Nasa revela vídeo inédito de 28 horas do cometa interestelar 3I/ATLAS registrado pelo satélite TESS
A Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) divulgou uma sequência de imagens raras que documentam a passagem do cometa interestelar 3I/ATLAS pelo nosso Sistema Solar. Compilado em um vídeo de 28 horas, o material foi capturado pelo satélite TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) e oferece uma visão prolongada e detalhada do objeto, que se originou em outro sistema estelar. As observações, realizadas em janeiro, mostram o cometa como um ponto luminoso com uma cauda proeminente, movendo-se contra o fundo de estrelas distantes.
O registro foi obtido enquanto o 3I/ATLAS já se afastava do Sol, após ter atingido o periélio, o ponto mais próximo de sua órbita, em outubro de 2025. A compilação das imagens foi um trabalho minucioso liderado por Daniel Muthukrishna, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e membro da equipe científica da missão TESS. Este documento visual é considerado de grande valor para a comunidade científica, pois permite estudar a dinâmica e o comportamento de um raro mensageiro de outra vizinhança cósmica.
A capacidade de registrar um objeto em rápido movimento como este cometa demonstra a versatilidade do TESS, cuja missão primária é a busca por planetas fora do nosso Sistema Solar. A aplicação da tecnologia para este fim expande seu escopo científico, fornecendo dados cruciais para a astronomia planetária e para o estudo de visitantes interestelares, que continuam sendo eventos de extremo interesse e raridade.
A versatilidade inesperada do caçador de planetas
Projetado para monitorar vastas áreas do céu por longos períodos, o TESS opera buscando por minúsculas quedas no brilho de estrelas, um método que indica a passagem de um exoplaneta em frente ao seu astro. Contudo, seu amplo campo de visão e sua capacidade de observação contínua se mostraram perfeitamente adequados para acompanhar a trajetória do 3I/ATLAS através do espaço. Análises posteriores dos arquivos da missão revelaram um fato surpreendente: o satélite já havia registrado o objeto em maio de 2025, quase dois meses antes de sua descoberta oficial por telescópios terrestres. Naquela ocasião, o cometa se apresentava como um ponto tênue, sem a atividade cometária, como a coma e a cauda, que se tornaria visível meses depois, à medida que se aproximava do calor do Sol. Essa detecção precoce e não intencional sublinha a sensibilidade do instrumento e fornece um ponto de dados inicial crucial sobre o comportamento do cometa antes de sua atividade se intensificar.
Desafios técnicos e a reconstrução da trajetória
A montagem da sequência de 28 horas não ocorreu sem percalços. A equipe da missão enfrentou um desafio técnico quando uma falha nos painéis solares do TESS forçou o satélite a entrar em modo de segurança, interrompendo temporariamente as observações entre os dias 15 e 18 de janeiro. Esse tipo de evento, embora previsto em missões espaciais de longa duração, sempre representa um risco para a coleta de dados contínuos, especialmente no caso de um alvo transitório como um cometa em alta velocidade.
Apesar da pausa de três dias, a equipe conseguiu coletar uma quantidade substancial de imagens nos dias seguintes, até 22 de janeiro. O material foi suficiente para reconstruir com clareza o percurso do cometa durante o período de observação. O trabalho de processamento permitiu aos cientistas criar um vídeo fluido, que possibilita a análise detalhada da movimentação do objeto e das variações de seu brilho de forma contínua, superando a interrupção e garantindo o sucesso científico da campanha de observação.
Analisando a cauda e a rotação do visitante
O vídeo compilado a partir dos dados do TESS exibe com clareza a cauda anti-solar do cometa.
Essa estrutura, composta de poeira e gás, aponta na direção oposta à sua posição em relação ao Sol, um fenômeno característico de cometas ativos.
Embora a resolução do TESS não permita visualizar detalhes finos da estrutura, a longa sequência é fundamental para estudar flutuações no brilho geral do objeto.
Os pesquisadores planejam usar essas variações para confirmar o período de rotação do núcleo do cometa, estimado anteriormente em cerca de 7,1 horas com base em imagens do Telescópio Espacial Hubble.
A origem e a jornada do 3I/ATLAS
O cometa 3I/ATLAS foi oficialmente descoberto em 1º de julho de 2025 pelo sistema Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System (ATLAS), um observatório localizado no Chile.
Poucos dias após sua detecção, a análise de sua trajetória confirmou o que os astrônomos suspeitavam: sua origem era de fora do nosso Sistema Solar.
O objeto segue uma órbita hiperbólica acentuada, indicando que sua velocidade é alta demais para que seja capturado pela gravidade do Sol, garantindo que ele apenas nos visitaria antes de retornar ao espaço profundo.
Um trio de mensageiros de outras estrelas
O 3I/ATLAS é o terceiro objeto interestelar confirmado a atravessar nosso sistema, e cada um deles apresentou características distintas que intrigam os cientistas e ampliam o conhecimento sobre a diversidade de corpos celestes na galáxia.
O primeiro, 1I/’Oumuamua, detectado em 2017, chamou a atenção por seu formato extremamente alongado e pela ausência de uma coma visível, o que gerou debates sobre sua natureza. O segundo, 2I/Borisov, identificado em 2019, exibia um comportamento mais clássico, com uma cauda de poeira e gás bem definida, muito semelhante aos cometas do nosso próprio Cinturão de Kuiper. Já o 3I/ATLAS se destacou por desenvolver uma coma e cauda evidentes desde grandes distâncias, fornecendo mais material para análise de sua composição.
Uma campanha de observação coordenada
O estudo do 3I/ATLAS não se limitou ao TESS, envolvendo uma colaboração entre diversas missões espaciais da Nasa para obter a imagem mais completa possível do visitante. O Telescópio Espacial Hubble, por exemplo, capturou 36 imagens de altíssima resolução do cometa entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, aproveitando um raro alinhamento geométrico entre o objeto, a Terra e o Sol.
Essas imagens detalhadas do Hubble são cruciais para revelar estruturas finas na cauda e possíveis jatos de material emanando do núcleo, servindo como uma referência para calibrar as análises do vídeo de menor resolução do TESS. A campanha de observação continuará em março de 2026, quando a sonda Juno, atualmente em órbita de Júpiter, terá a oportunidade de observar o cometa a uma distância de aproximadamente 53,6 milhões de quilômetros.
Janelas para outros sistemas planetários
O estudo de objetos como o 3I/ATLAS é fundamental para a astrofísica, pois eles funcionam como sondas diretas de outros sistemas planetários. A análise de sua composição química, da proporção de elementos e do comportamento de seus gelos voláteis oferece pistas valiosas sobre as condições e os materiais presentes em sua região de origem, permitindo aos cientistas comparar a formação de sistemas estelares em diferentes partes da galáxia.










