Moradores do Jaguaré retomam rotina após explosão que matou homem na zona oeste
Crianças voltaram a brincar na calçada com figurinhas nesta quarta-feira (13) enquanto moradores reabriam bares e barbearias entre paredes rachadas e portas arrancadas. A Vila Nossa Senhora das Virtudes, fundada há 63 anos no Jaguaré, zona oeste de São Paulo, convive com escombros e viaturas policiais após a explosão de segunda-feira (11) que deixou um morto e três feridos.
Uma movimentação constante de equipes da imprensa, da Sabesp e da Comgás continua na região onde a tragédia ocorreu. Dois dias depois, parte dos moradores tentava voltar para casa enquanto outros ainda enfrentavam imóveis interditados e incertezas sobre reconstrução e indenizações.
Comerciantes reabrem estabelecimentos apesar dos danos
O barbeiro cubano Yelier Soria Riso, 31, voltou a abrir o estabelecimento onde também mora. Ainda sem agenda fixa, ele atendia os primeiros clientes após a liberação da área. O local sofreu danos, mas a estrutura interna permaneceu intacta. “Quando eu cheguei e abri a barbearia, não passou nem um minuto e explodiu”, contou, relembrando o momento exato da tragédia na segunda-feira.
Yelier relatou que sentiu o cheiro de gás desde a manhã do acidente. Ele chegou a alertar trabalhadores que atuavam na rua sobre o perigo iminente. “Falei para o pessoal que estava trabalhando: ‘mano, isso pode explodir’. O esgoto estava borbulhando por causa da pressão do gás.” Mesmo com danos na casa e no comércio, ele decidiu retomar as atividades.
Na esquina entre a rua Piraúba e a rua superior da comunidade, a comerciante Teli Olegário de Souza, 53, mantinha o bar aberto enquanto ajudava a distribuir marmitas para moradores afetados. O local transformou-se em ponto de apoio para famílias carregarem celulares, usarem banheiro e tentarem descansar da tensão acumulada desde a explosão. Alguns clientes pediam cerveja para aliviar o clima pesado da rua. “Foi um barulho estrondoso”, afirmou Teli. “A partir de 12h30 o cheiro de gás estava muito forte. Às 16h, aconteceu a explosão.”
Residências parcialmente interditadas mantêm famílias divididas
O segurança Manuel Vasconcelos, 50, tenta reorganizar a rotina após ter parte da casa interditada pela Defesa Civil. A área superior do imóvel, onde há risco estrutural, segue isolada. Os cômodos da parte inferior foram liberados. “Como a minha casa tem três cômodos, a parte do meio ficou separada. A parte de cima está interditada”, afirmou. “Se ligarem a luz, eu volto com a minha família.”
Manuel passou a primeira noite após a explosão na casa da irmã, junto da mulher, dos filhos e dos animais da família. Os cachorros, gatos e hamsters ficaram agitados com o barulho e a mudança repentina. “Ninguém conseguiu dormir com eles gritando”, contou. “Eles ficaram desesperados.” Na noite de terça-feira (12), decidiu levar os animais de volta para casa porque estavam muito agitados.
Ele mora há quase 20 anos na vila e ainda tenta lidar com o impacto físico e psicológico do acidente. “Os vidros da minha casa passaram por mim”, afirmou. “Na hora da explosão eu fiquei tonto. Foi muito forte.”
Vítima fatais e feridos em diferentes condições
A explosão matou o segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, descrito pelos vizinhos como um homem reservado e trabalhador. O enteado dele, o personal trainer Luiz Gustavo, afirmou que a liberação do corpo demorou mais de um dia. “Foi muito burocrático. O corpo só foi liberado às 2h madrugada desta quarta-feira”, afirmou. Alex Sandro nasceu em Francisco Sá (MG) e será enterrado nesta quinta-feira (14) na zona rural de Japonvar, no norte mineiro, onde vive parte da família.
O pintor autônomo Francisco Bondemba da Silva, 57, segue internado em estado delicado após ser arremessado para fora de casa durante a explosão. “Ele voou por cima do telhado e caiu no meio da rua”, afirmou o sobrinho, Francisco Bevan da Silva, 51. “O caso dele foi mais por dentro. É grave.” Bondemba segue entubado no hospital regional de Osasco. A família afirma que médicos enviados pela Sabesp devem avaliar a possibilidade de transferência. “Estamos nos revezando. É delicado”, afirmou Bevan.
Lideranças comunitárias enfrentam caminho longo de reconstrução
O líder comunitário Eduardo Santos Vieira, 57, morador da vila há quatro décadas, expressa a dificuldade em retomar a normalidade. “A vida tem de prosseguir, estamos tentando”, afirmou. “Essa normalidade está difícil nesse primeiro momento. Vão ficar os escombros aí para nos mostrar que não vai ser fácil.”
A comerciante Teli afirma que ainda não conseguiu normalizar a rotina após o acidente. “Até hoje eu fico trêmula. Estou demorando para dormir. Mas tentando organizar tudo.” Enquanto parte da vizinhança limpava casas, trocava vidros quebrados e tentava voltar ao trabalho, equipes da Defesa Civil, engenheiros e funcionários das concessionárias ainda circulavam pela rua realizando vistorias e cadastramentos de danos.
Cronograma de impactos e ações registrados
- Segunda-feira (11): explosão ocorre por volta das 16h no Jaguaré
- Tarde de segunda até madrugada de quarta: equipes de resgate, perícia e remoção de vítima
- Terça-feira (12): primeiras tentativas de volta à rotina; algumas famílias retornam para casa
- Quarta-feira (13): crianças brincam nas ruas; comércios reabrem; vistorias continuam
- Quinta-feira (14): enterro do segurança falecido previsto para zona rural mineira
Eduardo reitera a sensação coletiva da comunidade sobre os próximos passos. “A gente está tentando voltar à vida normal. Mas o nó na garganta continua.”
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