A taxa de desemprego no Brasil alcançou seu ponto mais baixo para o mês de maio desde o início da série histórica em 2012, consolidando um cenário de mercado de trabalho aquecido no país. O índice marcou 5,6% no trimestre encerrado em maio, registrando uma leve queda em relação aos 5,8% do período anterior, de fevereiro. Este resultado veio dentro das expectativas do mercado financeiro. No mesmo período do ano passado, a taxa de desocupação havia sido de 6,2%.
Queda recorde na subutilização da força de trabalho preocupa economistas
Além da retração do desemprego, um outro indicador importante também atingiu um recorde histórico, apontando para um esgotamento do contingente de trabalhadores disponíveis no país. A chamada taxa de subutilização da força de trabalho, que engloba pessoas que gostariam de trabalhar mais, os desempregados e aqueles que desistiram de procurar emprego, caiu para 13,3%.
Segundo analistas, este patamar é o menor desde 2012, sinalizando que o mercado está absorvendo a mão de obra possível. Este grupo, que já representou quase 30% da força de trabalho em 2021, auge da pandemia, tem apresentado uma queda contínua, indicando um esgotamento do “estoque” de trabalhadores disponíveis para o mercado. “Isso justifica estar ficando mais escassa a mão de obra”, pontua William França, analista da pesquisa do IBGE, que adiciona a inevitável pressão sobre o custo da mão de obra. As condições de trabalho e a qualidade das ofertas precisarão ser aprimoradas para atrair esses profissionais.
João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre, complementa que parte desse contingente, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, está na informalidade e precisa de maior qualificação para ser absorvida pelo setor formal. Outra parcela significativa é composta por pessoas que desistiram de procurar uma vaga, necessitando de políticas públicas específicas de incentivo para reingressarem no mercado.
Mercado aquecido intensifica pressão sobre inflação e juros
A manutenção de um mercado de trabalho tão aquecido, beirando o pleno emprego, acende um alerta entre economistas sobre seus possíveis reflexos na inflação e na política monetária do Banco Central. A disputa por mão de obra tende a impulsionar os salários, criando um canal de pressão sobre os preços ao consumidor e, consequentemente, sobre a inflação geral da economia.
Especialistas como João Mário de França e Marcelo Fonseca, economista-chefe do Grupo CVPAR, concordam que a economia brasileira já opera além de sua capacidade potencial. Esse cenário dificulta cortes mais agressivos na Taxa Selic, mesmo com o Banco Central já tendo iniciado o ciclo de redução dos juros. A expectativa é que a inflação se mantenha próxima ao teto da meta estabelecida, hoje em 4,5%, acima do centro de 3%.
Para Fonseca, a resiliência inflacionária é consequência de uma forte expansão fiscal, que mantém a economia superaquecida. Essa dinâmica contrapõe os esforços do Banco Central, que utiliza a taxa de juros como instrumento para desacelerar o crescimento econômico e controlar a elevação dos preços, resultando em um dilema complexo para a política econômica nacional.
Fatores impulsionam empregabilidade mesmo com juros altos
Mesmo diante de juros ainda elevados, fixados em 14,25% ao ano, o mercado de trabalho brasileiro apresenta resiliência, conforme aponta o pesquisador João Mário de França, do FGV Ibre. Diversos fatores combinados contribuem para essa dinâmica de crescimento da ocupação, desafiando a lógica de desaceleração que a taxa Selic normalmente imporia.
- O avanço na formalização de contratos de trabalho.
- A valorização consistente do salário mínimo.
- Programas governamentais de transferência de renda, que estimulam o consumo.
- O peso preponderante do setor de serviços, responsável por mais de 70% da economia nacional.
- Estímulos fiscais concedidos pelos governos federal e estaduais, muitas vezes intensificados em ano eleitoral.
Esses vetores, segundo França, atuam em uma direção oposta à estratégia do Banco Central de conter a atividade econômica pela taxa de juros. Cria-se, assim, uma complexa interação entre políticas fiscais, que visam o crescimento e o bem-estar social, e a política monetária, focada no controle inflacionário.
Setor público lidera criação de novos postos, impactando rendimento médio
Entre março e maio, o país registrou um acréscimo de 558 mil pessoas empregadas, elevando o contingente total de ocupados para 102,7 milhões de trabalhadores. No entanto, uma parcela significativa desse crescimento veio do setor público, que absorveu cerca de 455 mil novos postos de trabalho. Ao mesmo tempo, o número de pessoas buscando emprego permaneceu estável em 6,1 milhões.
Muitos desses novos profissionais no setor público foram alocados em escolas, em contratos temporários e sem carteira assinada, conforme detalhado por William França, analista do IBGE. Este movimento é comum em determinados períodos, quando a rede de ensino aumenta suas contratações para atender às demandas educacionais.
A entrada desses trabalhadores com salários geralmente inferiores à média da categoria teve um reflexo no rendimento médio mensal do setor público. Houve uma redução de 3,1%, o equivalente a R$ 172, já descontada a inflação. Apesar disso, o rendimento médio real de todos os trabalhadores do país permaneceu estatisticamente estável, em R$ 3.726, representando um aumento de 4% em relação ao mesmo período do ano passado.
O analista do IBGE observa que, embora as empresas não estejam mais realizando desligamentos em larga escala, o aumento expressivo de novas contratações no setor privado ainda não se materializou de forma significativa. O mercado, entretanto, se organiza para um segundo semestre tradicionalmente mais dinâmico e aquecido da economia.

