Mulher é assassinada a facadas em casa e Santa Catarina registra ao menos 2 feminicídios no fim de semana
Santa Catarina enfrentou um fim de semana marcado por episódios chocantes de violência de gênero, com o registro de ao menos dois feminicídios em diferentes regiões do estado. Os crimes, que tiveram como suspeitos os companheiros das vítimas, acendem um sinal de alerta urgente sobre a persistência e a gravidade da violência doméstica, que continua a ceifar vidas em ambiente familiar.
Em Florianópolis, na comunidade do Papaquara, uma mulher de 36 anos foi brutalmente assassinada a facadas dentro de sua própria casa no sábado (4). A Polícia Militar, ao chegar ao local, encontrou o suspeito, de 32 anos, que apresentava ferimentos decorrentes de agressões sofridas por parte de moradores. Após ser questionado, o homem confessou a autoria do crime e foi imediatamente detido pelas autoridades.
Simultaneamente, no interior de São Domingos, localizado no Oeste catarinense, outra mulher, Ana Leda Santoro, de 67 anos, foi encontrada morta em sua residência, também no sábado. As investigações preliminares da Polícia Civil apontam que o marido da vítima é o principal suspeito. Familiares relataram ter recebido uma ligação do companheiro de Ana Leda por volta das 5h, na qual ele admitia ter cometido o crime.
Aumento da violência de gênero em Santa Catarina
Os lamentáveis acontecimentos do fim de semana somam-se a uma estatística já preocupante no estado. Até fevereiro, Santa Catarina havia contabilizado 8 feminicídios. O panorama se torna ainda mais sombrio ao analisar os dados do Mapa do Feminicídio, divulgado pelo Ministério Público, que revela um total de 335 mulheres mortas em razão da violência de gênero entre os anos de 2020 e 2024.
Desse montante alarmante, 71% das vítimas foram assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, um dado que reforça a urgência de medidas de proteção e conscientização sobre os riscos dentro dos relacionamentos afetivos. A reiteração desses crimes por pessoas próximas às vítimas é um indicativo da complexidade e da intimidade da violência, que muitas vezes ocorre em ambiente de vulnerabilidade e confiança.
Perfil das vítimas e barreiras de proteção
Estudos aprofundados sobre o perfil das vítimas de feminicídio em Santa Catarina apontam para características socioeconômicas que evidenciam desigualdades e fragilidades. A maioria das mulheres afetadas, por exemplo, possui renda familiar per capita de até cinco salários mínimos, valor que em 2026 seria de R$ 1.621 por pessoa, indicando a necessidade de suporte financeiro e de autonomia.
A baixa escolaridade também se destaca como um fator presente, com 31,9% das vítimas tendo o ensino fundamental incompleto. Este dado sugere uma barreira significativa no acesso à justiça e aos mecanismos de proteção disponíveis, que muitas vezes exigem conhecimento sobre direitos e procedimentos legais. A falta de informação e recursos agrava a situação de vulnerabilidade dessas mulheres.
Desafios no acesso à justiça
Apesar dos avanços na legislação, a pesquisa do Ministério Público revelou que 73,2% das vítimas de feminicídio em Santa Catarina nunca tiveram acesso a uma medida protetiva. Somente 19,7%, em algum momento, solicitaram a proteção judiciária, o que levanta questões sobre a eficácia dos canais de denúncia e a percepção de segurança por parte das mulheres em risco.
A ausência de vínculo empregatício formal também é um fator relevante, com 71,5% das vítimas não possuindo carteira assinada. Essa condição pode limitar a independência financeira, tornando mais difícil para a mulher se afastar do agressor e buscar ajuda, perpetuando um ciclo de dependência e violência. A empregabilidade e a autonomia econômica são vistas como pilares na prevenção.
Outro aspecto observado é a idade das vítimas, sendo que 79,7% tinham entre 12 e 49 anos, com picos de incidência nas faixas de 18-24 e 35-39 anos. Esses períodos coincidem com o início da vida adulta e a estabilização de vínculos afetivos, momentos em que muitas mulheres podem estar mais expostas a relacionamentos abusivos. A maioria, 65%, era mãe, o que adiciona uma camada de complexidade para a denúncia, muitas vezes por medo das consequências para os filhos.
Legislação e combate ao feminicídio
O feminicídio, caracterizado como o assassinato de uma mulher por razões da condição de sexo feminino, está previsto no artigo 121-A do Código Penal brasileiro. A inclusão dessa qualificadora no código penal, a partir da lei número 13.104/2015, representa um reconhecimento da gravidade e da especificidade dos crimes motivados por questões de gênero, buscando oferecer uma resposta legal mais robusta a essa forma de violência.
A tipificação legal do feminicídio tem como objetivo não apenas endurecer as penas para os agressores, mas também dar visibilidade ao problema, sensibilizando a sociedade e o sistema de justiça para a urgência de prevenir e combater esses crimes. Contudo, a efetividade dessa legislação depende da sua aplicação rigorosa e da existência de uma rede de apoio e proteção que funcione de maneira integrada e acessível. A qualificação do crime como feminicídio é um passo importante para a justiça.
Vulnerabilidade em municípios menores
Um dado revelador do estudo aponta que, apesar de os números absolutos de feminicídios serem maiores em cidades de grande porte, o risco proporcional de mulheres serem vítimas é significativamente elevado em municípios menores. Nessas localidades, foram identificados os chamados “corredores do fenômeno feminicida”, áreas onde a incidência é desproporcional à população.
Essa concentração em cidades menores pode estar relacionada à menor oferta de serviços de apoio, menor visibilidade dos casos e, por vezes, a laços sociais mais estreitos que dificultam a denúncia e a intervenção. A falta de recursos especializados e a distância dos centros urbanos podem criar um ambiente de maior isolamento para as vítimas, exigindo políticas públicas focadas e adaptadas à realidade de cada região para garantir a proteção.
Reações e medidas de segurança
Os incidentes do fim de semana provocaram reações diversas, desde a intervenção de moradores em Florianópolis até a rápida ação familiar ao acionar as autoridades em São Domingos. Tais reações, embora ocorrendo em circunstâncias trágicas, sublinham a importância da mobilização da sociedade civil e da conscientização sobre a violência de gênero, que pode começar com a observação atenta a sinais de abuso no convívio diário.
A resposta coordenada entre polícia, bombeiros e serviços de assistência é fundamental para a proteção das vítimas e a responsabilização dos agressores. É imperativo que os órgãos públicos atuem de forma preventiva e repressiva, investindo em capacitação profissional, ampliando canais de denúncia e garantindo que as mulheres em situação de risco tenham acesso facilitado a abrigos e apoio psicossocial.
A importância da denúncia
Diante de um cenário tão desafiador, a denúncia se estabelece como a principal ferramenta para romper o ciclo da violência doméstica. É crucial que a sociedade esteja atenta e que as vítimas, familiares ou testemunhas não hesitem em procurar os canais de apoio e segurança disponíveis. Cada denúncia é um passo vital para salvar vidas e combater a impunidade, reforçando a mensagem de que a violência contra a mulher não será tolerada e que há caminhos para a proteção e a justiça.
Veja Tambem em Brasil
Acidente na BR-116 deixa 16 mortos de uma família em Santa Terezinha na Bahia
Prefeitura de Manaus inaugura Rua da Copa da Semulsp em Compensa
Mulher de 72 anos cai de escada durante desembarque da LATAM em Congonhas e morre dois dias depois
Copa do Mundo 2026: servidores do Rio aguardam definição sobre expediente nos dias de jogos do Brasil
Anvisa autoriza retomada da produção da Ypê em fábrica de Amparo após correções
Prejuízo de R$ 3,1 bilhões: Correios divulgam balanço do 1º trimestre de 2026 com aumento significativo
Acidente fatal em Belo Horizonte: torcedor do Cruzeiro, de 20 anos, morre ao cair de ônibus após jogo
Bala perdida mata criança de 12 anos em parquinho na Pavuna; investigação apura o crime no Rio de Janeiro
Mudanças no trabalho em feriados já estão valendo; veja o impacto para comércio e trabalhadores
Acidente fatal na PR-483 mata casal Ivan Goehlen e Lívia Friedrich, noivos com casamento planejado
Catarina de Moura relata alterações no corpo de Gabriel Ganley após anabolizantes; polícia aguarda laudo definitivo