Dois meses após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarar publicamente que contaria com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) “de corpo e alma” na corrida presidencial, a articulação política em São Paulo revela um cenário diferente. Os dois políticos têm se mantido afastados de agendas conjuntas no estado. Um evento estratégico, planejado para dar o pontapé inicial à campanha em terras paulistas, foi adiado sem previsão de nova data, conforme informações obtidas das equipes de ambos os gabinetes.
Essa ausência do governador nas atividades de Flávio Bolsonaro em São Paulo está criando um espaço que tem sido rapidamente ocupado. O vácuo é preenchido pelo empresário Pablo Marçal, que intensifica sua aproximação com o senador fluminense. A movimentação de Marçal sinaliza uma reconfiguração nas alianças e estratégias dentro do campo da direita paulista, gerando especulações sobre os impactos nas futuras composições eleitorais no estado mais populoso do Brasil.
Distanciamento de Tarcísio gera questionamentos na pré-campanha
A promessa de apoio integral feita por Flávio Bolsonaro não se concretizou em uma agenda conjunta robusta em São Paulo. Um grande encontro, similar ao que formalizou a pré-candidatura do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) ao Palácio dos Bandeirantes, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 19 de março, era esperado para o senador do PL. Contudo, o evento de Flávio foi postergado em razão de uma viagem do parlamentar aos Estados Unidos. Lá, ele participou de uma conferência internacional de extrema direita, o que desviou o foco das articulações nacionais naquele momento.
Desde essa postergação, a agenda de campanha em solo paulista não foi retomada com a participação ativa de Tarcísio de Freitas. O único aceno explícito do governador paulista ocorreu em 27 de fevereiro. Ele participou de um evento na Assembleia Legislativa do Estado (Alesp), antecedido por uma recepção no Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, Tarcísio anunciou publicamente que assumiria a coordenação da campanha do aliado no estado. Essa coordenação, entretanto, não se traduziu em uma presença física consistente nas tentativas de Flávio Bolsonaro de se aproximar de investidores da Faria Lima. Também não houve participação ativa nas agendas com o segmento evangélico, dois públicos-chave para a direita. O único registro de interação mais próxima foi um jantar discreto na casa do presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, em 6 de abril. Essa ausência prolongada levanta questionamentos sobre a profundidade do engajamento do governador na pré-campanha do senador.
Pablo Marçal ocupa vácuo e se aproxima de Flávio
Em meio ao notável afastamento de Tarcísio de Freitas, o empresário Pablo Marçal tem ampliado sua presença ao lado do senador Flávio Bolsonaro. Marçal obteve o terceiro lugar na eleição para a prefeitura de São Paulo em 2024, disputando pelo PRTB. Ele é publicamente um desafeto político do atual governador paulista. Naquele pleito municipal, Tarcísio de Freitas manifestou seu apoio à reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Isso estabeleceu uma divergência clara e uma forte oposição entre os dois políticos no passado recente.
A aproximação entre Marçal e Flávio Bolsonaro foi facilitada por Filipe Sabará, ex-secretário municipal de Desenvolvimento Social. O senador fluminense se encontrou com o empresário em pelo menos duas ocasiões estratégicas. Os encontros tiveram como principal objetivo articular ações no meio digital. Além disso, eles buscaram consolidar o apoio do ex-coach, agora filiado ao União Brasil, à pré-campanha de Flávio. É crucial ressaltar que Pablo Marçal encontra-se inelegível até 2032, resultado de condenações por crimes de captação e gastos ilícitos. Ele também foi penalizado por abuso de poder econômico. A participação de Marçal, mesmo diante de sua condição jurídica, demonstra a busca de Flávio por novos aliados influentes e capazes de mobilizar eleitores no competitivo cenário político paulista.
Impasses e justificativas permeiam a distância política
Aliados próximos de Tarcísio de Freitas preferem desconversar sobre a falta de interação visível entre o governador e o senador Flávio Bolsonaro. Interlocutores argumentam que Flávio estaria, neste momento, mais focado na formação de palanques em outros estados do país. Tal estratégia visa construir uma base mais ampla para a campanha. Adicionalmente, fontes ligadas ao governador asseguram que ele se empenhará ativamente na disputa à Presidência. Tarcísio teria garantido que isso ocorrerá “no momento certo”, ou seja, mais próximo do período eleitoral oficial. Essa postura visa evitar um engajamento precoce que poderia desgastar sua imagem como gestor ou interferir em sua administração atual.
As negociações para a formação da chapa majoritária em São Paulo também enfrentam sérios desafios. Flávio Bolsonaro havia informado que, no evento inicialmente agendado para 30 de março, seria anunciada a composição completa da chapa. No entanto, um impasse crucial trava o avanço das discussões, especificamente sobre a escolha da segunda vaga para o Senado. O nome preferido por Tarcísio de Freitas é o do presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado (PL). Prado, por sua vez, enfrenta resistências significativas de figuras como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Ele busca apoio do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, para diminuir essas objeções.
- Os principais obstáculos na formação da chapa incluem:
- Discordância sobre a segunda vaga ao Senado: Nome de André do Prado encontra resistência interna.
- Influência de Eduardo Bolsonaro: O ex-deputado demonstra oposição a certas candidaturas.
- Negociações com Valdemar Costa Neto: O presidente do PL atua na tentativa de conciliar interesses.
- Prioridades de Flávio Bolsonaro: Foco em palanques estaduais fora de São Paulo.
A complexidade dessas negociações reflete as diferentes forças e interesses que atuam dentro do próprio campo político da direita.
Concorrentes à direita intensificam movimentos em São Paulo
A situação eleitoral em São Paulo é intensamente pressionada pela atuação de outros pré-candidatos à direita, que não mostram sinais de frear suas agendas. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), por exemplo, mudou-se provisoriamente para a casa de suas filhas na capital paulista. Ele busca facilitar sua pré-campanha, aproveitando a logística e a proximidade estratégica com centros financeiros como a Faria Lima e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Essa mudança física demonstra o peso que São Paulo tem em qualquer articulação nacional.
Outro nome forte na disputa, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), também circula regularmente pelo estado. Ele tem marcado presença em diversos eventos para fortalecer sua imagem e conquistar eleitores. Tanto Caiado quanto Zema já realizaram eventos significativos de anúncio de suas respectivas pré-candidaturas na capital paulista. A presença constante e a ativa campanha desses nomes rivalizam diretamente com Flávio Bolsonaro, disputando espaço e a atenção do eleitorado paulista. Esse cenário de múltiplas candidaturas fragmenta o apoio e exige maior esforço de cada um para consolidar sua base.
O contexto político em São Paulo ganha um novo palco com a aproximação da Agrishow. A feira de referência em maquinário agrícola será realizada entre 27 de abril e 1º de maio, em Ribeirão Preto, no interior do estado. Este evento se configura como um dos primeiros compromissos públicos de peso para os candidatos ao Planalto no flanco da direita em solo paulista. Flávio Bolsonaro deve comparecer no primeiro dia do evento, assim como Tarcísio de Freitas. Contudo, ainda não há confirmação de que terão uma agenda conjunta oficial, mantendo a expectativa sobre um possível reencontro público. Além disso, Romeu Zema tem sua presença confirmada para o dia seguinte, 28 de abril. A equipe de Ronaldo Caiado ainda não divulgou a agenda do governador goiano para a Agrishow. A feira ruralista atrai tradicionalmente figuras políticas de todo o país, tornando-se um palco importante para articulações e demonstrações de força no agronegócio e na política.

