O grupo de nações BRICS, que agora inclui membros como Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, está intensificando os preparativos para o lançamento de um sistema de pagamentos e uma potencial moeda de referência própria até 2026. A iniciativa, que ganhou força após a cúpula de Kazan em 2024 e será pauta central na reunião do Rio de Janeiro em 2025, visa criar uma alternativa robusta à dependência do dólar americano nas transações comerciais internacionais. Este movimento estratégico responde diretamente às crescentes tensões geopolíticas e à vulnerabilidade dos membros a sanções financeiras impostas pelo Ocidente, buscando fortalecer a soberania econômica de um bloco que já representa uma parcela significativa da economia mundial.
A proposta central é construir uma infraestrutura financeira independente que proteja e impulsione o comércio entre os países membros. O projeto tem metas claras e estruturadas para alcançar essa autonomia.
- Reduzir os custos de transação ao eliminar a necessidade de conversão para o dólar.
- Blindar as economias do bloco contra a volatilidade cambial e sanções financeiras.
- Incentivar o uso de moedas locais, fortalecendo o comércio bilateral e a integração.
- Aumentar a influência do grupo nas instituições financeiras globais.
A arquitetura digital por trás do BRICS Pay
A base tecnológica para essa nova era financeira é a plataforma BRICS Pay, um sistema de pagamentos que permitirá transações diretas entre as moedas locais dos países membros, como o real, o rublo e o yuan. O objetivo é que as operações comerciais ocorram de forma fluida e sem a intermediação do dólar, que atualmente domina o sistema SWIFT.
Inspirado no sucesso de sistemas de pagamento instantâneo como o Pix brasileiro, o projeto utilizará tecnologias de Moedas Digitais de Bancos Centrais (CBDCs) e blockchain para garantir transações seguras, rápidas e de baixo custo. Testes piloto envolvendo Brasil, Rússia e China estão programados para começar em 2026.
Liderança brasileira impulsiona o projeto
O Brasil tem se posicionado como um dos principais articuladores da proposta, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendendo publicamente a necessidade de um sistema que promova maior autonomia para as nações emergentes. A experiência bem-sucedida do Banco Central do Brasil com o Pix confere ao país a credibilidade técnica para liderar o desenvolvimento da nova plataforma.
Alternativas em estudo para a nova unidade de conta
Atualmente, os especialistas do bloco analisam três modelos principais para a futura unidade monetária. O primeiro, e mais avançado, é um sistema totalmente digital baseado na integração das CBDCs de cada país membro através da plataforma BRICS Pay. Este formato aproveitaria a infraestrutura digital já em desenvolvimento por nações como China, que lidera com seu yuan digital, e o próprio Brasil, com o Drex. A vantagem seria a agilidade e a segurança proporcionadas pela tecnologia blockchain, facilitando o comércio e os investimentos diretos.
Outra alternativa em consideração é a criação de uma moeda lastreada em uma cesta de commodities, como ouro, petróleo e outros recursos naturais abundantes nos países do BRICS. Esse modelo ofereceria uma base de valor mais tangível e estável em comparação com as moedas fiduciárias tradicionais, servindo como uma proteção contra a inflação e a instabilidade dos mercados. Um terceiro caminho seria uma unidade de conta, similar aos Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI, que funcionaria como um ativo de reserva para os bancos centrais do bloco.
Obstáculos internos e a complexa dinâmica do bloco
Apesar do avanço nas discussões, a implementação de uma moeda comum enfrenta barreiras consideráveis. As profundas diferenças nas políticas monetárias e nos sistemas econômicos de cada membro representam um desafio técnico significativo para a harmonização.
Tensões geopolíticas internas, especialmente a rivalidade histórica e a competição por influência regional entre China e Índia, podem dificultar o consenso necessário para um projeto de tamanha magnitude. A dominância econômica chinesa também gera preocupações sobre um possível desequilíbrio de poder dentro do novo sistema.
Além disso, há resistência de setores do mercado financeiro e de exportadores em alguns países, que temem perder a flexibilidade e a liquidez oferecidas pelo dólar nas transações globais. A complexidade de negociar acordos multilaterais detalhados também adiciona uma camada de dificuldade ao cronograma.
O financiamento e o papel do Novo Banco de Desenvolvimento
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como o banco do BRICS, desempenha um papel central no financiamento e na viabilização desta transição. A instituição, presidida por Dilma Rousseff, tem como um de seus mandatos principais fomentar projetos que aumentem o uso de moedas locais.
Em 2024, o NDB anunciou a liberação de US$ 30 bilhões destinados a financiar projetos que apoiem a desdolarização gradual das economias dos países membros. Esse montante será crucial para desenvolver a infraestrutura tecnológica necessária para o BRICS Pay.
A estratégia do banco é aumentar a parcela de empréstimos concedidos em moedas locais, meta que já vem sendo perseguida nos últimos anos. A China, com o yuan já sendo utilizado em uma parcela significativa das transações do bloco, apoia fortemente essa direção.
A atuação do NDB é vista como fundamental para dar suporte técnico e financeiro, garantindo que a transição para um novo sistema de pagamentos seja estruturada e sustentável para todos os integrantes do grupo.
Reações internacionais e a tensão geopolítica com o Ocidente
A iniciativa do BRICS é observada com atenção e certa apreensão pelas potências ocidentais, especialmente pelos Estados Unidos. A possibilidade de uma alternativa viável ao dólar, que atualmente responde por mais de 80% das transações comerciais globais e compõe a maior parte das reservas internacionais, é vista como um desafio direto à sua hegemonia financeira. Autoridades norte-americanas já manifestaram preocupação, e figuras políticas, como o ex-presidente Donald Trump, chegaram a ameaçar com a imposição de tarifas retaliatórias caso o projeto avance, classificando-o como uma ameaça à segurança econômica do país. Em contrapartida, líderes do BRICS, como o presidente Lula, têm reiterado que a busca por maior autonomia não é um movimento “antiamericano”, mas sim uma estratégia para criar um sistema financeiro global mais multipolar e equilibrado, que reflita a nova realidade econômica mundial.
Avanços práticos e o fortalecimento do comércio intra-bloco
Enquanto a arquitetura de uma moeda comum é debatida, os países do BRICS já estão implementando medidas práticas para reduzir a dependência do dólar. Acordos bilaterais para o comércio em moedas locais estão se tornando cada vez mais comuns, como o mecanismo estabelecido entre Brasil e Argentina para transações em reais e pesos.
A cúpula de Kazan, realizada em 2024, foi um marco importante ao consolidar as bases para o sistema de pagamentos BRICS Bridge, precursor do BRICS Pay. Essas iniciativas demonstram um compromisso político firme e servem como projetos-piloto para a integração financeira mais ampla planejada para os próximos anos.
