Ciência

Europa desenvolve propulsão nuclear para alcançar Marte em apenas 56 dias

Marte
Foto: Marte -Alones/shutterstock.com

Um atalho orbital descoberto em dados de asteroides antigos permite uma viagem de ida e volta a Marte em apenas 226 dias, sendo a ida em 56 dias. A rota é geometricamente válida dentro da atual configuração do sistema solar e se abre em 2031. Porém, alcançá-la exige propulsão térmica nuclear, tecnologia que a Europa já desenvolve e testa com agências parceiras.

A trajetória extremamente rápida foi identificada pelo astrofísico Marcelo de Oliveira Souza, da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Ele utilizou dados orbitais preliminares de 2015 do asteroide 2001 CA21 como modelo geométrico de referência, criando um plano de análise para testar ângulos de transferência entre Terra e Marte que abordagens convencionais não capturam.

A geometria que desafia a propulsão química

Uma espaçonave partindo da Terra em 20 de abril de 2031 chegaria em órbita marciana 56 dias depois. A tripulação permaneceria cinco semanas na superfície e retornaria à Terra 135 dias após o lançamento de Marte, totalizando uma missão de 226 dias. Para trajetória de ida e volta, esse cronograma é radicalmente mais curto que qualquer projeto de missão tripulada jamais concebido.

A propulsão química exigente demanda sete a nove meses apenas para a viagem de ida. As velocidades necessárias para alcançar 56 dias de trânsito destroem qualquer cenário químico convencional. A velocidade hiperbólica de excesso para essa trajetória atinge 16,9 quilômetros por segundo, demandando 15 vezes mais energia do que uma missão padrão a Marte.

Uma alternativa denominada “extrema” reduz ainda mais o tempo total para 153 dias, combinando 33 dias na ida, 30 dias na superfície e 90 no retorno. Porém essa opção exige 40 vezes a energia de uma missão convencional, atingindo velocidade de decolagem de 27,5 quilômetros por segundo, acima do limite teórico de qualquer estágio químico já utilizado. A chegada a Marte ocorreria a 16,6 quilômetros por segundo e a reentrada na atmosfera da Terra a 15,1 quilômetros por segundo, valores que testam os limites dos materiais de proteção térmica ainda em desenvolvimento.

Marte
Marte – Fordelse Stock/shutterstock.com

Por que apenas propulsão nuclear resolve o problema

O estudo, publicado na revista Acta Astronautica, conclui que foguetes químicos não conseguem preencher essa lacuna energética. A única alavanca tecnológica identificada é a propulsão térmica nuclear, ou NTP, que aquece hidrogênio líquido através do núcleo de um reator e expele o gás com aproximadamente o dobro da eficiência da combustão química.

Essa tecnologia não permanece no campo teórico. A agência de pesquisa francesa CEA lançou em 2023 um estudo de viabilidade chamado Alumni, desenvolvido em parceria com ArianeGroup e Framatome para a Agência Espacial Europeia. O anúncio oficial da agência detalha que o objetivo é reduzir trânsitos a Marte, diminuindo a exposição dos astronautas à radiação cósmica durante o voo prolongado.

O CEA também desenvolve uma linha de pesquisa paralela denominada RocketRoll, focada em propulsão elétrica nuclear para missões onde a luz solar é insuficiente para painéis solares. Ambos os projetos alimentam um roteiro tecnológico europeu que visa um protótipo por volta de 2035, cronograma suficientemente próximo à janela de lançamento de 2031 para ser relevante operacionalmente.

Competência europeia em tecnologia nuclear espacial

Xavier Averty, gerente do programa da CEA, informou que a organização desenvolve propulsão espacial nuclear térmica e elétrica desde os anos 1980 e continua como único organismo de investigação europeu com essa capacidade. A competência acumulada posiciona a Europa como líder na única tecnologia capaz de viabilizar as viagens rápidas a Marte.

Os projetos Alumni e RocketRoll não são iniciativas isoladas. Representam uma integração estratégica em que a pesquisa francesa, a indústria aeroespacial europeia e o marco regulatório da agência espacial continental convergem para um objetivo específico: tornar possível uma missão a Marte com duração compatível com segurança astronáutica e viabilidade biológica.

O método de descoberta através de dados antigos

Marcelo de Oliveira Souza não invocou física exótica ou projetou novos motores. Ele utilizou uma abordagem metodológica onde dados orbitais antigos funcionam como filtro geométrico. Os dados de 2015 do asteroide 2001 CA21 descreviam uma elipse alongada de baixa inclinação que cruzava as órbitas da Terra e de Marte. Observações posteriores refinaram essa órbita, alterando sua forma, mas os dados iniciais ofereciam algo raro: um plano de referência para testar ângulos extremos de transferência.

O pesquisador impôs uma regra rigorosa: qualquer trajetória candidata precisava permanecer dentro de cinco graus do plano orbital do asteroide. Usando um solucionador de Lambert, ferramenta padrão de astrodinâmica que calcula trajetórias possíveis entre dois pontos no espaço, ele simulou três janelas futuras de oposição marciana. Os anos 2027 e 2029 falharam. A demanda energética cresceu demais ou a geometria impediu o fechamento do circuito para retorno.

A janela de 2031 comportou-se diferente. Produziu duas arquiteturas completas de viagem de ida e volta ambas partindo da Terra no mesmo dia de abril, diferenciadas apenas pelas opções de tempo de trânsito e permanência marciana.

Transformar teoria em realidade

O artigo publicado na Acta Astronautica não aborda engenharia do veículo, orçamentos de massa, perfis de entrada ou cálculos de absorção térmica. Oferece, porém, evidência numérica de que uma geometria de missão rápida e fechada para Marte existe dentro de dados reais de efemérides orbitais. A solução permanece íntegra sob oscilações posicionais que refletem incerteza observacional.

A questão agora é se outras soluções de asteroides primitivos codificam modelos semelhantes. Levantamento populacional fica para trabalhos futuros. Por enquanto, a viagem de 226 dias existe apenas no papel. Transformá-la em metal e propelente exigirá um motor à altura da ambição que a geometria descreve.

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