentabilidade.
- Medidas ambientais adotadas:
- Monitoramento da fauna e da qualidade da água.
- Uso de técnicas que minimizam desapropriações.
- Proteção do leito do canal com camadas de areia e pedras.
- Redução de impacto visual em comparação com uma ponte.
Expectativas para o leilão e o futuro
O leilão na B3, marcado para esta sexta-feira, é um marco para a Baixada Santista. A espanhola Acciona, responsável pela Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, e a portuguesa Mota-Engil, com experiência em projetos offshore com a Petrobras, disputam a concessão. A empresa vencedora será aquela que oferecer o maior desconto sobre a parcela mensal paga pelo poder público, com possibilidade de lances ao vivo em caso de empate.
A obra, prevista para ser concluída em 2030, é vista como um divisor de águas para a região. Além de melhorar a mobilidade, o túnel fortalecerá a economia local, conectando o porto de Santos a redes logísticas e turísticas. A integração com o VLT também abre perspectivas para um transporte público mais eficiente, reduzindo a dependência de veículos individuais. A população local, que aguardou quase um século por essa ligação, vê na obra a promessa de uma nova era para a Baixada Santista.
- Impactos esperados do túnel:
- Redução do tempo de travessia de até 60 minutos para dois minutos.
- Melhoria no acesso ao porto de Santos, beneficiando o comércio.
- Estímulo ao turismo com maior fluxo entre as cidades.
- Integração com o VLT para transporte público mais eficiente.
