Polícia Militar

Abordagem policial termina em morte e afastamento de agentes na região de Cidade Tiradentes

Policial atira em mulher SP
Foto: Policial atira em mulher SP - Reprodução PMESP

Uma intervenção policial na Rua Edimundo Audran, localizada no bairro de Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, resultou na morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, na madrugada da última sexta-feira. O episódio ganhou novos desdobramentos após o acesso às imagens das câmeras corporais utilizadas pelos agentes envolvidos na ocorrência. O material audiovisual revela o momento exato em que um dos policiais questiona a colega de farda sobre a motivação do disparo efetuado contra a vítima.

A soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, foi identificada como a autora do tiro que atingiu Thawanna durante a abordagem ocorrida por volta das 3h da manhã. O soldado Weden Silva Soares, que conduzia a viatura e utilizava o equipamento de gravação, reagiu com surpresa e indignação logo após o disparo. A vítima foi levada ao Hospital Tiradentes para receber atendimento médico de emergência, contudo, os ferimentos foram fatais e ela não sobreviveu aos danos causados pelo projétil.

Divergências nos depoimentos sobre a dinâmica da abordagem

As investigações conduzidas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa buscam esclarecer as contradições entre os relatos oficiais e as testemunhas oculares. Enquanto a corporação alega que houve uma agressão física iniciada pela moradora, familiares e pessoas que presenciaram a cena sustentam que a ação foi arbitrária e desproporcional. A dinâmica do incidente começou quando o retrovisor do veículo oficial atingiu o braço de Luciano Gonçalves dos Santos, marido de Thawanna, que caminhava pela via pública.

A discussão escalou rapidamente após o soldado Weden repreender o casal de forma ríspida, questionando a presença deles no meio da rua naquele horário específico. De acordo com os registros das câmeras, a soldado Yasmin desembarcou do veículo e se envolveu em um confronto verbal direto com a vítima. Relatos de testemunhas indicam que agressões físicas teriam partido da agente antes da utilização da arma de fogo contra a mulher desarmada.

  • O casal caminhava pela Rua Edimundo Audran quando foi atingido pelo retrovisor.
  • A viatura policial deu marcha à ré para iniciar o procedimento de abordagem.
  • Houve troca de ofensas verbais entre os ocupantes do veículo e as vítimas.
  • A soldado Yasmin efetuou um único disparo à curta distância após sair do carro.
  • O resgate médico chegou ao local aproximadamente trinta minutos após o ocorrido.

Procedimentos disciplinares e afastamento imediato dos agentes

A Secretaria da Segurança Pública confirmou que a soldado responsável pelo disparo e os demais militares presentes na ação foram afastados de suas funções operacionais. A medida visa garantir a isenção das investigações criminais e administrativas que correm paralelamente na Corregedoria da Polícia Militar e na Polícia Civil. A arma utilizada no crime foi apreendida para a realização de exames balísticos detalhados que comporão o inquérito oficial.

O Ministério Público de São Paulo também instaurou um procedimento investigativo próprio para acompanhar o caso e garantir o devido processo legal. A transparência do processo é um dos pontos centrais exigidos por órgãos de direitos humanos que acompanham o aumento da letalidade policial no estado. As autoridades competentes reforçaram que todas as circunstâncias estão sendo apuradas com prioridade absoluta para identificar possíveis desvios de conduta e abuso de autoridade.

Detalhes das gravações e o uso de câmeras corporais

As imagens captadas pela câmera de Weden Silva Soares mostram o interior da viatura e o diálogo tenso após o evento crítico que tirou a vida da moradora. Notadamente, a soldado Yasmin não portava o equipamento de filmagem individual por ser recém-formada na corporação, estando em atividade de campo há apenas três meses. Essa ausência de registro direto do ponto de vista da atiradora dificulta a reconstituição precisa dos movimentos que antecederam o disparo fatal.

No áudio captado, é possível ouvir o parceiro de patrulha questionando de forma enfática a razão pela qual ela decidiu utilizar a arma de fogo contra a vítima. A soldado justificou sua atitude alegando ter recebido um tapa no rosto durante o embate físico com a vítima na calçada. Entretanto, as filmagens externas e relatos de quem estava no local sugerem que Thawanna apenas tentava se proteger de uma investida física da própria policial militar antes de ser atingida.

Protestos e clima de tensão em Cidade Tiradentes

A morte de Thawanna da Silva Salmázio provocou uma onda de indignação entre os moradores do extremo leste da capital paulista, resultando em manifestações populares. Os moradores locais denunciam o que classificam como truculência sistemática em abordagens realizadas dentro da comunidade, exigindo justiça e punição severa para os responsáveis. Barricadas foram montadas em vias principais do bairro como forma de protesto contra a violência exercida por agentes do Estado durante o patrulhamento preventivo.

Os manifestantes carregavam cartazes pedindo o fim da impunidade e criticando a formação dos novos soldados que ingressam no policiamento de rua em áreas periféricas. A presença policial foi reforçada na região para conter possíveis conflitos, mas o clima permanece de luto e revolta entre os vizinhos da vítima. Lideranças comunitárias afirmam que o caso de Thawanna não é um episódio isolado, mas reflete uma falha crônica nos protocolos de segurança pública adotados.

Versão oficial apresentada no boletim de ocorrência

O registro inicial da ocorrência, realizado no 49º Distrito Policial, descreve que a equipe avistou o casal caminhando de braços dados de maneira instável na via. Segundo o depoimento dos policiais, Luciano teria se desequilibrado e colidido com o retrovisor, o que motivou a parada técnica da viatura para averiguação. Os agentes alegaram que o casal apresentava sinais visíveis de embriaguez e que Luciano teria desobedecido ordens de afastamento.

O documento aponta que Thawanna teria avançado contra a soldado Yasmin, invadindo seu espaço de segurança e desferindo golpes que atingiram a face da policial. Diante da suposta agressão, a soldado afirmou ter agido em legítima defesa para conter a moradora, resultando no disparo acidental ou reativo. Esta versão é contestada frontalmente pelas evidências de vídeo e pela ausência de sinais de resistência violenta por parte das vítimas nos momentos iniciais da gravação.

Análise pericial e próximos passos do inquérito policial

Os laudos do Instituto de Criminalística serão fundamentais para determinar a trajetória da bala e a distância exata entre a policial e a vítima no momento do impacto. Essas informações técnicas podem desmentir ou confirmar as alegações de confronto físico relatadas pelos soldados envolvidos na morte. A perícia também analisará se houve prestação de socorro adequada ou se os agentes negligenciaram a assistência imediata após perceberem a gravidade do ferimento.

A Polícia Civil também planeja ouvir novamente todas as testemunhas que afirmaram ter visto o momento em que a viatura foi supostamente jogada contra o casal. O depoimento de Luciano Gonçalves dos Santos será crucial para detalhar as agressões que ele afirma ter sofrido, incluindo o uso de spray de pimenta enquanto já estava rendido. O Departamento de Homicídios aguarda a finalização dos exames de corpo de delito para anexar ao processo que poderá resultar no indiciamento dos agentes públicos.

Declaração oficial da Secretaria da Segurança Pública

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo emitiu uma nota oficial reiterando seu compromisso com a legalidade e a punição de qualquer irregularidade administrativa. O órgão destacou que o Inquérito Policial Militar está em curso para apurar cada detalhe da conduta dos soldados Weden e Yasmin durante a fatídica madrugada. A nota também menciona que as câmeras corporais são ferramentas essenciais para a transparência e que o caso está sendo tratado com o rigor necessário pela corregedoria.

A SSP reforçou que o treinamento dos policiais militares foca no respeito aos direitos fundamentais e na preservação da vida como diretriz principal de atuação. Contudo, o aumento estatístico de mortes causadas por agentes em serviço tem sido alvo de críticas por parte de analistas de segurança pública e entidades civis. A pasta assegura que todas as provas colhidas, incluindo os vídeos que circulam nas redes sociais, serão rigorosamente periciadas para que não restem dúvidas sobre o ocorrido.

O sistema de justiça paulista agora monitora de perto o desenrolar das investigações para decidir sobre a manutenção da prisão preventiva ou outras medidas cautelares. A comunidade de Cidade Tiradentes aguarda uma resposta rápida das autoridades para que a ordem seja mantida sem que novos episódios de violência ocorram. A família de Thawanna, por meio de seus advogados, busca a responsabilização do Estado pelos danos causados pela ação desastrosa de seus representantes legais.