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Países do bloco BRICS aceleram compra de ouro para reduzir a dependência global do dólar americano

BRICS
Foto: BRICS - Foto: AlexLMX/Shutterstock.com

O bloco intercontinental BRICS intensificou de forma expressiva o ritmo de aquisição de ouro físico para compor as reservas estratégicas de seus bancos centrais ao longo dos últimos meses. A movimentação visa consolidar uma estrutura financeira menos dependente das flutuações e da hegemonia do dólar americano nas transações internacionais e na guarda de valor. Segundo dados monitorados por órgãos financeiros internacionais, a participação do agrupamento nas reservas globais de ouro saltou de 11,2% em 2019 para 17,4% no fechamento do primeiro trimestre de 2026.

Este reposicionamento das potências emergentes ocorre em um cenário de transformações profundas na geopolítica monetária e na busca por ativos mais seguros contra sanções e instabilidades externas. O movimento é liderado por nações que buscam soberania financeira absoluta, utilizando o metal precioso como um lastro de confiança para suas próprias moedas nacionais. Atualmente, o montante total acumulado pelos países membros ultrapassa a marca histórica de 6.000 toneladas, demonstrando um esforço coordenado para equilibrar as forças econômicas mundiais.

  • O bloco detém agora 17,4% de todo o ouro estocado por bancos centrais no mundo.
  • Mais de 1.000 toneladas do metal foram adquiridas anualmente nos últimos três períodos consecutivos.
  • Nos primeiros nove meses de 2025, o investimento em ouro físico atingiu a marca de 91 bilhões de dólares.
  • A Rússia e a China concentram juntas cerca de 74% de todas as reservas metálicas internas do bloco.

Concentração de ativos entre as maiores economias do grupo

A arquitetura financeira do bloco revela uma concentração significativa do metal precioso nas mãos de três de seus principais fundadores, que operam como os pilares de sustentação desse novo arranjo. A Rússia lidera o ranking interno com um estoque oficial de 2.335,85 toneladas, seguida de perto pela China, que registrou 2.298,53 toneladas em seus cofres públicos. A Índia também apresenta um crescimento constante em suas posições, mantendo atualmente 879,98 toneladas de ouro, o que reforça o papel do país como um grande player no mercado asiático.

Essa distribuição mostra que as potências euroasiáticas estão alinhadas na criação de um escudo financeiro robusto contra eventuais pressões do sistema financeiro tradicional dominado pelo ocidente. O acúmulo massivo de ouro físico garante que esses países possuam liquidez imediata e um ativo que não possui risco de contraparte governamental estrangeira. Além da segurança nacional, a estratégia serve para lastrear planos futuros de moedas comuns ou sistemas de compensação de pagamentos regionais que dispensem a intermediação de moedas terceiras.

Barras de ouro, dólar
Barras de ouro, dólar – Volodymyr TVERDOKHLIB/ Shutterstock.com

Movimentação estratégica e o declínio do modelo petrodólar

O enfraquecimento gradual do sistema de petrodólares tem funcionado como o principal catalisador para que as economias emergentes busquem alternativas tangíveis de reserva. Especialistas apontam que a transição para um sistema financeiro multipolar já não é apenas uma projeção teórica, mas uma realidade operacional em andamento dentro dos bancos centrais. A compra desenfreada de ouro reflete a percepção de que a moeda americana pode sofrer com a inflação de longo prazo e com o uso político do acesso às redes bancárias globais.

Durante os primeiros três trimestres de 2025, as compras somaram 663 toneladas, evidenciando que o apetite do bloco pelo metal permanece em níveis historicamente elevados mesmo com a valorização do preço da onça. Esse comportamento altera de forma duradoura o equilíbrio do mercado de commodities e força as instituições ocidentais a recalcular os riscos de exposição a dívidas soberanas tradicionais. O ouro retoma, dessa forma, seu papel histórico como o ativo de reserva central por excelência para nações que desejam mitigar as incertezas geopolíticas contemporâneas.

Investimentos sustentados por metas de autonomia monetária

A decisão de priorizar o ouro em detrimento de títulos de dívida estrangeiros faz parte de uma política de longo prazo que prioriza a autonomia das decisões econômicas internas de cada nação. Ao converter excedentes comerciais em metal físico, os países do bloco garantem que sua riqueza permaneça protegida dentro de suas próprias fronteiras e sob controle direto de seus órgãos reguladores. Este processo de diversificação é visto por analistas como a mudança monetária mais significativa das últimas décadas, afetando diretamente a liquidez global.

  • Aumento da segurança nacional financeira contra bloqueios externos e sanções.
  • Proteção do poder de compra das reservas diante da desvalorização de moedas fiduciárias.
  • Estímulo ao uso de moedas locais em trocas comerciais bilaterais entre os membros.
  • Criação de uma base sólida para a futura infraestrutura financeira do agrupamento.

A tendência é que outras nações que recentemente ingressaram ou demonstraram interesse em aderir ao grupo sigam o exemplo dos membros originais na recomposição de seus ativos. A entrada de novos fluxos de capital no mercado de ouro tende a manter a demanda aquecida, elevando a relevância do bloco nas negociações internacionais de preços.

Transição para novos modelos de trocas comerciais internacionais

A diversificação das reservas para além do dólar permite que os países membros explorem novos mecanismos de liquidação de transações sem depender exclusivamente do sistema SWIFT. A posse de grandes volumes de ouro oferece a flexibilidade necessária para que bancos centrais intervenham em seus mercados de câmbio com maior eficácia e menos volatilidade. O cenário sugere que o ouro funcionará como uma ponte de confiança durante o período de transição entre o modelo unipolar e o novo arranjo multipolar.

Países como Egito e Irã, que possuem estreitas relações comerciais com os pilares do bloco, também começam a observar o ouro como uma ferramenta indispensável de gestão fiscal. A integração dessas economias em um sistema que valoriza o ativo real sobre o crédito nominal fortalece a resistência do grupo a crises externas. O mercado financeiro global acompanha com atenção cada anúncio de novos aportes, entendendo que o movimento redefine os fluxos de capital tradicionais entre o leste e o oeste.

Sustentabilidade econômica baseada em ativos reais de valor

O foco em ativos tangíveis representa um retorno a práticas de conservadorismo fiscal que haviam sido deixadas de lado durante o auge da globalização financeira baseada em crédito. Os líderes do bloco argumentam que a estabilidade de longo prazo depende da existência de reservas que não possam ser criadas artificialmente por políticas monetárias de um único país. Esse pensamento tem atraído investidores e gestores de fundos soberanos que buscam proteção contra a inflação global e o aumento do endividamento das principais economias ocidentais.

A estratégia coordenada garante que o grupo tenha voz ativa nas discussões sobre a reforma do sistema monetário internacional que ocorre nos fóruns globais. Com uma fatia de 17,4% do ouro mundial, o poder de barganha do bloco aumentou consideravelmente, permitindo que suas propostas de novos modelos de governança econômica sejam levadas a sério. A resiliência demonstrada por essas economias diante de choques recentes comprova a eficácia da diversificação iniciada na última década e intensificada agora.

Impacto na governança das instituições financeiras globais

O crescimento das reservas de ouro nos países emergentes pressiona por mudanças na estrutura de voto e de decisão em organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. O descompasso entre o poder econômico real dessas nações e sua representação formal nessas instituições tem gerado atritos que impulsionam ainda mais a busca por alternativas próprias. O acúmulo de ouro funciona como uma prova de solvência e força, demonstrando que o bloco possui os meios necessários para operar de forma independente se for necessário.

As políticas de aquisição de ouro são conduzidas de forma técnica pelos bancos centrais, que buscam momentos de correção nos preços para ampliar suas posições sem gerar inflação excessiva no mercado. Esta gestão profissional garante que os estoques cresçam de maneira sustentável, servindo como uma âncora para as finanças públicas nacionais durante períodos de transição. O papel do ouro como estabilizador econômico nunca foi tão evidente quanto no atual ciclo de realinhamento das potências mundiais e de suas respectivas áreas de influência.

Perspectivas para a diversificação de reservas soberanas

A tendência de acumulação do metal precioso não demonstra sinais de desaceleração, uma vez que as tensões comerciais e tecnológicas entre as grandes potências continuam a escalar. O bloco projeta que a diversificação de ativos continue sendo uma prioridade absoluta nos próximos anos, com o objetivo de proteger os interesses nacionais contra choques externos imprevisíveis. A manutenção de um estoque robusto de ouro é vista como uma apólice de seguro contra falhas sistêmicas no modelo financeiro atual, garantindo a continuidade do desenvolvimento econômico.