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Agatha Christie: ‘O Assassinato de Roger Ackroyd’ eleito melhor romance policial de todos os tempos

Agatha Christie
Foto: Agatha Christie - Reprodução

A extensa obra de Agatha Christie continua a ser um marco na literatura mundial, com diversos títulos que desafiam e encantam gerações de leitores. Entre suas muitas criações, um romance em particular se destacou de forma singular, alcançando um reconhecimento máximo.

“O Assassinato de Roger Ackroyd”, publicado pela primeira vez em 1926, foi eleito o melhor romance policial de todos os tempos em 2013. A eleição ocorreu durante as comemorações do 60º aniversário da Associação Britânica de Escritores Policiais (CWA).

“O Assassinato de Roger Ackroyd” Recebe Honraria da CWA

Em 2013, a Associação Britânica de Escritores Policiais (CWA) organizou uma votação para determinar o romance mais notável do gênero. Participaram da disputa obras consagradas como “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle, e “O Silêncio dos Inocentes”, de Thomas Harris. Após a contagem de 600 votos, “O Assassinato de Roger Ackroyd”, de Agatha Christie, emergiu como o vencedor. Antes de se tornar um livro em 27 de maio de 1926, a história foi publicada como folhetim no jornal London Evening News, entre 16 de julho e 16 de setembro de 1925. Inicialmente, o título era “Quem Matou Ackroyd?”. No Brasil, a obra chegou em 1933, traduzida por Leonel Vallandro.

Renan Castro, editor-assistente da Globo Livros, destaca as características que tornam a obra um clássico instantâneo. Ele aponta o “plot twist” final como um diferencial, celebrado hoje em diversas mídias. A editora, inclusive, lançou uma edição de luxo comemorativa da obra, com capa dura, tradução de Renato Rezende e design de Rafael Nobre.

Inspiração para a Trama e a Reviravolta Narrativa

Agatha Christie, em sua autobiografia, creditou duas pessoas pela inspiração para “O Assassinato de Roger Ackroyd”: seu cunhado, James “Jimmy” Watts, e o lorde Louis Mountbatten. A autora revelou que este foi o livro de maior sucesso em sua carreira. James Watts, após ler um romance policial, expressou o desejo de ver um “Watson que virasse criminoso”, referindo-se ao Dr. John H. Watson, companheiro de Sherlock Holmes.

Tempos depois, Mountbatten sugeriu que a história fosse narrada em primeira pessoa por alguém que, ao final, se revelasse o assassino. Christie, que não imaginava o Capitão Arthur Hastings, amigo de Hercule Poirot, como um criminoso, enviou-o à Argentina. Assim, o médico Dr. James Sheppard, da pacata King’s Abbot, assumiu o papel de narrador. A autora defendeu que a obra não era enganadora, bastando uma leitura atenta.

Jared Cade, autor de “Secrets from the Agatha Christie Archives”, reitera que o romance é “sem dúvida, o melhor romance policial do século 20”. Ele observa que a simplicidade enganosa reside na aparência de um mistério convencional. A escritora Susanne Lieder, autora de “Agatha Christie e a Trajetória do Mistério” (2025), afirma que Christie “revolucionou o gênero e surpreendeu os leitores”. Muitos ficaram confusos, principalmente porque o assassino é um personagem simpático, diz Lieder, que elegeu Caroline Sheppard como sua personagem favorita na obra.

A Ascensão de Agatha Christie e as Preferências dos Fãs

“O Assassinato de Roger Ackroyd” não marcou a estreia literária de Agatha Christie. Antes, ela já havia lançado cinco romances policiais, incluindo “O Misterioso Caso de Styles” (1920) e “O Segredo de Chimneys” (1925). Tito Prates, escritor e biógrafo, presidente da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst), desmistifica a lenda de que “Ackroyd” a tornou famosa, afirmando que a autora já era uma “estrela em ascensão” nos anos 1920. Ela já tinha mais de 70 contos publicados em revistas dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Em 2015, The Home of Agatha Christie, o site oficial da escritora, promoveu outra enquete mundial para eleger o livro favorito dos fãs. Desta vez, “E Não Sobrou Nenhum” (1939) foi o escolhido, seguido por “O Assassinato no Expresso do Oriente” (1934). “O Assassinato de Roger Ackroyd” ficou em terceiro lugar nesta votação. Jean Pierre Chauvin, doutor em Letras pela USP, descreve “E Não Sobrou Nenhum” como um suspense que flerta com o horror, onde o isolamento dos personagens em uma ilha cria uma “trama em ampulheta”.

A enquete contou com a participação de 15 mil leitores de mais de cem países. Curiosamente, 24% dos votantes tinham entre 25 e 34 anos. O Brasil se destacou como o terceiro país com maior número de votos, atrás apenas de Estados Unidos e Reino Unido.

Os três primeiros colocados no ranking dos leitores de Agatha Christie foram:

  • E Não Sobrou Nenhum (21% dos votos)
  • O Assassinato no Expresso do Oriente (16% dos votos)
  • O Assassinato de Roger Ackroyd (8% dos votos)
  • Morte no Nilo (1937)
  • Os Crimes ABC (1936)

Para a jornalista pernambucana Duda Menezes, “O Assassinato de Roger Ackroyd” reúne o melhor de Agatha Christie, incluindo a presença de Hercule Poirot, um vilarejo pacato, incontáveis suspeitos, álibis engenhosos, uma narrativa envolvente e manipulação. Segundo ela, o domínio narrativo da autora é capaz de chocar qualquer pessoa, impulsionando a releitura.

Adaptações e Releituras da Obra da Rainha do Crime

No Brasil, a obra de Agatha Christie é publicada por três editoras: Globo Livros, L&PM e HarperCollins. Alice Mello, editora-executiva da HarperCollins Brasil, ressalta a subjetividade do conceito de “melhor”, embora considere “O Assassinato de Roger Ackroyd” merecedor do título pela audácia de sua solução.

O escritor Raphael Montes, conhecido por “Suicidas” (2012) e “Jantar Secreto” (2016), já elegeu “A Casa Torta” (1949) como um de seus favoritos, destacando o assassino “mais improvável” criado por Christie. Posteriormente, Montes revisou sua lista, colocando “E Não Sobrou Nenhum” no topo. Este último, inclusive, teve seu título original, “O Caso dos Dez Negrinhos” (“Ten Little Niggers”), alterado por questões de correção política em diversos países. A própria Agatha Christie considerava “E Não Sobrou Nenhum” seu favorito, seguido por “O Assassinato de Roger Ackroyd” e “Convite para Um Homicídio” (1950).

Dos 44 livros de Agatha Christie publicados pela HarperCollins no Brasil, 11 foram traduzidos por Érico Assis e nove por Samir Machado de Machado. Assis elegeu “Assassinato no Expresso do Oriente” como seu favorito, destacando a resolução magistral e o fato de ter traduzido a obra duas vezes, em prosa e em graphic novel. Samir Machado de Machado descreve “O Assassinato de Roger Ackroyd” como o livro mais engenhoso de Agatha Christie. Ele desafia os leitores a desvendar o mistério final, considerando-o uma das poucas obras da autora que “vale a releitura”.

Múltiplas Faces de “O Assassinato de Roger Ackroyd”

Ao longo dos anos, “O Assassinato de Roger Ackroyd” recebeu diversas adaptações. A primeira foi para o teatro em 1928, com a peça “Álibi”, escrita e dirigida por Michel Morton. Agatha Christie não aprovou a montagem, especialmente porque Morton removeu sua personagem favorita, Caroline Sheppard, que serviu de inspiração para Jane Marple.

O romance também deu origem a uma radionovela estrelada por Orson Welles em 1939. Em 2007, Bruno Lachard ilustrou uma HQ baseada na obra, e um documentário sobre o livro foi dirigido por Jean-Christophe Klotz em 2016. O ator inglês David Suchet, conhecido por interpretar Hercule Poirot em 70 episódios da série “Agatha Christie’s Poirot” (1989-2013), revelou em seu livro “Viajando com Agatha Christie” (2025) que hesitou em aceitar o papel por nunca ter lido a autora antes. “O Assassinato de Roger Ackroyd” foi um dos episódios adaptados na série.