Caixa tem 158 contas de escravos do século XIX; MPF cobra destino dos valores

Caixa Econômica Federal

Caixa Econômica Federal - Foto: Hans Elmo / Shutterstock.com

A Caixa Econômica Federal guarda pelo menos 158 cadernetas de poupança abertas por escravos entre 1871 e 1877. O Ministério Público Federal identificou as contas após investigação que durou meses e agora cobra da instituição financeira respostas sobre o destino dos valores depositados há mais de 150 anos. A descoberta abre caminho para possíveis indenizações a herdeiros dos correntistas que viveram no período escravista brasileiro.

Investigação revela acervo esquecido de contas históricas

O MPF iniciou as buscas após receber uma representação da entidade Quilombo Raça e Classe, que reivindicava direito à memória durante o período escravista. A instituição financeira encontrou registros de 14 mil documentos sobre as movimentações financeiras das contas, um volume que permaneceu sem tratamento arquivístico adequado por aproximadamente 15 décadas. O Arquivo Nacional confirmou que as cadernetas foram criadas quando a Caixa já possuía agências espalhadas por 13 províncias:

  • Rio de Janeiro
  • Bahia
  • Espírito Santo
  • Goiás
  • Maranhão
  • Mato Grosso
  • Minas Gerais
  • Pará
  • Paraná
  • Pernambuco
  • São Paulo
  • Santa Catarina
  • São Pedro (atual Rio Grande do Sul)

As contas originaram-se de todas essas regiões, refletindo a abrangência da rede de agências da Caixa na época imperial.

Caixa responde sobre preservação do acervo

A instituição financeira afirmou por nota oficial que a “guarda, a conservação e a pesquisa em seu acervo histórico é um processo contínuo e permanente”. Segundo a Caixa, as atividades são executadas por equipes multidisciplinares lotadas na Caixa Cultural. A organização também destacou que pesquisas em outras tipologias documentais, incluindo livros de contas correntes, estão em andamento e serão reportadas conforme legislação pertinente. Até agora, a instituição não forneceu detalhes sobre o paradeiro exato dos saldos das contas ou mecanismos para rastrear proprietários originais.

MPF abre caminhos para indenizações futuras

O Ministério Público Federal, mediante a investigação, cobra da Caixa esclarecimentos formais sobre o destino dos depósitos. A descoberta das contas esquecidas acende debate sobre responsabilidade histórica de instituições financeiras e direitos sucessórios de descendentes de pessoas escravizadas. Especialistas apontam que a localização dessas cadernetas representa marco importante para pesquisa sobre economia escravista no Brasil e criação de precedentes legais para indenizações. O processo segue em análise pelos órgãos competentes, que buscam estabelecer metodologia clara para identificação de herdeiros e distribuição de valores.