‘Pague o que deve’: Cuiabá reage a manobra do Corinthians para derrubar transfer ban

Julio Cesar, Osmar Stábile e Marcelo Paz

Julio Cesar, Osmar Stábile e Marcelo Paz - Rodrigo Gazzanel/Agência Corinthians

Clube paulista enfrenta dificuldades para reverter a suspensão de seis meses imposta pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) para registro de novos jogadores, em meio a uma complexa crise financeira.

A penalidade foi aplicada ao Corinthians no último sábado, 18 de julho, pela entidade da CBF, devido ao não cumprimento do pagamento de uma das 24 prestações, avaliadas em aproximadamente R$ 8 milhões, referentes a um acordo coletivo estabelecido em abril de 2025.

Com dívidas pendentes até mesmo com seus próprios atletas, o clube alvinegro submeteu uma proposta à CNRD para anular o “transfer ban” nacional. A sugestão inclui quitar a parcela que venceu em 17 de julho até o dia 31 de agosto e antecipar o pagamento de 17 de outubro, apresentando a ação como um gesto de “boa-fé”.

É relevante notar que o segundo período de transferências para o futebol nacional será encerrado em 11 de setembro.

Uma das justificativas apresentadas foi a diminuição da receita, atribuída à paralisação do calendário nacional para a realização da Copa do Mundo.

No total, as obrigações financeiras do Corinthians junto à CNRD alcançam R$ 75 milhões, já com as devidas correções, e estão divididas em parcelas trimestrais a serem pagas ao longo de seis anos.

A solicitação do Corinthians à CNRD provocou descontentamento entre os credores, com destaque para o Cuiabá. O time mato-grossense, que tinha aproximadamente R$ 18 milhões a receber da equipe paulista pela aquisição do volante Raniele antes do começo dos pagamentos, emitiu uma declaração após a petição do clube paulista ao órgão da CBF.

Em um documento protocolado na Câmara Nacional de Resolução de Disputas, o clube do Mato Grosso declarou: “Manter a sanção enquanto não sobrevier o efetivo pagamento não causa qualquer prejuízo indevido ao Requerente. Basta que o devedor pague o que deve, na forma e no prazo a que se obrigou, para que a questão se resolva. O que não se admite é a inversão da ordem natural das coisas, com a liberação do devedor antes e independentemente do adimplemento”.

Em uma avaliação contundente sobre a conduta do Corinthians no processo, o Cuiabá argumenta que o time “busca revestir seu inadimplemento de um verniz de boa-fé, alegando que comunicação prévia da impossibilidade de pagamento e a proposta de quitação conjunta configurariam conduta leal para com os credores”.

“Comunicar previamente que não se pagará não equivale a pagar. A obrigação assumida pelo Requerente perante esta Câmara e perante os credores é de adimplemento pontual, e não de mera notificação de futuro inadimplemento”, complementou a manifestação do clube, acrescentando que este recente atraso “não é um episódio isolado”.

A manifestação do Cuiabá reforça que, “como já reconhecido nos próprios autos, o Requerente [Corinthians] atrasou parcela em outubro de 2025, tendo esta Câmara, à época, condicionado a liberação à alteração de comportamento. O que agora se verifica é a repetição do mesmo padrão: novo vencimento, novo inadimplemento, nova tentativa de postergar a obrigação”. O clube adversário vai além, afirmando que o Corinthians “trata-se de devedor contumaz, cuja postura reiterada de inadimplemento não pode ser tratada como mero contratempo operacional”.

Além do clube mato-grossense, o acordo de pagamentos contempla débitos com diversos agentes de jogadores, incluindo André Cury, Paulo Pitombeira e Marcelo Robalinho, assim como com o ex-meio-campista Jadson e atletas atualmente em atividade, como o defensor Fabian Balbuena e o atacante Roger Guedes.

Adicionalmente, o Corinthians possui pendências com outras agremiações esportivas, como o Grêmio Osasco e a Sociedade Esportiva Palmeirinha.

“A boa-fé que se exige do devedor em um plano coletivo se demonstra com o pagamento, e não com sucessivas propostas de reescalonamento apresentadas às vésperas de cada vencimento”, diz a declaração.

Em sua manifestação oficial, o Cuiabá solicitou à CNRD a manutenção da penalidade imposta ao Corinthians, que consiste na proibição de registrar novos atletas por um período de seis meses.

O clube mato-grossense também pleiteia, entre outras medidas como a incidência de juros sobre a parcela em atraso, que “caso se entenda pela possibilidade de suspensão da sanção, que tal suspensão somente produza efeitos após a comprovação do efetivo ingresso dos valores na esfera dos credores, e não mediante mera promessa de pagamento futuro”.

Para conseguir antecipar o encerramento de uma sanção anterior da CNRD, o Corinthians já havia enfrentado dificuldades após atrasar pagamentos em outubro de 2025. Naquela ocasião, a equipe alvinegra utilizou a mesma tática de antecipar o valor da próxima parcela para persuadir o órgão, obtendo sucesso somente em janeiro de 2026.

Adicionalmente à penalidade no âmbito nacional, o Corinthians possui mais dois bloqueios impostos pela Fifa. O primeiro refere-se ao não pagamento de R$ 7,7 milhões ao Philadelphia Union, dos Estados Unidos, pela contratação do meio-campista José Martínez.

O segundo bloqueio se deu por uma condenação de dívidas ligadas a três multas arbitradas pela Fifa, envolvendo os atletas José Martínez, Charles e Talles Magno.

Outras duas sanções estão potencialmente em processo de imposição pela Fifa. Uma delas está relacionada ao volante Charles, com o clube paulista devendo aproximadamente R$ 6 milhões ao Midtjylland, da Dinamarca, pela compra do jogador.

A agremiação dinamarquesa, inclusive, já teria a prerrogativa de aplicar um novo “transfer ban” ao Corinthians, mas optou por não fazê-lo até o momento, o que configuraria uma terceira punição.

Finalmente, em 1º de junho, o Corinthians foi condenado a pagar USD 850 mil, o equivalente a aproximadamente R$ 4,3 milhões, pela extensão do empréstimo de Talles Magno, do New York City FC.

Com a adição de juros anuais de 15% a partir de 2 de agosto de 2025 e uma multa de USD 90 mil, o montante da dívida já excede os R$ 5 milhões.

Detalhes das dívidas do Corinthians em acordo coletivo com a CNRD

  • Link Assessoria Esportiva: R$ 19 milhões + 350 mil euros
  • Cuiabá Esporte Clube: R$ 18 milhões
  • Jadson: R$ 13 milhões
  • Balbuena: R$ 4,4 milhões
  • Think Ball: R$ 3,5 milhões
  • José Parrales: R$ 2,5 milhões
  • All Soccer Marketing Esportivo: R$ 1,7 milhão
  • Grêmio Osasco: R$ 1,6 milhão
  • Renato Bittar Arrellaga: R$ 1,5 milhão
  • Ferreira Representações Profissionais: R$ 1,4 milhão
  • FMS Gestão Esportiva: R$ 1,4 milhão
  • Daisy Valeria Ferreira Brandino: R$ 1,4 milhão
  • Criciúma Esporte Clube: R$ 1 milhão
  • DB Sports: R$ 1 milhão
  • Magnitude Brazil Esportes: R$ 600 mil
  • Manuel Damásio Garcia: R$ 285 mil
  • Left Sports do Brasil: R$ 250 mil
  • Sociedade Esportiva Palmeirinha: R$ 48 mil
  • Esporte Clube União Suzano: R$ 42 mil
Thiago Lemos: Thiago Lemos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2020: Formação: Administração.