O avanço das apostas esportivas e jogos digitais no Brasil já impacta a Previdência Social, com um notável aumento nos benefícios. Dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação revelam que os auxílios por incapacidade temporária, destinados a pessoas com diagnóstico de ludopatia – transtorno do jogo compulsivo –, concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cresceram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025.
Um total de 276 benefícios foram concedidos por razões ligadas ao transtorno nesse intervalo. Antes da ampla difusão das apostas online, concessões dessa natureza eram incomuns. Entre os anos de 2015 e 2022, a média anual em todo o país não superava 11 liberações, segundo informações junto ao INSS.
Este acréscimo de benefícios ocorre simultaneamente à veloz expansão das plataformas de apostas esportivas e cassinos virtuais, as quais conquistaram milhões de novos usuários no território nacional nos últimos tempos.
Auxílio-doença por ludopatia não é concedido a qualquer apostador
É fundamental esclarecer que o aumento nas concessões não implica que qualquer indivíduo que perca dinheiro com apostas esteja apto a receber um benefício previdenciário.
Este apoio é direcionado exclusivamente a trabalhadores assegurados pelo INSS que desenvolvem ludopatia – uma condição médica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – e se encontram temporariamente incapacitados para suas funções laborais.
Para ter direito ao benefício, o solicitante precisa atender aos critérios previdenciários e comprovar, com laudos médicos e a perícia do INSS, que o transtorno de fato impede a realização das atividades profissionais.
Ou seja, a mera existência do diagnóstico não assegura o afastamento do trabalho. A análise crucial foca na incapacidade de exercer a profissão causada pela enfermidade.
Compreendendo a ludopatia: características e sintomas
A ludopatia se manifesta principalmente pela inabilidade de controlar o desejo intenso de fazer apostas.
Os sinais mais evidentes do transtorno incluem:
- Impulso por apostar somas cada vez mais elevadas;
- Esforços repetidos e sem sucesso para interromper a prática;
- Sentimentos de ansiedade ou irritação quando impedido de jogar;
- Ocultação das apostas através de mentiras;
- Deterioração das finanças pessoais e bens;
- Danos às relações com a família e no ambiente de trabalho.
Profissionais da saúde mental indicam que a ludopatia pode desencadear quadros de depressão, ansiedade, isolamento social e, em situações extremas, levar à ideação suicida.
Ainda há subnotificação de casos de ludopatia
Pesquisadores da área alertam que a cifra de 276 benefícios provavelmente constitui apenas uma fração da dimensão real do problema.
Tal fato se deve ao desconhecimento, por parte de muitos trabalhadores, de que a ludopatia pode ser enquadrada como motivo para incapacidade temporária. Soma-se a isso o diagnóstico frequentemente tardio e as barreiras históricas que as enfermidades mentais encontram para reconhecimento nas perícias do INSS.
O INSS e o Ministério da Previdência foram procurados para se manifestarem sobre o aumento dos casos, porém, não houve posicionamento a respeito de ações específicas para lidar com o crescimento dos diagnósticos de jogo compulsivo.
O vínculo entre a expansão das apostas e o aumento dos afastamentos
A súbita ascensão dos afastamentos por ludopatia coincide com o período em que as plataformas de apostas online transcenderam um nicho restrito, inserindo-se na rotina diária de milhões de cidadãos brasileiros.
Fatores como a regulamentação do segmento, a intensa veiculação de publicidade durante eventos esportivos e a ampla adoção de aplicativos tiveram papel fundamental na ampliação do acesso a essas plataformas.
Enquanto as companhias do setor começaram a movimentar cifras bilionárias, intensificaram-se também os alertas de médicos, pesquisadores e entidades governamentais acerca dos severos impactos do jogo compulsivo na saúde mental da população.
O Ministério Público Federal, por sua vez, já manifestou apoio à destinação de mais verbas ao Sistema Único de Saúde (SUS) para ações de prevenção e tratamento da ludopatia. O argumento é que a proliferação das apostas demanda uma rede pública mais robusta para acolher os pacientes com o transtorno.
