O Conselho Nacional de Política Energética aprovou o aumento do percentual de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% a partir deste ano. A medida, defendida pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, promete reduzir o custo dos combustíveis nas bombas e fortalecer a autonomia energética brasileira em um cenário de turbulência no mercado internacional do petróleo.
O etanol anidro, substância composta em 99% por álcool, já integra naturalmente a mistura que forma a gasolina comercializada nos postos. Essa é a segunda elevação em menos de um ano — a anterior, realizada em agosto do ano passado, havia elevado o percentual de 27% para 30%.
Impacto esperado para os consumidores
O economista Eduardo Araújo projeta redução modesta no preço final ao consumidor: entre 1 e 2 centavos por litro, caso o ganho seja integralmente repassado pelos distribuidoras. O benefício maior reside no aspecto macroeconômico e energético: substituir gasolina fóssil importada por etanol produzido domesticamente.
Os números impressionam em escala. O Brasil consome mais de 46 bilhões de litros de gasolina C anualmente. Elevar a mistura de 30% para 32% pode substituir aproximadamente 930 milhões de litros de gasolina pura em 12 meses, reduzindo significativamente a dependência de importações e os impactos da volatilidade do petróleo no mercado internacional.
Preocupações com veículos mais antigos
Especialistas em mecânica automotiva apontam desafios técnicos associados à mudança. O etanol é mais corrosivo que a gasolina, causando desgaste acelerado em componentes específicos do motor.
Segundo Diego Freitas Receputi, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios, as peças mais vulneráveis incluem:
- Mangueiras e borrachas do sistema de combustível
- Bombas de combustível
- Componentes metálicos do motor
- Sistemas de injeção em veículos antigos
Thiago Woelffel, especialista em mecânica automotiva, alerta que veículos fabricados antes de 1997 e 1998 podem necessitar ajustes na configuração do sistema de injeção eletrônica. A central de injeção desses automóveis não consegue corrigir automaticamente a proporção maior de etanol na mistura. Carros com injeção eletrônica moderna, por outro lado, adaptam-se automaticamente, aumentando o tempo de injeção e a dosagem de combustível conforme necessário.
Custos adicionais em oficinas
A maior corrosividade do etanol tende a accelerar a degradação de peças, gerando demanda adicional por serviços de manutenção. Receputi prevê aumento nos atendimentos em oficinas especializadas, impactando proprietários de veículos mais antigos com custos de manutenção preventiva e corretiva.
O especialista também ressalta um ponto controverso: embora o etanol seja mais barato que a gasolina, sua queima é mais rápida, levando os motores a consumir maior volume de combustível para percorrer a mesma distância. Esse trade-off pode comprometer parte do ganho econômico projetado para o consumidor final.
Decisão baseada em testes anteriores
O governo descartou a realização de novos testes para validar o E32. Segundo o Ministério de Minas e Energia, os estudos conduzidos em 2025 para homologar o percentual de 30% já forneceram evidências suficientes de segurança técnica para ampliar a mistura em dois pontos percentuais adicionais.
A legislação que ampara essa decisão é a Lei do Combustível Futuro, sancionada em 2024, que estabeleceu em 35% o teto máximo permitido para etanol anidro na gasolina. Essa margem regulatória permite futuras elevações sem necessidade de novas aprovações legislativas, caso o governo decida avançar a mistura novamente.
Contexto geopolítico e receita federal
A alta internacional do petróleo, provocada pelo conflito armado no Oriente Médio, catalisou a decisão governamental. O aumento dos preços do crude no mercado global pode elevar a arrecadação federal brasileira em aproximadamente R$ 40 bilhões neste ano, segundo projeções conservadoras do governo.
Integrantes da equipe econômica, porém, recomendam cautela. Temem que a percepção de folga fiscal decorrente dessa arrecadação extraordinária pressione o Congresso por novos gastos públicos. O prolongamento do conflito no Oriente Médio também pode ampliar custos governamentais com medidas de combate à inflação e à volatilidade dos preços de combustíveis.
A estratégia do governo busca, portanto, aliviar pressões domésticas sobre o preço dos combustíveis sem gerar expectativas de expansão permanente da receita pública.
