Dinamarca instala iluminação vermelha em estrada para reduzir impacto em colônia de morcegos
Uma estrada nos arredores de Copenhague se transformou em laboratório vivo para a conservação ambiental. Frederiksborgvej, principal via de passagem no município de Gladsaxe, teve suas luzes brancas-azuladas substituídas por uma iluminação vermelha profunda no início de fevereiro de 2026. A mudança chamou atenção de motoristas e ciclistas, que encontraram uma paisagem visual incomum contra a grade urbana circundante. Não se tratava de decoração. A instalação foi estrategicamente posicionada próxima a uma colônia de morcegos conhecida, com o objetivo de mitigar o impacto da luz artificial no ecossistema noturno local, mantendo a segurança viária dos condutores.
O projeto identificou duas espécies como alvo principal da ação de conservação: o morcego-anão-comum e o morcego-de-orelhas-compridas-marrom. Esses animais dependem de corredores escuros para navegar entre seus abrigos e áreas de alimentação durante a noite. Quando a luz branca tradicional invade essas áreas, cria barreiras luminosas que os morcegos relutam em atravessar, reduzindo efetivamente o seu habitat disponível.
Pesquisa científica sustenta decisão sobre comprimento de onda
A decisão dinamarquesa baseia-se em evidências robustas de ecologia animal. Um estudo de cinco anos coordenado pelo Instituto de Ecologia dos Países Baixos (NIOO-KNAW) e publicado em Proceedings of the Royal Society B demonstrou que muitas espécies de morcegos não percebem a luz vermelha como ameaça ou barreira da mesma forma que reagem à luz branca ou verde. Os pesquisadores descobriram que os morcegos sensíveis à luz mantinham o mesmo nível de atividade sob iluminação vermelha quanto na escuridão total. A mesma pesquisa documentou redução substancial de atividade quando os animais eram expostos à luz branca ou verde.
Kamiel Spoelstra, pesquisador principal do estudo, afirmou que a falta de efeito da luz vermelha abre possibilidades para limitar a perturbação causada pela iluminação artificial em áreas naturais. O pesquisador ressaltou que a intensidade de luz utilizada no experimento era totalmente adequada para uso em estradas rurais, tornando os achados diretamente aplicáveis ao projeto de Gladsaxe.
Sete espécies de morcegos foram registradas no local próximo a Skovbrynet. Nenhuma delas consta em listas de espécies ameaçadas, mas o morcego-anão-comum e o morcego-de-orelhas-compridas-marrom enfrentam o maior risco de impacto negativo das operações viárias.
Design técnico resolve conflito entre infraestrutura e habitat
A Diretoria Dinamarquesa de Estradas forneceu orientação técnica para o projeto, focando na interseção entre infraestrutura humana e hotspots biológicos. Light Bureau, divisão da empresa AFRY, colaborou com o município de Gladsaxe para desenhar uma solução que atendesse simultaneamente à segurança de tráfego e à sensibilidade ecológica.
A instalação utiliza 30 braços de iluminação baixa com um metro de altura, espaçados a 30 metros de distância um do outro. Esse espaçamento amplo cria corredores escuros para animais sensíveis à luz que se movem ao longo do solo e necessitam de escuridão completa para se proteger de predadores. Ao mesmo tempo, mantém a pista cicloviária suficientemente iluminada para garantir segurança dos usuários.
Nos pontos onde ciclistas e pedestres atravessam a estrada, o design muda sua abordagem. Doze braços montados em mastros de 3,5 metros de altura emitem luz branca quente. Esse recurso sinaliza aos usuários que o ambiente está mudando, aumentando a visibilidade e a segurança nas intersecções críticas.
Philip Jelvard, designer de iluminação da Light Bureau envolvido no projeto, expressou esperança de que todos acolham bem a nova iluminação. Conforme Jelvard, a luz vermelha não apenas possui valor funcional, mas também carrega valor simbólico. A coloração diferenciada faz com que pedestres e motoristas percebam que entram em uma zona natural especial merecedora de proteção.
Jonas Jørgensen, engenheiro de estradas do departamento de Tráfego e Mobilidade de Gladsaxe, explicou a lógica por trás da decisão municipal. Ele afirmou que a equipe buscava iluminação que afetasse os morcegos e a natureza o mínimo possível, sem comprometer a segurança de tráfego. A ausência total de luz seria ideal para os morcegos, reconheceu, mas isso não seria viável. Diante das limitações práticas, a luz vermelha representava a melhor solução disponível para a seção da estrada onde os morcegos vivem.
Inserção em estratégia municipal mais ampla de sustentabilidade
O projeto faz parte do programa Lighting Metropolis – Green Mobility, financiado pela União Europeia. A iniciativa reúne cidades dinamarquesas e suecas para testar soluções sustentáveis de iluminação. A instalação de luz vermelha em Frederiksborgvej funciona como laboratório no mundo real, fornecendo dados sobre como tais mudanças afetam o consumo de energia e a biodiversidade local.
Gladsaxe conquistou o status de Município de Objetivo Mundial da Dinamarca, tendo integrado os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas em sua estratégia abrangente. A página oficial do município sobre biodiversidade apresenta a iluminação amigável aos morcegos ao lado de outros esforços, incluindo preservação de árvores veteranas e introdução de pastoreio natural.
Os LED vermelhos funcionam também como marcador visual permanente das prioridades ambientais da cidade. A cor distinta alerta motoristas de que estão entrando em uma zona ecológica sensível, potencialmente encorajando comportamentos de condução mais cautelosos em áreas onde a vida selvagem está ativa.
Perspectivas de avaliação e expansão futura
Light Bureau planeja colaborar com biólogos durante o próximo ano para avaliar se a solução alcançou o efeito pretendido. A coleta de dados sobre a solução será fundamental para informar projetos futuros em outras áreas urbanas que enfrentem desafios similares entre desenvolvimento humano e conservação animal.
A implementação representa um passo concreto na integração de soluções baseadas na natureza dentro do planejamento urbano europeu. Outras cidades enfrentam problemas semelhantes com fragmentação de habitat causada por iluminação artificial, mas poucas testaram respostas tão visíveis e documentadas quanto a iniciativa dinamarquesa.
O projeto demonstra como pesquisa ecológica rigorosa pode informar decisões de infraestrutura pública. A mudança também oferece um modelo educacional: motoristas que passam pela estrada vermelha recebem uma lição silenciosa sobre o custo ambiental da urbanização e as possibilidades de mitigação criativa.
Outros municípios europeus já expressaram interesse em replicar ou adaptar o modelo dinamarquês. A viabilidade técnica, o custo relativamente modesto e os benefícios comprovados criam condições para expansão. Estudos adicionais, conforme planejado por Light Bureau e parceiros locais, serão essenciais para validar a abordagem e identificar cenários onde iluminação vermelha pode ser implementada com segurança equivalente à iluminação convencional.
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