Nova pesquisa sugere uma forte ligação entre a qualidade da gordura na dieta e a probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2.
As gorduras saturadas, especialmente aquelas abundantes em ácido palmítico – o ácido graxo saturado predominante na alimentação americana – demonstram prejudicar a capacidade do organismo de reagir à insulina.
Em contraste, as gorduras monoinsaturadas, que contêm alto teor de ácido oleico (presente no azeite de oliva, por exemplo), mostram-se eficazes na proteção contra a resistência à insulina, conforme apontado pelo estudo.
Tanya Freirich, nutricionista em Charlotte, Carolina do Norte, destacou que o ácido palmítico está presente em produtos como carnes, laticínios, manteiga de cacau e é um componente do óleo de palma, usado em margarinas, cereais, doces, panificados e fast food. A especialista não integrou o estudo.
Já o ácido oleico, segundo Freirich, é encontrado em maior concentração no azeite de oliva, óleo de canola, nozes, sementes de girassol, ovos, azeitonas e abacates, além de ocorrer em carnes (bovina, de frango, suína), leite, queijo e massas.
O levantamento científico foi divulgado na revista Trends in Endocrinology & Metabolism e teve como líderes pesquisadores da Universidade de Barcelona, juntamente com a Área CIBER para Diabetes e Doenças Metabólicas Associadas (CIBERDEM), na Espanha.
Os achados indicam que a qualidade da gordura consumida pode ter um peso maior do que a quantidade geral no que diz respeito à saúde metabólica e ao risco de desenvolver diabetes.
Essa descoberta reforça a compreensão de que hábitos alimentares ricos em gorduras monoinsaturadas, como os observados na tradicional dieta mediterrânea, têm potencial para reduzir significativamente a incidência de diabetes tipo 2.
Estudo explora o risco de diabetes em combinações de alimentos ultraprocessados
O Dr. Manuel Vázquez-Carrera, pesquisador do estudo e integrante do Departamento de Farmacologia, Toxicologia e Química Terapêutica da Universidade de Barcelona, explicou que o ácido palmítico desencadeia múltiplos processos moleculares que comprometem a eficácia da insulina.
Vázquez-Carrera alertou que a presença excessiva de ácido palmítico pode levar ao acúmulo de subprodutos lipídicos nocivos no corpo, prejudicando a capacidade de resposta à insulina. Tal cenário complica o controle da glicemia e eleva o perigo de desenvolver resistência à insulina e diabetes tipo 2.
O pesquisador complementou que esse ácido também fomenta a inflamação, o estresse oxidativo, a disfunção mitocondrial e as respostas de estresse celular, fatores que contribuem para a resistência à insulina e a falha das células beta.
Por outro lado, o ácido oleico, considerado um pilar da dieta mediterrânea, não exibe tais efeitos deletérios, conforme apontado pelo cientista.
De fato, o ácido oleico é capaz de mitigar grande parte dos danos causados pelo ácido palmítico, ao favorecer o armazenamento de ácidos graxos em triglicerídeos inertes, salvaguardar a função mitocondrial e diminuir processos inflamatórios.
“É importante notar que todas as fontes de gordura presentes em nossa alimentação diária incluem uma combinação de ácidos graxos saturados e insaturados”, pontuou o especialista.
Freirich reforçou que a revisão alinha-se a estudos prévios que defendem a inclusão do azeite na alimentação devido aos seus benefícios metabólicos.
A nutricionista observou que, confirmando dados anteriores, o consumo de gorduras saturadas está ligado a certas alterações metabólicas desfavoráveis.
A profissional de nutrição ressaltou que, devido à complexidade dos alimentos e das dietas, há uma intersecção entre os itens que possuem ambos os tipos de ácidos graxos.
Ela explicou que tanto o ácido palmítico quanto o ácido oleico podem estar presentes no azeite, em produtos de panificação e em alimentos processados, mas em proporções distintas. “Todas as fontes de gordura em nossa dieta contêm uma mistura de ácidos graxos saturados e insaturados”, completou.
Entenda as limitações e desafios do estudo sobre gorduras
Vázquez-Carrera destacou que as conclusões apresentadas resultam de uma ampla revisão de vários estudos — experimentais, clínicos e epidemiológicos —, e não de um ensaio clínico isolado.
Ele mencionou que uma limitação significativa é o fato de que grande parte das evidências mecanísticas foram obtidas a partir de culturas de células e experimentos com animais.
“Embora esses trabalhos ofereçam dados cruciais sobre como certos ácidos graxos influenciam a sinalização da insulina, são imprescindíveis mais pesquisas de intervenção em seres humanos para comprovar a extensão desses mecanismos no cotidiano alimentar”, afirmou.
Ademais, muitos dos estudos com participantes humanos que fizeram parte da revisão fundamentaram-se em autorrelatos sobre a ingestão alimentar, o que pode gerar imprecisões nos dados.
Vázquez-Carrera acrescentou que outro obstáculo reside no consumo de alimentos com misturas complexas de ácidos graxos e compostos bioativos, e não de ácidos graxos isolados. “Assim, torna-se desafiador isolar completamente a contribuição individual de cada ácido graxo em populações que seguem dietas normais”, disse.
Orientações nutricionais para melhorar a saúde metabólica
Segundo Vázquez-Carrera, as conclusões da revisão parecem validar as diretrizes dietéticas vigentes, que incentivam a troca de parte das gorduras saturadas por gorduras insaturadas na alimentação.
“Essa abordagem implica em priorizar dietas abundantes em azeite extra virgem, nozes, sementes, leguminosas, vegetais, frutas e peixes, enquanto se restringe o consumo exagerado de alimentos com alto teor de gorduras saturadas, principalmente os ultraprocessados”, orientou o pesquisador.
O pesquisador enfatizou que a revisão não indica que um único nutriente, de forma isolada, determine o risco de desenvolvimento de diabetes.
“Ao contrário, a manutenção de um peso corporal adequado, a prática regular de atividades físicas e a adesão a um regime alimentar equilibrado, como a dieta mediterrânea, persistem como táticas essenciais na prevenção da resistência à insulina e do diabetes tipo 2”, concluiu.
Vázquez-Carrera notou que o diabetes tipo 2 progride ao longo de muitos anos, com a influência significativa de fatores genéticos, hábitos de vida e condições ambientais.
Para o pesquisador, aprimorar a qualidade da gordura ingerida pode representar uma estratégia eficaz na diminuição do risco de diabetes tipo 2.
Erin Palinski-Wade, nutricionista de Nova Jersey que não integrou a revisão, ofereceu uma orientação prática: “Uma sugestão simples para os consumidores é trocar com maior frequência alimentos ricos em gordura saturada por opções abundantes em gorduras benéficas para o coração, como azeite de oliva, nozes e abacates, visando um melhor controle do açúcar no sangue e da saúde metabólica.”
Especialistas recomendam que indivíduos com maior propensão a desenvolver diabetes tipo 2 busquem aconselhamento de um profissional de saúde para receber orientações individualizadas sobre nutrição, atividade física e outras estratégias preventivas.

