O renomado ator argentino Luis Brandoni, figura central do teatro e cinema do país, faleceu nesta segunda-feira (21) aos 86 anos em Buenos Aires. Ele estava internado na unidade de terapia intensiva do Sanatório Güemes, onde tratava um hematoma cerebral. A condição foi causada por uma queda recente em sua residência, conforme divulgado por Carlos Rottemberg. A morte de Brandoni representa uma perda significativa para a cultura argentina, deixando um legado profundo que abrange a arte, o gremialismo e a vida pública nacional. Sua carreira se estendeu por mais de seis décadas, consolidando-o como um dos grandes nomes de sua geração.
A despedida de um artista completo e a confirmação oficial
A notícia do falecimento de Adalberto Luis Brandoni, popularmente conhecido como Luis Brandoni, foi confirmada com pesar pelo empresário teatral Carlos Rottemberg. Rottemberg utilizou suas redes sociais para expressar a tristeza, destacando a importância do ator para o cenário cultural. “Com Beto se vai o último primeiro ator de uma geração inesquecível”, escreveu o empresário, ressaltando o compromisso permanente do artista. Brandoni, além de ator, foi um influente dirigente sindical e um militante político engajado.
Sua trajetória multifacetada marcou gerações de colegas, espectadores e ativistas. A internação no Sanatório Güemes precedeu o óbito, motivada por complicações decorrentes da queda sofrida. Em uma de suas reflexões mais conhecidas, Brandoni havia afirmado não temer a morte, embora admitisse sentir “muita lástima” ao pensar em partir. Essa serenidade diante do fim revelava a profundidade de sua visão sobre a vida e a arte, que sempre pautaram sua existência.
Raízes em Dock Sud e o despertar para a arte e a política
Nascido em 18 de abril de 1940, no bairro operário de Dock Sud, Buenos Aires, Luis Brandoni cresceu em uma família trabalhadora. Seu pai, José Domingo, era funcionário bancário e presidiu o Club Sportivo Dock Sud. Sua mãe, Luisa Valentina Emiliani, cuidava da casa. As experiências vividas em Dock Sud, um bairro de intensa diversidade, foram fundamentais para moldar seu caráter e sua sensibilidade social ao longo dos anos. Ele recordava com carinho o silvo de sua mãe o chamando para casa, além da emoção de descobrir o cinema argentino nas salas locais.
Aos treze anos, a família se mudou para perto do estádio Monumental, e Brandoni tornou-se um fervoroso torcedor do River Plate. Essa paixão foi um dos motivos para seu retorno do exílio em um período posterior de sua vida, demonstrando a força de suas raízes. A vocação artística surgiu muito cedo, aos oito anos, quando organizou uma peça de títeres em casa. Pouco depois, estreou no rádio em um programa de teatro infantil.
Após o ensino médio, decidiu ingressar no Conservatório Nacional de Música e Arte Escênico. Lá, teve mestres como Cunil Cabanellas, Osvaldo Bonet e Camilo Da Passano, a quem creditou grande parte de sua formação profissional. “Uma parte do que sou devo a esses mestres”, disse Brandoni, enfatizando a importância da ética profissional que lhe foi inculcada desde cedo.
Na adolescência, chegou a sonhar em ser cantor de tangos ou jogador de futebol. Foi no bar Obrero, junto a amigos como Ulises Dumont, que “Beto” — seu apelido — recebeu as primeiras lições de vida e política. Sua estreia profissional se deu em 2 de maio de 1962, na comédia musical “Novio”, no Teatro Coliseo, marcando o início de uma trajetória brilhante.
O vasto legado no cinema, teatro e televisão argentina
Luis Brandoni construiu uma carreira sólida, tornando-se um arquetipo do ator argentino por suas escolhas de papéis em obras e filmes emblemáticos. No cinema, participou de mais de 60 produções. Entre elas, destacam-se: “La Patagonia Rebelde”, “La Tregua” (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), “Juan Que Reía” e “Seré Cualquier Cosa Pero Te Quiero”.
Sua atuação em “Esperando la Carroza” se eternizou, especialmente pela frase icônica das “três empanadas”, que se inseriu no imaginário coletivo do país. Brandoni, contudo, sempre viu a cena como mais triste do que engraçada, ressaltando a dimensão dramática do contexto ali retratado. Outros sucessos incluem “Darse Cuenta”, “Cien Veces No Debo”, “La Odisea de los Giles” e “El Cuento de las Comadrejas”, que consolidaram sua versatilidade.
Na televisão, foram 25 participações em ciclos populares que conquistaram o público. Em “Mi Cuñado”, interpretou o inesquecível Roberto Cantalapiedra ao lado de Ricardo Darín, criando uma dupla memorável. Atuou também em “Buscavidas”, “Durmiendo con Mi Jefe” (com Guillermo Francella) e “Un Gallo Para Esculapio”, recebendo muitos elogios. Seu último grande sucesso na tela foi a série “Nada”, de 2023, na plataforma Star+, onde dividiu cenas com o renomado Robert De Niro, em uma performance aclamada pela crítica especializada.
- Filmes e séries que marcaram a carreira de Luis Brandoni:
– “La Patagonia Rebelde” (1974)
– “La Tregua” (1974)
– “Esperando la Carroza” (1985)
– “Mi Cuñado” (TV, 1993-1998)
– “La Odisea de los Giles” (2019)
– “Nada” (Série, 2023)
Engajamento social e político: um compromisso para além dos palcos
A vida de Luis Brandoni não se restringiu à arte; ele manteve um forte compromisso com a sociedade e a política de seu país. Sua família demonstrou essa sensibilidade social em diversas ocasiões significativas. Após a morte de seu pai, José Domingo, em 1985, Luis e seu irmão Gerardo doaram parte das terras que possuíam em San Rafael, Mendoza, à comunidade local. A condição era que ali fosse construída uma escola, que hoje leva o nome de seu pai, um legado de seu altruísmo.
Como dirigente sindical, Brandoni teve um papel ativo na Associação Argentina de Atores, lutando pelos direitos e condições de trabalho da categoria de forma incansável. Sua militância política também foi constante e notória, atravessando diferentes períodos históricos. Ele participou ativamente de momentos cruciais da história argentina, enfrentando períodos de repressão e exílio durante a ditadura militar que assolou o país. O amor pelo seu país e pela democracia o fez retornar do exílio, motivado, entre outras coisas, pela paixão pelo futebol e pelo River Plate, como ele próprio mencionou publicamente em entrevistas. Sua voz era frequentemente ouvida em debates públicos, defendendo ideais de justiça e liberdade.
A improvável amizade com Robert De Niro e o sucesso em “Nada”
A amizade entre Luis Brandoni e o astro de Hollywood Robert De Niro é uma das histórias mais curiosas e queridas de sua vida profissional. O primeiro contato ocorreu em 1986, quando Brandoni viajou a Nova York para filmar parte de “Made in Argentina”. Por meio de Lito Cruz, um amigo em comum e também próximo de De Niro, eles se conheceram pessoalmente. A amizade se aprofundou quando De Niro, preocupado que Brandoni passasse as festas de fim de ano sozinho na cidade estrangeira, o convidou para passar a véspera de Natal em sua casa. Brandoni foi com sua esposa, Martha Bianchi, e uma das filhas, dando início a um laço duradouro e sincero.
A relação persistiu ao longo dos anos, com encontros em diversas ocasiões, tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina. O mais recente reencontro profissional foi em 2023, na série “Nada”, da plataforma Star+. Na produção, Brandoni interpretou Manuel, um crítico gastronômico cínico e sofisticado, enquanto De Niro fez uma participação especial como Vincent, um amigo nova-iorquino do protagonista. A série foi um sucesso de crítica e público, marcando o último grande trabalho do ator em sua brilhante trajetória. Sua partida deixa uma lacuna imensa, mas seu legado permanecerá vivo nas telas e na memória do povo argentino e dos amantes da sétima arte.

