Débitos indevidos do BRB no Banco Central geram queixas de ex-clientes Master e Will Bank
Centenas de consumidores que mantinham relações financeiras com o Will Bank ou o Banco Master estão reportando a aparição de dívidas ativas ou em atraso registradas em seus nomes no Sistema de Informações de Crédito (SCR) do Banco Central. A situação surpreendente aponta o Banco de Brasília (BRB) como responsável por esses registros, mesmo em casos onde os débitos já foram integralmente quitados ou nunca sequer existiram, conforme apurado em 4 de fevereiro de 2026.
Os relatos indicam um crescente problema que afeta diretamente a saúde financeira dos indivíduos, impactando a capacidade de obtenção de novos créditos e financiamentos. Muitos desses clientes afirmam nunca terem tido qualquer tipo de conta ou relacionamento direto com o BRB, o que torna a situação ainda mais complexa e preocupante para as partes envolvidas.
A origem do vínculo entre o BRB e os clientes das outras instituições financeiras remonta a operações de compra de carteiras de crédito. O Banco de Brasília havia adquirido carteiras do Banco Master desde 2024 e, em certo momento, chegou a anunciar a intenção de comprar a própria instituição, movimento que foi posteriormente vetado pelo Banco Central.
Registro indevido no sistema do Banco Central
Os clientes, ao consultarem seus dados no Registrato, sistema do Banco Central que permite acesso a relatórios financeiros pessoais, se depararam com a inclusão desses débitos. A ferramenta consolida informações que bancos e demais instituições financeiras compartilham obrigatoriamente com a autoridade monetária, tornando-se um espelho da situação de crédito de cada indivíduo no mercado.
A descoberta desses registros equivocados tem gerado considerável apreensão. Muitos só tomaram conhecimento do problema após serem negados em outras operações financeiras, como a obtenção de financiamentos imobiliários ou empréstimos, devido à “pendência” apontada no SCR, impactando diretamente o seu score de crédito.
Acordos e a origem das carteiras de crédito
O BRB firmou a compra de diversas carteiras de crédito do Banco Master, transações que se intensificaram após a liquidação extrajudicial do Master. A Polícia Federal chegou a investigar um suposto esquema de fraudes bilionárias, onde o BRB teria adquirido cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito consideradas de baixa qualidade e sem as devidas garantias financeiras.
Para compensar as carteiras problemáticas vendidas anteriormente, o Banco Master transferiu novas carteiras ao banco brasiliense. Nessas negociações, uma parcela dos empréstimos transferidos teria sido originada pelo Will Bank, que também passou por um processo de liquidação. É a partir desses movimentos complexos que, supostamente, surgiram os dados dos clientes que agora estão sendo notificados pelo BRB sobre as dívidas.
Obrigações legais na transferência de dívidas
Especialistas em direito bancário e do consumidor esclarecem que a venda ou cessão de carteiras de crédito é uma prática comum no mercado financeiro. No entanto, tais operações estão sujeitas a regras e obrigações estritas, especialmente no que tange à proteção dos direitos dos consumidores.
Uma das exigências fundamentais da legislação é que o consumidor seja devidamente notificado sobre a transferência de seu crédito. Essa comunicação deve ser clara, por escrito, e pode ser realizada por e-mail ou carta, informando a quem o cliente passará a dever e qual instituição será responsável pela gestão dos pagamentos.
Mais do que apenas o envio, é crucial que haja a comprovação da ciência do devedor sobre a cessão, seja por meio de assinatura ou de outro meio que ateste, de forma inequívoca, que a informação foi recebida e compreendida. A ausência dessa notificação pode gerar a ineficácia da cessão perante o consumidor, mantendo o banco original como responsável pelo crédito.
Quem assume a responsabilidade pelos registros
Embora o BRB argumente que a falta de informações do liquidante do Will Bank impede a baixa das operações, juristas consultados destacam que a responsabilidade final pela correção dos registros no Banco Central recai sobre o banco que os efetua. Em casos de cessão de créditos, a instituição adquirente assume a incumbência de classificar e atualizar os dados dos novos clientes, incluindo a correta classificação de suas reservas para cobrir potenciais inadimplências, o que exige uma validação prévia e imediata das informações antes de repassá-las ao sistema regulatório. Portanto, o BRB não pode se eximir da responsabilidade de fornecer dados precisos aos consumidores, sendo seu dever garantir que a situação de crédito apresentada no SCR seja exata, mesmo que o problema original possa ter se originado de uma falha de comunicação com o liquidante.
Repercussões para o score dos consumidores
Os prejuízos para os clientes afetados pelos registros indevidos são notáveis. Um cliente, que optou por não se identificar, relatou ter tido um financiamento imobiliário negado por outra instituição financeira devido a uma dívida vencida, de R$ 10 mil, que não reconhecia. Apesar de abrir um chamado na ouvidoria do BRB, a justificativa apresentada foi a não disponibilização total dos dados atualizados, enquanto as cobranças e registros indevidos persistiam.
A gravidade do problema é corroborada por um volume crescente de reclamações. O portal Reclame Aqui, por exemplo, registrou centenas de ocorrências similares apenas em janeiro, com 324 reclamações entre agosto e dezembro de 2025. Esse número representa um aumento significativo de 326% em comparação com as 76 queixas registradas no mesmo período de 2024.
Os relatos dos consumidores são variados, mas convergem para o mesmo ponto: dívidas desconhecidas ou já quitadas que aparecem como ativas. Um dos relatos descreve: “Ao consultar meu histórico financeiro, identifiquei a existência de uma dívida em atraso junto ao Banco BRB no valor de R$ 19.600,07, a qual não reconheço. […] A informação disponível no registrato indica que se trata de um débito referente a cartão de crédito, porém nunca possuí cartão junto ao BRB”. Outro cliente menciona ter feito um acordo com o Will Bank antes de seu fechamento, mas o débito vencido continuava no Registrato em nome do BRB.
Medidas para clientes lesados
Diante de uma situação de registro indevido, a orientação é que os consumidores entrem em contato direto com a instituição credora para solicitar formalmente, e por escrito, o contrato, o valor atualizado da dívida, a identificação do responsável pela cobrança e qual banco originou o crédito.
O posicionamento do Banco de Brasília
O BRB, em nota oficial, informou que, após a liquidação do Will Bank, houve uma interrupção no fluxo de informações sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas. O banco reforçou que, contratualmente, a instituição que originou os créditos é a responsável por acompanhar os pagamentos e encaminhar os valores correspondentes.
Ainda na nota, o BRB afirmou ter realizado conciliações internas e enviado comunicados ao liquidante, solicitando a retomada do processo de envio de dados. O banco enfatizou que a compra das carteiras de crédito seguiu todas as regras e contratos vigentes, e que está pronto para corrigir os dados no SCR assim que as informações forem disponibilizadas pelo administrador do banco em liquidação.
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