Desafio aberto ao Vaticano: fraternidade católica ultraconservadora amplia sua influência no Brasil celebrando missas em latim

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Mãos com o Rosário na igreja, católico, reza

Mãos com o Rosário na igreja, católico, reza - jarino47/ iStock

Uma grave crise se desenha no seio da Igreja Católica, com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), um grupo ultraconservador, desafiando abertamente o Vaticano. A congregação planeja ordenar quatro novos bispos em 1º de julho na Suíça, sem a necessária autorização papal. Este ato de desobediência acende o alerta da Santa Sé sobre uma possível nova rodada de excomunhões, a punição mais severa que a Igreja pode aplicar.

Rituais antigos na capital paulista

Longe dos rituais contemporâneos, uma cena distinta se repetiu no último domingo de Pentecostes, em uma capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X na Vila Mariana, em São Paulo. O ambiente era de solenidade, com o som de sinos e o aroma intenso de incenso anunciando o início da missa das 9h. Um padre, acompanhado por diáconos, conduzia a celebração em latim, utilizando um turíbulo de metal que balançava ritmicamente.

A cerimônia seguiu um formato que remonta ao período medieval, com o sacerdote voltado para o altar e para a imagem de Jesus crucificado durante a maior parte do tempo. Os bancos da capela estavam lotados, e fiéis ocupavam os espaços laterais e as escadas do mezanino, muitos deles familiarizados com as orações em latim, dispensando os livretos de tradução disponíveis na entrada. A vestimenta era predominantemente sóbria, com mulheres e meninas usando saias longas e lenços de renda para cobrir os cabelos, evidenciando o rigor das tradições observadas pelo grupo.

As raízes do cisma: o Concílio Vaticano II

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi fundada em 1970, na Suíça, como uma reação direta às profundas transformações introduzidas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. Este concílio promoveu uma série de modernizações na Igreja Católica, incluindo a substituição do latim pelos idiomas locais nas missas, o incentivo à leitura da Bíblia pelos leigos e uma maior abertura para o diálogo inter-religioso e a liberdade de consciência individual.

As reformas progressistas do Vaticano II geraram forte oposição entre setores mais conservadores do catolicismo. O arcebispo francês Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX, viu essas mudanças como uma ruptura com a tradição milenar da Igreja e estabeleceu um seminário para formar sacerdotes que mantivessem o modelo anterior ao concílio. Em 1988, Lefebvre e quatro bispos por ele ordenados foram excomungados pelo Papa João Paulo II, uma punição raríssima que marca a severidade do conflito doutrinário.

Expansão no território brasileiro

Apesar da excomunhão de seu fundador, a FSSPX não apenas sobreviveu, mas se expandiu globalmente, chegando à América do Sul pela Argentina. Nas últimas duas décadas, o movimento ganhou força considerável no Brasil, impulsionado pelo crescimento de correntes conservadoras dentro do catolicismo nacional. Sua presença no país está intrinsecamente ligada à história da Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, que também resistia ao Vaticano II.

Inicialmente, a Diocese de Campos e a FSSPX mantinham laços estreitos, com bispos da diocese inclusive sendo excomungados junto com Lefebvre. No entanto, em 2002, a diocese se reconciliou com o Vaticano, aceitando o Concílio II, mas mantendo a permissão para celebrar a missa tridentina. Este movimento foi visto como uma traição por antigos aliados da Fraternidade, que, a pedido de fiéis insatisfeitos, começou a estabelecer sua própria presença no Brasil.

    Hoje, a Fraternidade São Pio X opera em 14 capelas distribuídas por quatro das cinco regiões do país:
  • São Paulo: São Paulo, Indaiatuba, Ribeirão Preto, Sorocaba, Itapetininga, São José do Rio Preto
  • Minas Gerais: Passos
  • Região Sul: Curitiba (PR)
  • Centro-Oeste: Cuiabá (MT), Campo Grande (MS)
  • Nordeste: Fortaleza (CE), Parnaíba (PI), Teresina (PI), São Luís (MA)

As consequências do novo desafio ao papa francisco

A atual intenção da FSSPX de ordenar bispos sem consentimento do Vaticano representa uma reedição do conflito de 1988. A Santa Sé já emitiu um aviso claro, afirmando que tais consagrações serão interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja e acarretarão nova excomunhão para os envolvidos. Historiadores da religião enfatizam que a excomunhão é um evento de extrema raridade, ocorrendo poucas vezes por século.

Essa postura do grupo tradicionalista é particularmente relevante no pontificado do Papa Francisco, conhecido por suas inclinações progressistas e pela busca por uma Igreja mais inclusiva. A intransigência da Fraternidade, que não dá sinais de recuo na sua recusa em aceitar o Concílio Vaticano II, coloca o Vaticano em uma posição delicada. Tudo indica que a Santa Sé manterá sua exigência de aceitação do concílio como condição para a anuência papal, o que, provavelmente, levará à excomunhão dos bispos, sacerdotes e dos futuros bispos envolvidos nas ordenações de 1º de julho. Este embate sublinha a persistência de um choque ideológico fundamental dentro do catolicismo.

Perspectivas sobre a situação canônica

Apesar de sua situação canônica irregular, a FSSPX e outros grupos tradicionalistas que não aceitam o Vaticano II ainda são considerados católicos pela Santa Sé, que tem mantido esforços para uma possível reconciliação. No entanto, a recusa em ceder sobre questões doutrinárias centrais mantém a Fraternidade à margem da plena comunhão.

A livraria da capela em São Paulo, onde folhetos de orações pelos novos bispos esgotaram rapidamente, também oferece livros que refletem a visão de mundo do grupo. Entre as obras à venda, títulos como “1492: O fim da Barbárie, Começo da Civilização na América”, que defende a colonização espanhola, e “A Inquisição, Um Tribunal de Misericórdia”, que revisita criticamente a história dos tribunais religiosos medievais, indicam uma leitura particular da história e da doutrina católica. A próxima etapa deste confronto doutrinário e de poder será crucial para o futuro da relação entre o Vaticano e os setores ultraconservadores da Igreja.

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