Chimpanzés e linguagem: por que a ciência se arrependeu dos experimentos com sinais

Chimpanzé Foto: Chimpanzé - Emily Marie Wilson/shutterstock.com

A história dos dois últimos chimpanzés remanescentes de pesquisas pioneiras sobre linguagem de sinais, Tatu e Loulis, continua a fascinar e levantar discussões. Vivendo hoje em um santuário no Canadá, esses primatas representam o desfecho de um período de grande entusiasmo científico, mas também de complexos dilemas éticos que levaram muitos pesquisadores a reavaliar a abordagem com animais. A capacidade de comunicação desses animais, que dominam um vocabulário considerável em Língua Americana de Sinais (ASL), contrasta com o encerramento dos ambiciosos projetos que os originaram.

A busca pela comunicação e os experimentos iniciais

A curiosidade sobre a possibilidade de animais se comunicarem utilizando a linguagem humana cativa cientistas e linguistas há séculos. Na década de 1960, a investigação ganhou um novo ímpeto com o surgimento de estudos sérios focados em chimpanzés, primatas que possuem uma proximidade genética notável com os humanos. A esperança era desvendar se a linguagem, em sua essência, era uma característica exclusiva da espécie humana ou se outros animais poderiam dominá-la sob as condições corretas.

Os pioneiros nesta área foram os professores de psicologia Allen e Beatrix Gardner, da Universidade de Nevada, em Reno. Eles tinham a convicção de que os chimpanzés poderiam aprender a linguagem humana se fossem criados em um ambiente adequado. Em vez de focar na fala, que é anatomicamente difícil para os chimpanzés, os Gardners optaram por ensiná-los a Língua Americana de Sinais, um método que se mostrou promissor.

O pioneirismo de Washoe na linguagem de sinais

Em 1966, os Gardners adotaram um filhote de chimpanzé, Washoe, que havia sido trazido da África Ocidental pela Força Aérea dos EUA para fins de pesquisa. Washoe foi criada de forma muito similar a uma criança humana, aprendendo hábitos como usar o vaso sanitário e brincar com bonecas. Ela rapidamente demonstrou uma habilidade impressionante para a linguagem de sinais, chegando a aprender 245 palavras antes de seu falecimento em 2007, na Universidade Central de Washington. Sua história mobilizou o mundo acadêmico e despertou o interesse de outros cientistas.

As experiências foram estendidas a outros quatro chimpanzés: Moja, que expressava grande interesse por pintura; Dar, conhecido por gostar de usar chapéus e examinar máquinas; Pili, que infelizmente morreu jovem; e Tatu. Mais tarde, a supervisão desses projetos foi transferida para Roger Fouts e sua esposa, Deborah Fouts, ex-alunos dos Gardners, que também cuidaram de Loulis, o único chimpanzé que aprendeu a linguagem de sinais diretamente de outros chimpanzés.

Os dilemas éticos e a controvérsia científica

Apesar do sucesso aparente dos primeiros experimentos, a década de 1970 trouxe uma nova onda de questionamentos, especialmente com os estudos envolvendo a gorila Koko e o chimpanzé Nim Chimpsky. Os métodos aplicados a esses animais geraram debates acalorados sobre a verdadeira compreensão da linguagem por parte dos primatas. Críticos argumentavam que a “linguagem” observada poderia ser mais uma forma de condicionamento operante do que uma capacidade genuína de uso semântico e sintático, como nos humanos.

Este período marcou um ponto de virada na primatologia, levantando sérias preocupações éticas sobre a criação de animais selvagens em ambientes tão artificializados. A incapacidade de reintegrar esses primatas em seus habitats naturais ou em grupos sociais complexos fora do laboratório tornou-se um dilema. Muitos cientistas passaram a questionar se os benefícios do conhecimento adquirido justificavam o custo de uma vida inteira em cativeiro e a artificialidade de sua existência. O “arrependimento” de alguns pesquisadores reflete essa reavaliação profunda sobre os limites e as responsabilidades da ciência em relação à vida animal.

A vida atual de Tatu e Loulis no santuário

Tatu e Loulis, os últimos sobreviventes desses experimentos iniciais, passaram grande parte de suas vidas em instituições de pesquisa em Oklahoma e Washington. Desde 2013, eles residem no Canadá, em um santuário administrado pela organização sem fins lucrativos Fauna Foundation, onde continuam a usar a linguagem de sinais com seus tratadores. Sua rotina atual oferece um contraste com o ambiente de laboratório, priorizando o bem-estar e a continuidade de suas interações.

Os dois chimpanzés desenvolveram vocabulários distintos e preferências comunicativas:

  • Tatu: A fêmea, com 49 anos, é a mais expressiva, utilizando 215 palavras em ASL. Suas solicitações mais frequentes são por alimentos como queijo, café e chá.
  • Loulis: O macho, de 47 anos, domina 78 palavras em ASL. Ele frequentemente pede aos tratadores para brincar de pega-pega, demonstrando um lado mais lúdico em sua comunicação.

O legado duradouro na compreensão da inteligência animal

A história de Washoe, Tatu, Loulis e outros chimpanzés que aprenderam a linguagem de sinais deixou um legado complexo, mas inegável, para a ciência. Embora o entusiasmo inicial por uma “linguagem humana” em animais tenha sido moderado por rigorosas análises e debates éticos, esses estudos expandiram significativamente a compreensão sobre a cognição e a capacidade de comunicação dos primatas.

As pesquisas pioneiras com linguagem de sinais desafiaram a visão antropocêntrica da linguagem, incentivando uma maior atenção à inteligência animal e às diversas formas de comunicação existentes na natureza. O desfecho desses projetos, com a reflexão sobre o impacto na vida dos animais e a mudança nas normas éticas, serve como um lembrete importante da responsabilidade da pesquisa científica. A existência de Tatu e Loulis hoje é um testemunho vivo desse percurso, marcando uma era de descobertas e reavaliações na relação entre humanos e outros grandes primatas.

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