Conselheiros do Santos debatem riscos da SAF em encontro restrito sem propostas concretas
O Santos Futebol Clube mergulhou em um debate interno sobre sua possível transformação em Sociedade Anônima do Futebol durante uma reunião restrita realizada na terça-feira, 9 de setembro de 2025, na Vila Belmiro, com a participação de cerca de 80 conselheiros e o advogado Rodrigo Monteiro de Castro, um dos principais arquitetos da lei que regula o modelo de clube-empresa no Brasil. O encontro, inicialmente marcado como sigiloso com proibição de celulares para evitar vazamentos, visava esclarecer dúvidas sobre o processo de criação de uma SAF, mas acabou liberando os aparelhos após repercussão negativa nas redes sociais e na imprensa. Sem a presença do presidente Marcelo Teixeira ou de outros membros do executivo, a sessão destacou os riscos de implementações mal planejadas, inspiradas em casos como Botafogo e Vasco, e reforçou que o procedimento poderia ser concluído em até 30 dias, caso aprovado pelo conselho e pelos sócios. A ausência de propostas oficiais de investidores gerou questionamentos sobre a urgência do tema, especialmente em um contexto de dívidas que superam R$ 500 milhões e um patrimônio líquido negativo de R$ 610 milhões no segundo trimestre de 2025.
O objetivo principal era alinhar o estatuto social do clube para permitir a entrada de capital externo, mas o caráter reservado do evento alimentou críticas por falta de transparência, com conselheiros defendendo uma votação separada sobre a SAF em vez de um pacote amplo de reformas estatutárias. A discussão ganhou contornos de urgência devido à delicada situação financeira do Peixe, que registrou um déficit de R$ 42,9 milhões apenas no segundo trimestre deste ano, agravando um passivo que já pressiona o dia a dia das operações. Apesar de um superávit de R$ 54 milhões na janela de transferências recente, impulsionado por negociações como a de jogadores emprestados, o clube projeta um rombo de R$ 89,5 milhões para o ano inteiro de 2025, mesmo com receitas operacionais estimadas em R$ 423,7 milhões. Essa pressão econômica, somada à luta contra o rebaixamento na Série A – onde o time ocupa a 17ª posição com apenas 14 pontos em 16 rodadas –, faz da SAF uma saída estratégica para atrair aportes que equilibrem as contas e fortaleçam o elenco.
Especialista destaca armadilhas na criação de SAF
Rodrigo Monteiro de Castro, doutor em Direito Comercial pela PUC-SP e coautor dos projetos de lei que originaram a legislação das SAFs em 2021, assumiu o centro das atenções ao explicar os passos iniciais para uma transição bem-sucedida. Com experiência em reestruturações de clubes como Botafogo e Vasco, ele enfatizou que erros iniciais, como a falta de definição clara de limites contratuais, podem comprometer irreversivelmente o modelo, citando exemplos de SAFs “malfeitas” no país que enfrentam disputas judiciais prolongadas.
O advogado detalhou que a lei atual, mais madura desde sua aprovação, permite uma constituição rápida, mas exige alinhamento entre o clube e potenciais investidores quanto a valores compartilhados e objetivos comuns. No caso do Santos, ele esclareceu que certos débitos, como os fiscais, não seriam transferíveis para a nova estrutura, o que poderia aliviar o passivo sem onerar o comprador. Essa explanação durou cerca de duas horas e resolveu dezenas de questionamentos, mas deixou conselheiros divididos sobre o ritmo acelerado proposto pela Comissão de Estatuto.
- Legislação facilitada: A lei de 2021, inspirada em modelos europeus, agora permite criação em até um mês, com foco em governança e transparência.
- Riscos iniciais: Definição inadequada de percentuais de controle ou patrimônio pode levar a litígios, como visto em transições recentes.
- Modelos variados: Opções vão de gestão mantida pelo clube a controle total pelo investidor, com delegação de poderes.
- Dívidas selecionadas: Apenas obrigações não fiscais ou trabalhistas podem migrar, preservando o clube de passivos irrecuperáveis.
Celso Pires, presidente da Comissão de Estatuto, complementou ao afirmar que ativos icônicos como Vila Belmiro e o departamento de base ficariam fora de qualquer venda, garantindo a preservação da identidade santista. No entanto, ele defendeu mudanças adicionais no estatuto, como o fim do Comitê de Gestão e a exigência de mandatos sucessivos para candidaturas à presidência, o que gerou resistência imediata entre os presentes.
Divisões internas marcam o encontro na Vila
A ausência de Marcelo Teixeira e do executivo surpreendeu parte dos conselheiros, que viram no fato uma oportunidade para um debate mais técnico, mas outros interpretaram como sinal de desinteresse ou manobra para evitar questionamentos diretos. Um conselheiro, sob anonimato, relatou que a sensação predominante foi de prematuridade, com muitos pedindo mais tempo para avaliar impactos em um clube com mais de 100 mil sócios-torcedores ativos, apesar da crise esportiva.
O caráter “secreto” do evento, embora atenuado pela liberação dos celulares, reforçou críticas à transparência da gestão. Diferentemente de outros clubes, como o Fluminense, que transmite reuniões semelhantes ao vivo, o Santos optou por um formato fechado, o que alimentou teorias de que o foco real seria aprovar um pacote de reformas estatutárias “em bloco”, sem votação item a item. Essa estratégia, segundo opositores, poderia diluir o debate sobre a SAF em meio a polêmicas menores, facilitando aprovações rápidas.
A repercussão externa também influenciou: após vazamentos iniciais sobre a proibição de aparelhos, a comissão recuou, permitindo que os participantes registrassem notas. Ainda assim, sem ata oficial ou registro formal, o encontro foi descrito como “informal”, o que contrasta com a gravidade do tema. Conselheiros como os que representam grupos oposicionistas argumentaram que uma transmissão para sócios evitaria desconfianças e democratizaria o processo.
Em um tom mais otimista, parte dos presentes elogiou a escolha da XP Investimentos como parceira exclusiva para o valuation do clube, estimado em R$ 2,2 bilhões – o maior para um time brasileiro, baseado em 3,4 vezes a receita projetada de R$ 600 milhões para 2025. No entanto, questionou-se por que não envolver múltiplas consultorias para comparações, especialmente considerando o histórico de receitas voláteis do Peixe.
Modelos de SAF inspiram o Santos
Inspirado em sucessos como o do Cruzeiro, sob gestão de Ronaldo Fenômeno, o Santos busca replicar estratégias que reduziram custos em 30% e atraíram R$ 600 milhões em investimentos em 2024. A contratação de Alexandre Cobra, ex-gestor financeiro da SAF cruzeirense, sinaliza essa direção, com foco em renegociações de contratos e exploração de ativos como o CT Rei Pelé, avaliado em R$ 150 milhões.
No cenário nacional, a SAF já transformou realidades: o Botafogo, após aporte internacional, garantiu vaga na Libertadores em 2023, enquanto o Vasco subiu da Série B e briga por Sul-Americana. Monteiro de Castro alertou, porém, que o sucesso depende de cláusulas iniciais rígidas, evitando “histeria” por resultados imediatos. Para o Santos, isso significa priorizar naming rights da nova Vila Belmiro, em negociação com a WTorre, projetados para R$ 100 milhões anuais.
- Cruzeiro como referência: Redução de dívidas via recuperação judicial e foco em patrocínios gerou vaga em torneios continentais.
- Botafogo em ascensão: Investimentos em elenco elevaram o time ao topo do Brasileirão, com transparência contratual chave.
- Vasco em transição: Apesar de batalhas jurídicas, a SAF estabilizou finanças e promoveu retorno à elite.
- Bahia e Atlético-MG: Modelos híbridos equilibram controle clubístico com injeções externas, priorizando base jovem.
O retorno de Neymar em 2025, apesar de lesões, eleva o apelo global, com 12 gols na temporada e potencial para atrair fundos estrangeiros, como um grupo do Qatar já sinalizado. Essa dinâmica poderia injetar R$ 200 milhões iniciais, cobrindo débitos urgentes e reforços como Billal Brahimi, cotado por R$ 12 milhões.
Crise financeira pressiona decisões urgentes
O balanço do segundo trimestre revela um endividamento que representa 30,9% da receita orçada para 2024, superando o limite estatutário de 10%. Com passivo circulante em R$ 437 milhões e não circulante em R$ 539 milhões, o clube renegociou R$ 40 milhões em dívidas bancárias e judiciais sob Teixeira, mas o patrimônio negativo persiste, agravado por juros de empréstimos e depreciações.
A gestão atribui parte do rombo à herança de gestões anteriores e ao rebaixamento de 2023, que cortou receitas de transmissão em R$ 25 milhões em 2024. Para 2025, o superávit operacional de R$ 28,6 milhões depende de receitas de jogos e patrocínios, mas despesas financeiras de R$ 118,2 milhões – incluindo amortizações de atletas – ameaçam o equilíbrio. O Conselho Fiscal recomenda comitês mensais de controle, enquanto o Profut, que alonga dívidas tributárias, corre risco de perda se o déficit ultrapassar limites.
Renegociações recentes, como as de contratos trabalhistas, evitaram novas ações judiciais, mas o clube precisa de aportes para folha salarial inchada, que chegou a R$ 34 milhões no primeiro trimestre com Neymar. A média de 12 mil pagantes por jogo na Vila Belmiro sustenta os 100 mil sócios, mas protestos em julho cobraram transparência na SAF para preservar a essência alvinegra.
Passos iniciais definem o futuro do Peixe
Uma nova reunião do Conselho está agendada para breve, possivelmente com apresentação de propostas por Teixeira, que evitou o primeiro encontro para focar em negociações externas. Grupos como o de Kia Joorabchian, parceiro histórico do Corinthians, e investidores qatarianos sinalizaram interesse, mas sem ofertas formais. O valuation da XP, de R$ 2,2 bilhões, serve de base, mas conselheiros pedem análises múltiplas para evitar subvalorizações.
A Comissão de Estatuto insiste na votação em bloco para agilizar reformas, mas opositores buscam separação, priorizando a SAF isoladamente. Monteiro de Castro reforçou que a lei incentiva convênios com escolas públicas para educação via futebol, alinhando o modelo a impactos sociais além do lucro. Para o Santos, isso poderia revitalizar a base, historicamente formadora de ídolos como Pelé e Neymar.
Enquanto o time de Juan Pablo Vojvoda treina para o jogo contra o Bahia em 14 de setembro, com rodízio para poupar veteranos, a diretoria equilibra campo e mesa de negociações. O técnico argentino, contratado em junho, enfrenta um elenco com 137,3 milhões investidos em contratações – quarto maior da Série A –, mas resultados ruins aumentam a pressão por resultados que justifiquem os gastos.
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