Câmara aprova projeto que endurece punição contra interdição abusiva de idosos e protege bens

Deputado Felipe Carreras (PSB-PE) fala em comissão da Câmara dos Deputados

Deputado Felipe Carreras (PSB-PE) fala em comissão da Câmara dos Deputados

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados deu um passo significativo na proteção dos direitos dos idosos ao aprovar um projeto de lei que estabelece novas sanções civis e penais. A iniciativa visa combater tentativas fraudulentas ou abusivas de interdição, um processo que pode privar pessoas idosas de sua autonomia e controle sobre seus bens. A medida busca blindar um dos grupos mais vulneráveis da sociedade contra exploração.

O objetivo central da proposta é impedir que indivíduos, sejam familiares ou pessoas de confiança, se utilizem de ações judiciais de interdição para assumir o controle indevido do patrimônio e dos rendimentos de idosos que, apesar da idade, mantêm plena capacidade de gerir suas vidas. Esta é uma preocupação crescente, dado o aumento de casos onde a curatela é empregada de forma desvirtuada, focando em interesses financeiros em vez do bem-estar do interditado.

Medida visa proteger autonomia e patrimônio de idosos

A legislação proposta reforça a importância de que a curatela seja aplicada apenas como uma medida de caráter excepcional. O relator do projeto, deputado Felipe Carreras (PSB-PE), enfatizou que o propósito único da curatela deve ser o de oferecer apoio a indivíduos que genuinamente não possuem a capacidade de praticar os atos da vida civil de forma autônoma. Ele recomendou a aprovação de um substitutivo da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa ao Projeto de Lei 464/26, originalmente apresentado pelo deputado Eriberto Medeiros (PSB-PE).

A preocupação com a utilização indevida da interdição reflete uma realidade onde conflitos patrimoniais envolvendo pessoas idosas se tornaram mais frequentes. Segundo Carreras, essa situação “evidencia a necessidade de aperfeiçoamento dos instrumentos de tutela jurídica” para prevenir o uso abusivo da curatela. A proposta visa fechar brechas que permitem a apropriação de bens e rendimentos, garantindo que a dignidade da pessoa idosa seja preservada acima de qualquer interesse financeiro.

Conflitos patrimoniais impulsionam necessidade de curatela excepcional

A avaliação do relator aponta que o emprego da curatela com finalidade puramente patrimonial ou sucessória constitui um “evidente desvio de finalidade”. Tal prática, de acordo com o deputado, fere diretamente “direitos fundamentais relacionados à liberdade, à autonomia privada, ao patrimônio e à dignidade da pessoa humana”. Essa perspectiva sublinha a gravidade do problema e a urgência de uma resposta legislativa que reforce o caráter protetivo e não exploratório da interdição.

O crescente número de disputas judiciais envolvendo heranças e bens de pessoas de idade avançada tem acendido um alerta nas esferas legislativas e jurídicas. O Projeto de Lei 464/26, agora aprovado na CCJ, busca estabelecer um marco legal mais robusto para diferenciar a curatela legítima, destinada a amparar quem precisa, daquela motivada por interesses escusos. A medida é um esforço para coibir a manipulação legal e proteger o direito dos idosos de gerir sua própria vida e bens.

Sanções civis e penais mais rigorosas para fraudadores

O texto aprovado introduz severas consequências para aqueles que tentarem obter a curatela de um idoso de má-fé. Entre as principais punições, destacam-se:

  • Exclusão da sucessão: A tentativa de curatela por má-fé se torna motivo para excluir o herdeiro da sucessão, resultando na perda do direito à herança.
  • Aumento da pena por apropriação: O Estatuto da Pessoa Idosa é alterado para elevar a punição nos casos de apropriação ou desvio de bens. A pena para esse crime, que atualmente varia de um a quatro anos de reclusão e multa, será aumentada de um terço até a metade caso seja praticado mediante a instauração de um processo de curatela abusiva ou com base em motivos falsos.

Além das sanções mencionadas, a proposta também moderniza termos legais e confere ao juiz a capacidade de identificar o dolo, ou seja, a intenção de enganar, de forma mais ágil durante o processo. Essa agilidade é crucial para evitar que a lentidão dos trâmites judiciais acabe beneficiando herdeiros ou interessados que agem de má-fé, prolongando a injustiça e o sofrimento da pessoa idosa. A ideia é que a justiça seja não apenas justa, mas também célere na proteção dos mais vulneráveis.

Próximos passos da tramitação legislativa

Apesar da importante aprovação na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, o projeto de lei ainda tem um caminho a percorrer antes de se tornar lei. A proposta agora segue para análise do Plenário da Câmara dos Deputados, onde será debatida e votada por todos os parlamentares. Após a aprovação na Câmara, o texto precisará ser encaminhado ao Senado Federal, onde passará por um novo processo de análise e votação. Somente após a aprovação em ambas as casas do Congresso Nacional e a sanção presidencial é que a medida entrará em vigor, transformando-se em lei.

A tramitação legislativa pode levar tempo, mas a aprovação na CCJ representa um avanço significativo na garantia dos direitos dos idosos e na coibição de práticas abusivas. A expectativa é que o projeto receba o apoio necessário para se tornar uma ferramenta eficaz na defesa da dignidade e autonomia de um segmento crescente da população brasileira, que merece toda a proteção legal contra qualquer forma de exploração ou manipulação.

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