Lucros da Shell crescem com disparada do petróleo por conta da guerra com o Irã

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Shell Foto: Shell - Tada Images / Shutterstock.com

A petrolífera Shell anunciou lucro de US$ 6,92 bilhões nos primeiros três meses do ano, superando as expectativas do mercado e registrando alta de 24% em relação ao mesmo período de 2024. O resultado reflete o impacto direto dos preços elevados do petróleo desde o início do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã, que desestabilizou os mercados globais de energia. O diretor executivo Wael Sawan atribuiu o desempenho ao “foco incansável no desempenho operacional em um trimestre marcado por uma disrupção sem precedentes nos mercados globais de energia”.

A guerra elevou significativamente os preços do petróleo Brent, a referência global. Antes do conflito, a cotação era de aproximadamente US$ 73 por barril. O fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, crucial para 20% do transporte global de petróleo e gás natural liquefeito, provocou oscilações bruscas, com o preço ultrapassando US$ 120 em determinados momentos. Atualmente, o Brent está cotado em torno de US$ 101 por barril, mantendo-se substancialmente acima dos níveis pré-conflito.

Cenário de volatilidade beneficia operações de trading

Os ganhos extraordinários da Shell foram amplificados por dois fatores principais. Primeiro, o negócio de comercialização de petróleo da empresa aproveitou as grandes oscilações nos preços. Grandes variações entre compra e venda permitem que investidores obtenham margens mais expressivas. Segundo, as margens no segmento de refino aumentaram, impulsionadas pela transformação de petróleo bruto em produtos acabados como gasolina e querosene. Este cenário de volatilidade é típico em períodos de instabilidade geopolítica, quando os traders conseguem extrair ganhos maiores das diferenças de preço.

A empresa rival BP já havia divulgado resultados similares na semana anterior, com lucros mais que dobrando no mesmo período. A norueguesa Equinor também reportou desempenho excepcional, atingindo lucro trimestral de US$ 9,77 bilhões, seu melhor resultado em três anos. O padrão de ganhos extraordinários no setor energético ocorre de forma sincronizada, refletindo a exposição compartilhada ao cenário de preços elevados.

Produção de petróleo. Silhueta de uma plataforma de produção de petróleo e gás
Produção de petróleo. Silhueta de uma plataforma de produção de petróleo e gás – maxim ibragimov/ Shutterstock.com

Produção reduzida apesar dos lucros recordes

Paradoxalmente, a produção de petróleo e gás da Shell caiu 4% no trimestre em comparação com os últimos três meses do ano anterior. A unidade Pearl GTL no Catar foi danificada por ataques, e a produção de gás natural liquefeito no país permanece paralisada desde março. Essas interrupções operacionais demonstram como o conflito afeta simultaneamente a oferta e os preços, criando um ambiente de incerteza estrutural para o setor.

Apesar das dificuldades operacionais, a Shell anunciou a aquisição da produtora canadense de xisto ARC Resources por US$ 16,4 bilhões, movimento que Sawan descreveu como estratégia de criação de valor “por décadas”. A compra representa a aposta da empresa em diversificar suas fontes de produção, reduzindo dependência de regiões vulneráveis a conflitos geopolíticos.

Críticas ambientalistas e pressão fiscal

O aumento expressivo nos lucros das gigantes de energia gerou reações críticas de organizações ambientalistas. Danny Gross, ativista climático da organização Amigos da Terra, declarou que “as gigantes dos combustíveis fósseis estão embolsando lucros monstruosos enquanto os motoristas são explorados nos postos de gasolina e as famílias estão prestes a pagar contas de energia mais altas”. O ativista defendeu o fortalecimento do imposto sobre lucros extraordinários e afirmou que a resposta econômica deveria incluir “romper com nossa dependência de combustíveis fósseis, abastecendo nossa economia com energias renováveis produzidas internamente”.

No Reino Unido, as empresas de energia estão sujeitas ao Imposto sobre Lucros da Energia (Energy Profits Levy), mecanismo introduzido em 2022 após a invasão russa na Ucrânia. O Partido Trabalhista estendeu a vigência do imposto até março de 2030. Porém, a taxa aplica-se apenas aos lucros obtidos com extração de petróleo e gás no Reino Unido, enquanto a maioria dos ganhos das gigantes provém do exterior, limitando a capacidade de tributação dos governos.

Impacto em famílias e proteções de preço

A conta de eletricidade e gás das residências britânicas é protegida temporariamente pelo teto de preços da energia. Até 30 de junho, a fatura anual típica para famílias que pagam por débito direto é de 1.641 libras. Contudo, o aumento nos preços do petróleo e gás no atacado desde o conflito significa que estima-se uma elevação de cerca de 200 libras quando o teto for revisado em julho. Esta proteção parcial revela a tensão entre os lucros recordes das empresas e o impacto nos custos domésticos para consumidores.

Transporte marítimo enfrenta pressão de custos

A gigante dinamarquesa de transporte marítimo Maersk também sente o impacto direto do conflito. Vincent Clerc, diretor executivo, informou à BBC que o aumento acentuado nos preços da energia está adicionando meio bilhão de dólares em custos extras por mês à empresa. Clerc enfatizou a estratégia de repassar esses aumentos aos clientes, afirmando que “é realmente importante repassar esses aumentos de custos aos nossos clientes o máximo possível, para que possamos proteger nossa margem de lucro e a integridade das operações no futuro”.

Os lucros operacionais da Maersk ficaram ligeiramente acima das previsões dos analistas, embora os resultados se refiram principalmente ao período imediatamente anterior ao início da guerra. Na segunda-feira, a Maersk informou que seu navio Alliance Fairfax conseguiu sair do Estreito de Ormuz acompanhado por recursos militares dos EUA após ficar retido no Golfo desde fevereiro.

Incerteza sobre cobrança de pedágios

Clerc abordou cenários futuros relativos ao Estreito de Ormuz. A ambição de Teerã em controlar a rota e cobrar pedágios representaria mudança significativa para o setor, “semelhante aos canais de Suez e do Panamá, onde também pagamos para atravessar”. Porém, ele afirmou que qualquer cobrança de pedágio no Estreito é “muito, muito especulativa” neste momento, sendo necessário reabrir a rota primeiro.

Clerc acrescentou que há incerteza sobre se o aumento nos custos de energia acabará por levar à inflação generalizada e queda da demanda global. Este cenário dual revela a complexidade do conflito: oferece oportunidades de lucro extraordinário para energéticas, mas introduz riscos de inflação e desaceleração econômica para o resto da economia.

Fatores que moldaram o trimestre

Vários elementos convergiram para criar o ambiente de lucros recordes:

  • Preço do petróleo Brent oscilando entre US$ 100 e US$ 120 por barril, versus US$ 73 antes do conflito
  • Fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, restringindo 20% do suprimento global de petróleo e GNL
  • Aumento nas margens de trading devido às flutuações extremas de preço
  • Margens elevadas no refino de petróleo bruto em produtos acabados
  • Queda de 4% na produção de petróleo e gás, limitando oferta
  • Danos às instalações de GNL do Catar devido a ataques

O trimestre destaca a dicotomia dos mercados de commodities em cenários de crise geopolítica: enquanto empresas energéticas colhem ganhos extraordinários, consumidores enfrentam pressão inflacionária, e o setor de logística enfrenta custos crescentes. A sustentabilidade deste padrão de lucros dependerá da resolução ou escalação do conflito no Oriente Médio e da capacidade de reabertura do Estreito de Ormuz.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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