A tecnologia Lidar revelou uma extensa metrópole antiga de 3.000 anos no Vale do rio Upano, na Amazônia equatoriana. A descoberta, detalhada após análises recentes de dados de mapeamento, derruba a concepção de que a região abrigava apenas pequenos grupos de caçadores-coletores nômades, uma ideia antes consolidada. A paisagem urbana estende-se por 600 km².
Milhares de estruturas artificiais, como plataformas, montes, estradas e canais, foram identificadas no local. Este complexo sistema de urbanismo diferencia-se dos modelos europeus. Caracteriza-se pela baixa densidade e múltiplos centros, uma adaptação engenhosa à selva amazônica. A revelação reforça a teoria de que civilizações sofisticadas alteraram sistematicamente a paisagem para atender às suas necessidades sociais. Os achados no Vale do Upano desafiam paradigmas.
Lidar revela rede urbana complexa
O arqueólogo Alden Yépez, especialista em Amazônia antiga pela Pontifícia Universidade Católica do Equador (Puce), guiou visitas ao sítio arqueológico de Huapula, um dos pontos centrais da descoberta. Ele destacou a natureza artificial das formações, que incluem pequenas colinas íngremes e montes organizados geometricamente. As escavações revelaram um caminho longo e profundo.
O sítio de Huapula faz parte de uma rede densa de montículos artificiais, até então desconhecida em sua vasta dimensão. Arqueólogos locais já tinham conhecimento de algumas dessas formações há 50 anos, mas a escala real da paisagem urbana de 3.000 anos só emergiu recentemente. Novas tecnologias de mapeamento foram cruciais para esta revelação.
A transformação na compreensão da área ocorreu em julho de 2015, quando o Instituto Nacional do Patrimônio Cultural do Equador (INPC) iniciou o mapeamento de 600 km² do Vale do Upano. A tecnologia Lidar utilizou pulsos de laser para penetrar a folhagem densa. Os feixes refletiram no solo, criando mapas 3D complexos do terreno.
Estrutura de um urbanismo único
Análises recentes dos dados Lidar, divulgadas em 2023 por especialistas contratados pelo INPC, revelaram uma vasta e extensa rede de quase 7.500 estruturas. Essas construções são inteiramente feitas pelo homem. Elas incluem mais de 5.000 plataformas de terra, cerca de 1.500 colinas, centenas de montículos arredondados e áreas semelhantes a praças.
A rede também contém terraços, caminhos, estradas, valas e sistemas de drenagem. As plataformas eram interligadas por trincheiras e estradas, com usos que podem ter variado sazonalmente, conforme análise de pesquisadores franceses em 2024. Uma equipe liderada por Yépez no Equador criou um mapeamento 3D acessível ao público, buscando análises adicionais.
Essa rede mostra que os antigos habitantes moldaram a lama do solo da floresta. Eles criaram colinas e montes para moradias e reuniões. Construíram estradas e, possivelmente, rios para conectar tudo. Rita Litben, pesquisadora independente, ressaltou que são elementos naturais modificados em obras de terraplenagem de proporções gigantescas, pura terra compactada moldada e posicionada.
Desmistificando teorias antigas sobre a Amazônia
Durante séculos, acreditou-se que a geografia e o clima da Amazônia limitavam a existência a pequenas populações dispersas de caçadores-coletores. Essa ideia se cristalizou na teoria do determinismo ambiental. Ela foi popularizada nas décadas de 1950 e 1960 pela arqueóloga americana Betty Meggers.
A teoria de Meggers afirmava que o clima tropical, árido e quente da Amazônia impedia o progresso humano. No entanto, as descobertas no Vale do Upano, somadas a um crescente corpo de pesquisas com Lidar no Brasil e na Colômbia, contradizem essa visão. Elas sugerem que a Amazônia abrigou civilizações sofisticadas em desenvolvimento.
Essas civilizações sistematicamente alteraram a paisagem para atender às suas necessidades sociais. “À luz dessa nova tecnologia, precisamos repensar os assentamentos amazônicos, precisamos reconsiderar nossa perspectiva sobre o que realmente eram as populações amazônicas”, afirmou Litben. A arqueologia moderna oferece uma visão muito mais complexa e rica do passado.
Vida cotidiana e rituais nos montículos
As plataformas em toda a rede são organizadas principalmente em padrões de três a seis unidades. Geralmente, elas circundam um espaço semelhante a uma praça, com outra plataforma frequentemente no centro. A maioria dos montículos, chamados localmente de tolitas, tem entre 2 e 3 metros de altura.
Eles possuem formato retangular, com lados de aproximadamente 10 metros por 20 metros. Os pesquisadores sugerem que as civilizações amazônicas viviam no topo desses montículos menores. Arqueólogos encontraram pequenos vestígios de objetos cotidianos, como jarros, pedras de moagem e sementes cozidas, confirmando a habitação.
No entanto, algumas redes incluem plataformas muito maiores, com mais de 4,5 metros de altura, chegando a 8 metros. Elas podem medir até 40 metros por 140 metros. Nesses locais, os amazônicos provavelmente realizavam funções cerimoniais, pois há poucos vestígios de atividade humana ou alimentos.
Alejandra Sánchez Polo, arqueóloga da Universidade de Valladolid, Espanha, e coautora das análises do INPC, ressaltou o trabalho necessário para criar essas estruturas. “Muita gente foi necessária para criar essas plataformas, havia muita gente morando lá, muita gente trabalhando e muita gente transformando a selva”, disse ela.
Especialistas tentam estimar o tamanho da população, calculando a terra que cada pessoa poderia ter transportado diariamente. Stéphen Rostain, arqueólogo veterano da cultura Upano, apontou a dificuldade em dar números precisos. “Alguns falam em 10.000, 30.000, 100.000 habitantes, mas não posso afirmar nada sem dados concretos”, declarou.
Os artefatos encontrados oferecem um vislumbre da vida antiga:
- Jarros e pedras de moagem
- Sementes cozidas
- Fragmentos de tigelas para beber
- Cerâmica estratificada
Florencio Delgado, professor de antropologia da Universidade San Francisco de Quito, destacou a ausência de vestígios humanos. “Uma das perguntas mais importantes para mim é: onde estão essas pessoas?”, questionou Delgado sobre os esqueletos e cemitérios.
Sistema viário e agrícola avançado
O trabalho de Stéphen Rostain sugere que as redes de montículos eram interligadas por um sofisticado sistema viário. Os caminhos escavados variavam entre 2 e 15 metros de largura. Eles podiam atingir 5 metros de profundidade. Tais estradas se estendiam por até 25 quilômetros.
Essas vias provavelmente conectavam as redes a outras comunidades no vale, possivelmente para fins comerciais. As estradas são notavelmente retas, apesar das irregularidades naturais do terreno. Rostain expressou surpresa: “Nunca imaginamos que fosse possível organizar um terreno tão grande em um padrão quadriculado; é quase perfeito”.
Rostain também sugeriu a existência de campos agrícolas. Eles se estendiam por centenas de metros quadrados, organizados em sistemas de parcelas geométricas. Pequenos canais de drenagem e terraços interligados foram identificados. O solo fértil da região permitia o cultivo de milho, feijão, mandioca e batata-doce, conforme grãos de amido em cerâmicas antigas.
A bebida chicha, um fermentado de milho ainda popular, era consumida. Rostain especula sobre cerimônias coletivas de consumo de bebidas alcoólicas, dada a quantidade de fragmentos de tigelas para beber. Ele afirmou: “A Amazônia não foi o fim da civilização, foi o berço da civilização”.
Controvérsias e o futuro das descobertas
O artigo de Rostain sobre o Vale do Upano, publicado em 2024, gerou grande repercussão, mas também algumas críticas. Ele foi questionado por possíveis imprecisões e por não dar crédito ao trabalho de Litben e Sánchez-Polo, entre outros pontos. Rostain refutou as críticas, afirmando desconhecer a análise encomendada pelo INPC.
A ampla cobertura jornalística levou as formações do Vale do Upano a serem chamadas de “cidades perdidas da Amazônia”, com a revista *Science* usando a expressão em sua capa. Contudo, essa designação gerou desconforto entre alguns especialistas. Kathryn Reese-Taylor, antropóloga da Universidade de Calgary, no Canadá, analisou como a mídia exagerou descobertas de Lidar.
A palavra “perdido” implica que algo não é mais conhecido ou está arruinado. No entanto, moradores locais e arqueólogos da região já conheciam e estudavam os montes. Rostain insistiu que sua pesquisa nunca fez comparações com Roma, nem descreveu a descoberta como uma “cidade perdida”, apesar da mídia.
Alguns especialistas argumentam que chamar a rede de montes de “cidade” seria um desserviço. Michael Heckenberger, antropólogo da Universidade da Flórida, descreveu-os como “o alter ego do urbanismo urbano europeu”. Ele os considera “uma forma de urbanismo sem cidades”, multicêntricos e de baixa densidade, mostrando uma forma alternativa de urbanismo.
Heckenberger enfatizou que essa forma de urbanismo não está “abaixo das cidades europeias”, mas é um tipo diferente e igualmente complexo. Ele notou que o Vale do Upano, próximo aos Andes, possui topografia única. Portanto, não deve ser considerado um modelo para todo o urbanismo amazônico, havendo ainda muito a descobrir.
Jonathan Panimboza Deleg, engenheiro geográfico e ambiental da Puce, mostrou renderizações 3D que indicam que até 90% dos dados Lidar ainda não foram classificados. Isso pode revelar ainda mais segmentos da rede. Os resultados atuais representam apenas metade da área escaneada pelo INPC. Rostain afirmou que o INPC liberou os dados restantes para ele, permitindo expandir sua análise de 2024.
Yépez e Panimboza Deleg teorizam que os montes e praças podem ter tido uma função adicional: gestão da água. Eles sugerem que muitas valas poderiam ser canais de drenagem. Tais canais se enchiam como rios e canalizavam água durante chuvas intensas. As praças podem ter sido reservatórios de água, uma prova da habilidade adaptativa dos povos amazônicos.
Rostain, contudo, considera a teoria “ridícula” e infundada. Ele argumenta que o clima úmido e chuvoso não era problemático a ponto de exigir sistemas massivos de gestão de água. A equipe francesa, a equipe contratada pelo INPC e a equipe equatoriana sugerem, provisoriamente, que os montes foram criados entre 3.000 e 2.500 anos atrás.
Não está claro se os montes foram construídos e habitados simultaneamente. O Lidar oferece uma imagem plana das estruturas, sem datar a construção ou o tempo de uso. Yépez sugere que as estruturas podem ter imitado depósitos naturais do vulcão Sangay. Mark Bush, paleoecologista, afirma que a vegetação atual é resultado de mudanças dos últimos 200 ou 300 anos.
Não se sabe o que aconteceu com a sociedade que habitava os montes. Rostain sugere que os sítios foram abandonados “rapidamente” pelos Upano em 300 d.C. Ele atribui isso à Anomalia Climática Medieval, que secou grande parte dos Andes. O povo Huapula os teria sucedido em 600 d.C., permanecendo até o século XIII. A equipe de Yépez indica uma transição mais lenta.
O Vale do Upano é atualmente habitado. Embora os complexos de montículos estejam sob a proteção do INPC, muitos se encontram em terrenos privados. Alguns agricultores descontentes tentam destruir os montículos, mas outros moradores, como Carmen Quito, orgulham-se das descobertas e trabalham para protegê-las.
Na província de Morona, um grupo de sete entusiastas iniciou um programa de zeladoria voluntária, os Guardiões do Patrimônio. Desde 2025, eles relatam sistematicamente a destruição de montículos. Eles educam proprietários de terras locais sobre a história da rede e organizam visitas guiadas.

