O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, está na Itália nesta semana em missão de contenção de danos diplomáticos. Ele se reunirá com o papa Leão XIV no Vaticano na quinta-feira (7) e com a primeira-ministra Giorgia Meloni na sexta (8). Os encontros ocorrem em meio a uma crise de relacionamento provocada por ataques públicos de Donald Trump ao líder da Igreja Católica, que criticou a guerra dos EUA no Irã e políticas anti-imigração do governo americano.
A viagem busca, segundo o Departamento de Estado, “reconciliar os laços” entre Washington e Roma em questões de segurança estratégica e alinhamento da Otan. Mas a agenda enfrenta obstáculos concretos: Trump insinuou que Leão XIV favoreceria armamento nuclear para Teerã, o papa respondeu reafirmando o compromisso da Igreja com a paz, e Meloni classificou as críticas presidenciais como “inaceitáveis”.
Tensão entre Trump e o Vaticano escala com questões nucleares
Em entrevista ao canal conservador Salem News Channel, o presidente americano afirmou sobre o papa: “Imagino que, se dependesse dele, seria perfeitamente aceitável que o Irã possuísse uma arma nuclear”. Trump já havia chamado Leão XIV de “fraco” e “terrível em política exterior” em abril, quando o pontífice criticou a guerra no Irã.
Leão XIV respondeu sem citar Trump diretamente. Na terça-feira (5), durante encontro com jornalistas em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma, o papa afirmou que a Igreja Católica “se manifesta contra todas as armas nucleares há anos”. Ele reforçou a posição com mensagem inequívoca: “Se alguém quiser me criticar por pregar o Evangelho, que o faça com a verdade”. Na quarta-feira (6), durante audiência geral na Praça de São Pedro, o pontífice reiterou que a Igreja “deseja instaurar o seu Reino de justiça, amor e paz para toda a humanidade”.
O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, também reagiu aos ataques. Ele sublinhava que o papa mantém sua linha centrada na mensagem evangélica e na promoção da paz, independentemente das críticas externas.
Por que Rubio pode ser crucial na negociação com o Vaticano
Rubio é filho de imigrantes cubanos e foi batizado católico logo após seu nascimento, diferentemente do vice-presidente J.D. Vance. Ele já se encontrou com Leão XIV durante a Missa que marcou o início do papado, em maio, acompanhado de Vance. Esse histórico pessoal o posiciona como interlocutor mais credível junto à Igreja Católica do que outros membros da administração Trump.
Leão XIV completa nesta sexta-feira (8) seu primeiro ano como líder da Igreja, que conta com 1,4 bilhão de fiéis. Nos primeiros meses de papado manteve perfil discreto, mas emergiu nas últimas semanas como crítico declarado da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. O pontífice também desaprovou políticas anti-imigração de Trump e pediu diálogo entre Washington e Cuba, país de maioria católica.
Atrito com Meloni ameaça bases militares americanas na Itália
A crise diplomática também atinge a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido de extrema-direita Irmãos da Itália. Até recentemente considerada grande aliada europeia por Trump, ela se distanciou das posições presidenciais após a guerra no Irã provocar danos econômicos que desagradaram o eleitorado conservador italiano. Meloni chamou os ataques de Trump ao papa de “inaceitáveis”.
Em resposta, Trump a incluiu na lista de “vilões”. “Não estou feliz com a Itália, ela não nos ajudou, acha que está tudo bem o Irã ter armas nucleares”, atacou o presidente. A ameaça é tangível: o Pentágono anunciou a retirada de 5 mil soldados das bases na Alemanha após críticas do chanceler local. A Itália, que abriga aproximadamente 12 mil militares americanos, quer evitar medida semelhante.
Agenda italiana focará em segurança compartilhada e questões sensíveis
Rubio permanecerá na Itália até sexta-feira. Além de Meloni, ele se reunirá com:
- Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano
- Antonio Tajani, ministro italiano das Relações Exteriores
- Guido Crosetto, ministro da Defesa
O Departamento de Estado enfatiza que os encontros se concentrarão em “interesses de segurança compartilhados e alinhamento estratégico”, code para discussões sobre a Otan e manutenção das bases militares americanas na península.
Tensões precedentes colocam a pauta em pé de igualdade. Em março, a Itália impediu os EUA de usarem a base aérea de Sigonella, na Sicília, para operação no Oriente Médio. Aviões americanos tentaram pousar sem autorização prévia. O chefe do Estado-Maior informou o ministro da Defesa, que ordenou negar o acesso.
Questões no Líbano, Cuba e tarifas comerciais completam negociação
A agenda bilateral também inclui discussões sobre o futuro da missão da ONU no Líbano, particularmente após um possível encontro entre o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o presidente libanês Josef Aoun em Washington no dia 11, ainda a ser confirmado.
A questão cubana adiciona camada de complexidade. O Vaticano serviu como mediador histórico entre Washington e Havana. Durante a administração Biden, uma prisão de 51 detidos foi liberada em março como “espírito de boa vontade”. Em 2025, o governo cubano libertou 553 prisioneiros em acordo com o Vaticano. Trump rescindiu o acordo ao assumir, recolocando Cuba na lista de “Estados patrocinadores do terrorismo” e aplicando novas sanções.
Comercialmente, a administração Trump ameaça elevar em 25% as tarifas sobre carros e caminhões da União Europeia — medida que afeta diretamente a indústria automóvel italiana, historicamente importante para a economia do país.

