A seleção brasileira, sob o comando de Carlo Ancelotti, conquistou vitórias expressivas contra Paraguai e Chile pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2026, mas enfrenta questionamentos sobre sua consistência tática. O treinador italiano, que assumiu o cargo em maio de 2025, realizou o sonho de comandar a equipe no Maracanã, onde o Brasil derrotou o Chile por 3 a 0 em 4 de setembro. Apesar dos resultados positivos, o colunista Tostão, ex-jogador e cronista esportivo, alerta que os triunfos podem mascarar fragilidades, especialmente no meio-campo, que já custaram eliminações em Copas recentes. As partidas, disputadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mostram um time em construção, com Ancelotti testando estratégias e jogadores para formar um elenco competitivo. A pressão por um futebol convincente cresce à medida que a Copa se aproxima, exigindo ajustes para enfrentar adversários mais fortes.
O desempenho contra o Chile, com gols de Estevão, Lucas Paquetá e Bruno Guimarães, revelou um Brasil dominante no segundo tempo, mas com dificuldades iniciais para impor seu jogo. Ancelotti, conhecido por sua abordagem pragmática, aposta em variações táticas, mas precisa resolver o “vazio no meio-campo” apontado por Tostão, um problema recorrente em eliminações contra Alemanha, Bélgica e Croácia. A torcida, que lotou o Maracanã com 57.326 pessoas, demonstrou apoio, mas a falta de entusiasmo em alguns momentos reflete a necessidade de um futebol mais envolvente.
Estratégias de Ancelotti em teste
Ancelotti, com sua vasta experiência em clubes como Real Madrid, trouxe uma nova dinâmica à seleção. Ele já declarou que o Brasil não terá uma única estratégia, adaptando-se aos adversários. Essa flexibilidade foi evidente contra o Chile, onde a equipe alternou momentos de pressão alta com transições rápidas. No entanto, a ausência de um meio-campo sólido preocupa especialistas.
- Pressão alta: Nos primeiros 15 minutos contra o Chile, o Brasil pressionou intensamente, criando chances, mas um gol de Casemiro foi anulado.
- Transições rápidas: Jogadores como Estevão e Vinicius Junior exploraram contra-ataques, mas a falta de conexão com o meio-campo limitou a consistência.
- Mudanças táticas: A entrada de Lucas Paquetá e Luiz Henrique no segundo tempo trouxe maior fluidez, mas expôs a dependência de ajustes no decorrer do jogo.
- Escalação experimental: Ancelotti testou nomes como Douglas Santos e Luiz Henrique, ambos do Zenit, mostrando abertura para jogadores de ligas menos competitivas.
A abordagem de Ancelotti reflete sua filosofia de adaptar o jogo às qualidades dos atletas e às demandas do adversário, mas a ausência de um armador clássico, como nas eras de Didi ou Zico, continua sendo um obstáculo. A seleção depende de Bruno Guimarães para liderar o meio, mas ele ainda não replica na seleção o mesmo brilho do Newcastle.
Meio-campo: o calcanhar de Aquiles
O vazio no meio-campo, destacado por Tostão, não é um problema novo. Nas Copas de 2014, 2018 e 2022, o Brasil sofreu eliminações por falta de controle na intermediária. Ancelotti, ciente disso, tenta soluções com jogadores versáteis, mas a falta de um meia criativo limita a construção de jogadas.
O empate sem gols contra o Equador, em junho, evidenciou essa fragilidade. Apesar de uma defesa sólida, com sete jogadores protegendo a área, o Brasil criou poucas chances claras. A estratégia defensiva funcionou para neutralizar o adversário, mas faltou agressividade ofensiva. Contra o Paraguai, a vitória por 1 a 0, com atuação destacada de Bruno Guimarães, trouxe alívio, mas não convenceu totalmente.
- Falta de armação: A ausência de um camisa 10 clássico força o Brasil a depender de jogadas individuais de Vinicius Junior e Estevão.
- Laterais frágeis: Laterais como Danilo e Douglas Santos, embora sólidos defensivamente, não oferecem a dinâmica ofensiva vista em seleções como Inglaterra ou França.
- Concorrência interna: Ancelotti destacou que há pelo menos 70 jogadores com potencial para a seleção, o que complica a escolha de um elenco coeso.
A comparação com seleções europeias, como Portugal e Espanha, que utilizam meias habilidosos e móveis, reforça a necessidade de evolução. Ancelotti, que já trabalhou com craques como Kroos e Modric, sabe que o Brasil precisa de mais equilíbrio para competir em alto nível.
Impacto das vitórias no Maracanã
A vitória contra o Chile marcou a estreia de Ancelotti no Maracanã, um momento simbólico para o treinador que escolheu o estádio para o confronto. Apesar do placar elástico, a torcida não vibrou como esperado, com exceção dos aplausos a ex-jogadores de clubes cariocas, como Paquetá e Luiz Henrique. O público de 57.326 pessoas gerou uma renda de R$ 9,3 milhões, mas a falta de conexão emocional reflete a necessidade de um futebol mais cativante.
O treinador italiano, que vive no Rio de Janeiro desde maio, tem se dedicado a conhecer o futebol brasileiro, assistindo a jogos de clubes como Flamengo e Botafogo. Sua imersão no cenário local é vista como um diferencial, mas a pressão por resultados imediatos é alta. A seleção, atualmente em quarto lugar nas Eliminatórias com 21 pontos, precisa manter a regularidade para garantir a vaga direta na Copa de 2026.
Jogadores em destaque e desafios
Ancelotti tem testado novos nomes, como Douglas Santos e Luiz Henrique, que surpreenderam contra o Chile. Ambos, do Zenit, aproveitaram a chance em um contexto de menor visibilidade do futebol russo. Luiz Henrique, que participou de dois gols, e Douglas Santos, sólido na lateral, mostram que Ancelotti está disposto a buscar talentos fora dos grandes centros europeus.
- Luiz Henrique: Ex-Botafogo, marcou presença com assistências e movimentação no ataque.
- Douglas Santos: Após nove anos sem jogar pela seleção, mostrou segurança na defesa.
- Bruno Guimarães: Melhorou contra o Paraguai, mas precisa ser mais decisivo na criação.
- Estevão: Jovem promessa, abriu o placar contra o Chile com um gol de oportunismo.
Por outro lado, a ausência de Neymar, devido a problemas físicos, continua sendo um tema delicado. Ancelotti já afirmou que o jogador precisa estar em plenas condições para voltar, encerrando a “bajulação” que marcou gestões anteriores. A dependência de jogadores como Vinicius Junior, que não repete na seleção o mesmo desempenho do Real Madrid, também é um desafio.
Futuro da seleção sob Ancelotti
Com a Copa de 2026 se aproximando, Ancelotti enfrenta a missão de transformar a seleção em um time equilibrado e competitivo. As vitórias contra Paraguai e Chile são passos importantes, mas insuficientes para apagar as lembranças das eliminações recentes. A próxima partida, contra a Bolívia, em La Paz, será um teste crucial, especialmente pela dificuldade da altitude.
O treinador italiano, conhecido por sua calma e capacidade de adaptação, precisa encontrar soluções para o meio-campo e integrar jovens talentos com veteranos. A pressão da torcida e da mídia, que esperam um futebol à altura da tradição brasileira, será um fator constante. Ancelotti, apelidado de “Carletto” pelos torcedores, tem o desafio de construir uma equipe que combine disciplina tática com o talento individual que sempre marcou o Brasil.
Expectativas para a Copa de 2026
A seleção brasileira, pentacampeã mundial, carrega o peso de reconquistar o título após mais de duas décadas. Ancelotti, com sua experiência em grandes clubes, é visto como a esperança de renovação, mas o caminho é longo. A comparação com seleções como Argentina, atual campeã, e potências europeias exige um salto de qualidade.
- Adversários de peso: Argentina, França e Inglaterra têm elencos mais consolidados.
- Renovação do elenco: Jogadores como Estevão e Endrick podem ser peças-chave no futuro.
- Evolução tática: Ancelotti precisa implementar um sistema que maximize o potencial de Vinicius Junior e Raphinha.
- Pressão da torcida: O apoio inicial pode se transformar em críticas se os resultados não vierem.
O treinador, que já conquistou a Liga dos Campeões com o Real Madrid, sabe que o sucesso na seleção depende de ajustes finos e paciência. A torcida, por sua vez, espera que o “ancelottismo” traga de volta o brilho do futebol brasileiro.
