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Britânico Kenton Cool sobe Everest pela 20ª vez e estabelece novo marco histórico

Kenton Cool - kentoncool/Instagram
Foto: Kenton Cool - kentoncool/Instagram

Kenton Cool, alpinista britânico de 52 anos, alcançou o cume do Monte Everest pela vigésima vez na sexta-feira, estabelecendo um recorde histórico como primeiro não-nepalês a conquistar tal feito. A escalada marca um ponto de inflexão em um dos ambientes mais perigosos do planeta, onde debates sobre segurança e superlotação intensificam-se após mortes recentes no mesmo período.

O britânico iniciou sua jornada rumo ao acampamento base para encerrar a expedição neste fim de semana. Sua trajetória no alpinismo começou em 2004, quando primeiro atingiu o cume. Desde então, retorna à montanha quase anualmente, consolidando uma carreira de três décadas dedicada à escalada em alta altitude.

Feito inédito fora da comunidade sherpa

Cool tornou-se o primeiro alpinista ocidental a repetir a façanha vinte vezes. Antes dele, apenas escaladores nepaleses particularmente sherpas haviam conquistado esse número de ascensões. Kami Rita Sherpa, conhecido como “Homem do Everest”, ampliou seu próprio recorde mundial ao atingir o cume pela trigésima segunda vez no domingo, consolidando a supremacia nepalesa nas estatísticas do Everest.

Lukas Furtenbach, organizador de expedições e escalador do Everest em quatro ocasiões, descreveu Cool como uma “lenda absoluta” que estava “discretamente reescrevendo os livros de recordes”. Segundo Furtenbach à agência Reuters, nenhum outro alpinista não-sherpa conquistou mais cumes do Everest na história da montanha.

O britânico não minimiza os riscos envolvidos. Em comunicado divulgado pela Reuters, Cool afirmou que escalar o Everest nunca se torna “mais fácil ou menos assustador”. Ele prosseguiu: “É a montanha mais alta do mundo e, com ela, vem uma incrível sensação de majestade. Confio em toda a minha experiência para me movimentar com segurança neste ambiente. Estar no cume pela vigésima vez é algo incrivelmente especial.”

A resiliência de Cool ganhou dimensão adicional ao considerar seu histórico. Após acidente de escalada em 1996 que fraturou ambos os ossos do calcanhar, especialistas afirmaram que ele nunca mais andaria sem auxílio. Três décadas depois, o alpinista permanece ativo no topo do mundo.

Kenton Cool - kentoncool/Instagram
Kenton Cool – kentoncool/Instagram

Superlotação levanta alertas de segurança imediatos

A celebração de Cool coincide com crescentes preocupações sobre as condições de segurança no Everest. Na quarta-feira anterior a sua ascensão, mais de 270 alpinistas escalaram simultaneamente pela rota sul do Nepal o maior número registrado em um único dia. Fotógrafos documentaram longas filas de escaladores presos em cordas fixas, aguardando em zonas de altitude crítica onde o oxigênio é escasso e as temperaturas alcançam valores extremos.

Kami Rita Sherpa, apesar de seu histórico impressionante, manifestou preocupação com o padrão emergente. “O governo deveria regulamentar isso um pouco”, disse ele à agência AFP. “Deveriam permitir a entrada apenas de alpinistas qualificados; deveria haver um limite.”

Especialistas alertam que a superlotação no Everest representa risco à segurança dos escaladores. O congestionamento aumenta o tempo de permanência em zonas críticas, elevando riscos de hipotermia, edema cerebral de altitude e exaustão. Cada minuto adicional em altitude extrema reduz as margens de segurança operacional.

Duas mortes durante descida elevam contagem de óbitos

Na sexta-feira, registrou-se a morte de dois alpinistas indianos durante a descida do cume. Nivesh Karki, diretor da Pioneer Adventure, informou à AFP que os escaladores “passaram mal” durante o trajeto de volta. As autoridades iniciaram esforços para resgatar os corpos do cume, operação complexa em condições extremas.

O incidente eleva para cinco o número de mortes confirmadas durante a temporada de escalada de 2026 no Everest. Esta cifra ressalta a constante ameaça que a montanha representa, mesmo para alpinistas experientes e bem equipados. Os riscos multiplicam-se quando escaladores inadequadamente preparados ou aclimatados tentam o cume.

A sequência de acidentes e óbitos alimenta debates sobre regulamentação das expedições. Atualmente, qualquer pessoa com recursos financeiros e autorização nepalesa pode contratar guias e tentar a escalada. Não há critérios técnicos obrigatórios ou testes de aptidão física pré-escalada.

Contexto global do alpinismo no Nepal

Oito dos dez picos mais altos do mundo localizam-se no Nepal, transformando o país em meca internacional do alpinismo extremo. Milhares de escaladores viajam anualmente para tentar esses cumes, gerando receitas significativas para a economia nepalesa. Guias locais frequentemente sherpas constituem a espinha dorsal operacional dessas expedições, enfrentando riscos imensuráveis para garantir sucesso das missões.

A tradição de escalada nepalesa remonta ao século XX. Sherpa Tenzing Norgay integrou a primeira expedição que atingiu o cume do Everest em 1953, compartilhando o feito com Edmund Hillary. Desde então, escaladores nepaleses acumularam expertise e registros impressionantes.

Kanchha Sherpa, último membro vivo da equipe original de 1953, faleceu aos 92 anos há pouco tempo, marcando simbolicamente o encerramento de uma era no alpinismo. Sua morte reforçou narrativas sobre a importância histórica e cultural dos sherpas na exploração desses picos.

Recorde de Cool dentro de perspectiva mais ampla

A vigésima ascensão de Kenton Cool posiciona-se como marco significativo do alpinismo ocidental. Seu recorde reflete não apenas dedicação pessoal, mas também avanços tecnológicos, logística aprimorada e suporte médico em alta altitude. Equipamentos modernos, sistemas de comunicação e protocolos de segurança melhoraram substancialmente desde os primeiros anos de exploração do Everest.

Contudo, esses avanços não eliminaram a realidade: o Everest permanece um ambiente hostil onde seres humanos operam no limiar biológico da sobrevivência. A “zona da morte” acima de 8.000 metros oferece tão pouco oxigênio que o corpo humano entra em processo irreversível de deterioração. Nem sequer os escaladores mais experientes escapam completamente dessa verdade.

As narrativas de sucesso como a de Cool mascaram estatísticas sombrias. Aproximadamente um em cada 300 alpinistas que tentam o Everest morre durante a tentativa ou em consequência dela. A taxa de ferimentos graves é ainda maior. Desmaios, amputações por congelamento, edema pulmonar e dano neurológico permanente afligem muitos sobreviventes.

Perspectivas futuras e regulação pendente

Autoridades nepalesas enfrentam pressão para implementar medidas regulatórias mais rigorosas. Propostas incluem:

  • Estabelecimento de limites no número de permissões de escalada por temporada
  • Implementação de testes obrigatórios de aptidão prévia
  • Requisitos de experiência anterior em montanhas de altitude menor
  • Aumento no custo de permissões para desestimular tentativas inadequadas
  • Melhoria em sistemas de resgate de emergência

Essas medidas encontram resistência de operadores turísticos que lucram com expedições e da economia local dependente dessa receita. Balancear segurança com oportunidades econômicas permanece desafio central para formuladores de políticas nepalesas.

Kenton Cool representa o lado aspiracional do alpinismo: dedicação, resiliência, superação de adversidades e conquista de limites humanos. Simultaneamente, os dois alpinistas indianos mortos na mesma semana representam a outra face: a realidade de ambientes que não toleram erro, distração ou má sorte. Ambas as histórias ocorrem na mesma montanha, no mesmo período, oferecendo narrativa equilibrada sobre os Himalaias.