A morte de Angela Ro Ro, ícone da música popular brasileira conhecida por sua voz rouca e irreverente, ocorreu na manhã de 8 de setembro de 2025, aos 75 anos, no Hospital Silvestre, localizado no bairro de Cosme Velho, no Rio de Janeiro. A artista, cujo nome completo era Angela Maria Diniz Gonsalves, lutava há meses contra uma infecção pulmonar grave que evoluiu para pneumonia bacteriana e infecção generalizada, agravadas por complicações como crise renal e necessidade de traqueostomia. Internada desde 17 de junho, ela passou por intubação e hemodiálise, mas uma nova bactéria contraída na UTI levou a uma parada cardíaca fatal, conforme confirmado por seu advogado, Carlos Eduardo Lyrio.
Antes da hospitalização, amigos relataram seu estado debilitado em um apartamento simples em Copacabana, onde vivia sozinha, sem parentes próximos e dependendo de visitas esporádicas. A causa raiz da internação inicial foi uma infecção no sangue, acompanhada de suspeita de neoplasia descartada posteriormente, e sua condição financeira precária, com apenas R$800 mensais de direitos autorais, a obrigou a recorrer a doações via PIX divulgadas nas redes sociais para custear tratamentos. Essa trajetória de luta reflete não só o declínio físico, mas também a vulnerabilidade de artistas veteranos sem aposentadoria ou reservas, em um contexto onde shows esporádicos eram sua principal fonte de renda, interrompida pela pandemia e pela saúde frágil.
Amigos próximos observaram sinais de isolamento desde maio, quando o produtor Paulinho Lima publicou um apelo nas redes, descrevendo Angela como incapaz de se locomover sozinha e resistindo a cuidados médicos. Ela negou publicamente as alegações, chamando-as de fofocas, mas admitiu fraqueza extrema e anemia em vídeos pessoais.
A solidão marcou seus dias finais, com poucas visitas e dependência de uma ex-companheira para apoio emocional, destacando como sua personalidade forte, sempre franca sobre amores e identidade, contrastava com a ausência de rede familiar.
Durante a internação, boletins médicos indicavam estabilidade relativa, mas a falta de coordenação motora pós-sedação e a necessidade de reabilitação vocal complicaram a recuperação.
Sua última apresentação ao vivo aconteceu em maio de 2025, no Teatro Rival, onde cantou sucessos com energia renovada, mas sintomas respiratórios já apareciam.
Declínio da saúde nos meses finais
O quadro de saúde de Angela Ro Ro se agravou progressivamente ao longo de 2025, começando com episódios de fraqueza e infecções recorrentes que a impediram de manter uma rotina ativa. Em junho, a infecção pulmonar a levou ao hospital, onde exames revelaram obstruções respiratórias que demandaram intervenção imediata.
Médicos optaram pela traqueostomia após falha na intubação convencional, um procedimento que abre a traqueia para facilitar a ventilação, comum em casos prolongados de insuficiência respiratória.
- A hemodiálise foi introduzida para tratar a crise renal associada, filtrando toxinas do sangue em sessões diárias.
- Anemia severa contribuiu para o cansaço constante, exigindo transfusões sanguíneas.
- Suspeita inicial de câncer no sangue foi descartada por biópsias, mas o estresse orgânico acelerou o declínio geral.
- Recuperação vocal pós-traqueostomia demandava terapia fonoaudiológica, mas infecções secundárias interromperam o processo.
Ela demonstrou lúcida em raros contatos, expressando desejo de retornar aos palcos, mas o isolamento na UTI limitou interações.
O produtor Paulinho Lima, que a conhecia desde os anos 1970, enfatizou sua resistência em aceitar ajuda, preferindo automedicação em casa antes da internação.
Companheiros de longa data notaram que sua voz, outrora potente, enfraqueceu nos últimos shows, sinalizando problemas respiratórios crônicos.
Crise financeira exposta publicamente
Angela Ro Ro enfrentou restrições econômicas severas nos anos recentes, agravadas pela pandemia que cancelou apresentações e reduziu royalties de streaming. Sem aposentadoria pelo INSS, sua renda se limitava a valores irrisórios de direitos autorais, forçando apelos diretos a fãs.
Em vídeos no Instagram, ela divulgou sua chave PIX, explicando a necessidade urgente para despesas médicas e manutenção do apartamento em Copacabana.
- Royalties mensais giravam em torno de R$800, oriundos de plataformas como Spotify e execuções em rádios.
- Ausência de cachês altos em shows menores, com valores modestos por apresentação, não permitiu poupança.
- Doações de fãs e colegas, incluindo shows beneficentes no Teatro Rival, cobriram parte das contas hospitalares.
- Abandono por uma produtora de longa data em junho piorou a situação, deixando-a sem agenciamento para futuros trabalhos.
- Herança familiar, como uma casa em Saquarema, gerava despesas de manutenção sem gerar renda.
Seu advogado destacou que, apesar de 145 composições registradas no ECAD, o fluxo de verbas era insuficiente para uma vida digna pós-aposentadoria artística.
Ela mencionou em postagens viver de forma simples, priorizando a arte sobre acumulação, mas a saúde consumiu reservas mínimas.
Amigos relataram que Maria Bethânia e outros músicos contribuíram anonimamente, refletindo solidariedade no meio.
Trajetória pioneira na música brasileira
Angela Ro Ro emergiu na cena musical nos anos 1970, após experiências no exterior que moldaram seu estilo eclético. Nascida em 5 de dezembro de 1949, no Rio, ganhou o apelido de infância pela risada rouca, que ecoava em sua voz adulta.
Estudou piano clássico desde os cinco anos, influenciada por Ella Fitzgerald e Maysa, misturando blues, bolero e samba-canção em composições confessionais.
Seu primeiro álbum homônimo, lançado em 1979 pela Polygram, explodiu com faixas que capturavam intensidade emocional, marcando-a como voz autêntica da MPB.
Participações em álbuns alheios, como “Transa” de Caetano Veloso em 1972, onde tocou gaita, a conectaram à vanguarda tropicalista.
- Álbuns subsequentes como “Só nos resta viver” (1980) e “Escândalo” (1981) consolidaram sucessos com letras sobre amores e rebeldia.
- Regravações por Maria Bethânia e Ney Matogrosso ampliaram seu alcance, gerando royalties iniciais robustos.
- Apresentações em casas noturnas do Rio nos anos 1970 pavimentaram o caminho para contratos discográficos.
- Influência de Dolores Duran e Jacques Brel enriqueceu seu repertório com toques de drama e ironia.
Sua irreverência a levou a recusar “Malandragem”, de Cazuza e Frejat, em 1988, que virou hit para Cássia Eller.
Nos anos 2000, apresentou o talk show “Escândalo” no Canal Brasil, entre 2004 e 2005, expandindo sua presença para além da música.
Polêmicas e personalidade marcante
A vida de Angela Ro Ro foi pontuada por controvérsias que destacavam sua franqueza, especialmente sobre orientação sexual, assumida publicamente desde os anos 1980 em uma era conservadora. Em 1981, confirmou ser lésbica em programa de TV, desafiando normas sociais.
Relacionamentos com mulheres, como o de quatro décadas com Laninha Braga, intermitente mas profundo, geraram manchetes, incluindo acusações de abuso emocional por uma ex em 2021.
- Aos 71 anos, uma namorada 50 anos mais jovem alegou manipulação emocional, mas Angela rebateu com humor em entrevistas.
- No prédio em Copacabana, vizinhos a denunciaram em 1997 por supostas ameaças e comportamentos disruptivos, que ela negou veementemente.
- Recusa de vícios como álcool e cigarro nos anos 1990 marcou uma fase de equilíbrio, contrastando com excessos juvenis.
- Envolvimento com uma fisioterapeuta em 2024 foi discreto, focando em apoio mútuo sem exposição midiática.
Sua postura resistente a convenções artísticas, como rejeitar músicas impostas, reforçava a imagem de artista independente.
Entrevistas explosivas, cheias de anedotas sobre amores e carreira, a tornavam figura adorada e temida no meio.
Legado na MPB e influências duradouras
O impacto de Angela Ro Ro na música brasileira transcende gravações, inspirando gerações com sua fusão de gêneros e letras que exploram vulnerabilidades femininas. Classificada pela Rolling Stone como a 33ª maior voz nacional, sua rouquidão evocava blues em canções como “Gota de Sangue”.
Colaborações com compositores como Ana Terra em “Amor, Meu Grande Amor” definiram hinos da década de 1980, regravados por Marina Lima e outros.
- 14 álbuns solo acumulam mais de 100 gravações, incluindo “Simples Carinho” (1982), com toques de rock e samba.
- Participação no Festival de Rock de Saquarema em 1974 a posicionou ao lado de Rita Lee na efervescente cena pós-ditadura.
- Documentário em produção por Liliane Mutti, com arquivos pessoais, captura depoimentos inéditos de sua jornada.
- Influência em artistas LGBTQIA+ pioneiras, promovendo visibilidade em tempos de repressão.
Seu piano habilidoso e interpretação visceral influenciaram o teatro musical e o jazz brasileiro.
Último álbum, “Selvagem” (2017), revisitava clássicos com maturidade, provando vitalidade criativa aos 68 anos.
Amigos como Leo Jaime a descreveram como única, capaz de elevar qualquer melodia com emoção crua.

