Roteirista de La Casa de Papel denuncia falta de remuneração para criadores no Brasil
Javier Gómez Santander, roteirista criador de La Casa de Papel, abordou a precarização salarial de autores brasileiros durante painel no Rio2C nesta quarta-feira, 27 de maio. Segundo ele, a indústria audiovisual ignora completamente a remuneração posterior dos criadores, independentemente do alcance da obra. “No audiovisual, não importa se sua obra é vista por milhões. Não pagam um centavo a mais”, afirmou em conversa com o Estadão.
Santander comparou a situação do Brasil com outros mercados globais. Ele destacou que fora dos Estados Unidos, nenhum país possui uma indústria cinematográfica tão robusta quanto a brasileira. O espanhol criticou duramente o modelo de negócio vigente. “Você constrói uma história que sai das suas entranhas, é parte de você, e a indústria não devolve nada. É uma injustiça histórica”, completou.
Dados alarmantes sobre a categoria
Conforme levantamento da Gestão de Direitos de Autores Roteiristas (Gedar), 85,1% dos roteiristas nunca receberam remuneração posterior pela exibição de suas obras no país. Essa realidade se reflete diretamente na sustentabilidade profissional: apenas 27,5% vivem exclusivamente de roteirismo. Os demais precisam buscar outras fontes de renda para se manter.
André Mielnik, presidente da Gedar Brasil, propõe um modelo de remuneração baseado em visualizações, similar ao sistema adotado pelo YouTube com influenciadores. “Você vê como é uma coisa que transforma a vida das pessoas, principalmente aqui no País, onde as pessoas realmente vivem de ser influencer”, explicou Mielnik após o painel.
Diferenças entre a música e o audiovisual
Mielnik argumenta que a música brasileira se consolidou graças à proteção do direito autoral. Dados comprovam: os brasileiros escutam mais música brasileira do que internacional. Porém, o mesmo não ocorre com filmes e séries. “No cinema, ainda não conseguimos fazer ou ter uma Ivete Sangalo”, exemplificou o presidente da Gedar. Ele ressalta que, sem proteção de direitos, artistas do audiovisual nunca alcançarão o status de ícones eternos na memória coletiva como ocorre com músicos consagrados.
Perspectivas internacionais e desafios do setor
O painel O Valor da Criação reuniu ainda a roteirista francesa Noémie Saglio e o brasileiro Cauê Laratta, autor de Pico da Neblina. Luisa Luna, gestora de relações com criadores da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (Cisac), mediou a discussão. Ambos roteiristas criticaram a discrepância entre remunerações no mercado internacional versus brasileiro.
Cauê Laratta pontuou um problema estrutural: “As pessoas que podem se dar ao luxo de ser roteiristas são frequentemente aquelas que podem passar cerca de seis meses sem receber nenhum dinheiro, porque não existe um mecanismo que compense as obras exibidas”. Isso cria uma barreira invisível que limita o acesso à profissão apenas a quem dispõe de recursos financeiros prévios.
Noémie Saglio trouxe a perspectiva europeia, citando Virginia Woolf: “Para ser escritora, você precisa de um quarto próprio e de um pouco de dinheiro”. Para ela, o direito autoral transcende ganho monetário. “Entendo o direito autoral não apenas para ganhar dinheiro, mas porque os projetos levam tempo. Meus projetos mais longos levaram 10 anos. O copyright permite que você sobreviva, continue fazendo o que ama e não aceite trabalhos apenas por dinheiro. Isso melhora o trabalho”, afirmou a roteirista francesa.
Cenário de mobilização e esperança
Os participantes do painel convergem em um ponto: a necessidade urgente de reformas nas políticas de remuneração do setor audiovisual brasileiro. O debate ocorre em momento em que a indústria criativa ganha relevância no País. Profissionais organizados através de entidades como a Gedar Brasil buscam estabelecer novos marcos regulatórios que tragam sustentabilidade financeira aos criadores. A comparação com o sucesso da indústria musical brasileira serve como prova de que modelos de proteção autoral funcionam e estimulam a produção cultural.
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