Telescópio da NASA descobre queda drástica na criação de estrelas em Andrômeda

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Telescópio Espacial Hubble Foto: Telescópio Espacial Hubble - Paopano/shutterstock.com

Recentes análises publicadas na revista científica The Astrophysical Journal revelam que a galáxia de Andrômeda vem perdendo força na geração de novos corpos celestes ao longo dos últimos 500 milhões de anos. O levantamento, embasado em capturas feitas pelo Telescópio Espacial Hubble, da NASA, destaca que esse processo de enfraquecimento se tornou ainda mais agudo na janela dos 40 milhões de anos mais recentes.

Situada a uma distância de 2,5 milhões de anos-luz do nosso planeta, essa gigantesca estrutura espiral compartilha diversas características físicas com a Via Láctea. Como observar nossa própria galáxia de dentro é um desafio devido à densa poeira cósmica, a proximidade de Andrômeda e sua facilidade de visualização em céus escuros oferecem aos pesquisadores um espelho perfeito para entender a evolução de sistemas galácticos semelhantes ao nosso.

Metodologia utilizada para desvendar o passado do sistema estelar vizinho

Para chegar a essas constatações, os especialistas cruzaram bancos de dados de dois extensos mapeamentos realizados pelo equipamento orbital: o Panchromatic Hubble Andromeda Treasury e sua versão focada no hemisfério sul. A união desses dois catálogos permitiu varrer cerca de 66% de todo o disco galáctico com um nível de detalhamento sem precedentes, resultando na observação minuciosa de quase 200 milhões de astros individuais.

A cronologia do sistema foi montada a partir da observação do contraste entre corpos celestes jovens e velhos. Astros gigantescos e de vida curta emitem um brilho mais azulado, ao passo que os menores e mais duradouros apresentam tons avermelhados. Utilizando essa lógica, a equipe fatiou as capturas em milhares de blocos medindo 300 anos-luz cada, identificando que zonas ricas em tons azuis representam berçários recentes, o que permitiu traçar o ritmo histórico de nascimentos em cada setor.

O declínio contínuo na fabricação de novos corpos celestes

De acordo com Ben Williams, pesquisador da Universidade de Washington e um dos responsáveis pelo artigo, a medição individualizada funciona como um verdadeiro registro arqueológico da formação galáctica. O astrônomo enfatiza que apenas o Hubble possui a capacidade técnica de entregar uma nitidez espacial tão elevada cobrindo uma extensão territorial vasta o suficiente para viabilizar esse tipo de escrutínio.

Levantamentos anteriores já apontavam que a vizinha cósmica da Terra passou por um pico de proliferação estelar há aproximadamente 2 bilhões de anos, um evento que muito provavelmente foi desencadeado por uma colisão violenta com outra estrutura galáctica. Desde aquele ápice produtivo, no entanto, o ritmo de geração vem caindo ladeira abaixo.

A queda drástica na taxa de massas solares anuais

Os cálculos matemáticos da equipe mostram a evolução cronológica dessa queda de produtividade, evidenciando como o berçário cósmico foi perdendo força ao longo das eras:

  • Há 500 milhões de anos: o sistema fabricava o equivalente a uma massa solar inteira a cada doze meses.
  • Há 40 milhões de anos: esse volume despencou pela metade, registrando apenas meia massa solar anual.
  • Atualmente: a produtividade amarga um índice de cerca de 20% da massa do nosso Sol gerada por ano.

O mapeamento também conseguiu isolar geograficamente onde o apagão está acontecendo com maior intensidade. A maior parte das formações recentes se aglomera em uma espécie de anel posicionado a 32 mil anos-luz do núcleo galáctico, levando os cientistas a concluírem que a queda geral nos números é puxada pelo enfraquecimento específico dessa faixa circular.

Diferente do que se poderia imaginar, a pesquisa aponta que a escassez de matéria-prima para a ignição estelar não é a culpada pela paralisação. O cenário aponta para um processo de fadiga natural do próprio sistema, e não para a falta de nuvens de gás e poeira cósmica.

Tobin Wainer, principal autor do documento e também acadêmico da Universidade de Washington, utilizou uma analogia esportiva para ilustrar o momento atual da galáxia. Segundo ele, o comportamento observado é semelhante ao de um atleta após completar uma maratona, que inevitavelmente precisa parar para recuperar o fôlego.

O papel suspeito de uma galáxia satélite no fenômeno

A investigação foi além e buscou entender se a presença da galáxia anã M32 (Messier 32) teria alguma parcela de culpa nesse esfriamento. Apesar de visualmente estarem distantes cerca de 16 mil anos-luz no céu, a falta de precisão sobre a profundidade exata da M32 no espaço tridimensional ainda é um obstáculo para cravar que houve um encontro físico no passado.

Zhuo Chen, que também assina a autoria do levantamento pela Universidade de Washington, revelou que desvendar os mistérios de uma eventual colisão entre a M32 e a estrutura principal de Andrômeda foi um dos grandes motores que impulsionaram a criação deste projeto de pesquisa.

Analisando os registros do catálogo do hemisfério sul, ficou evidente que a vizinhança espacial mais próxima à M32 sofreu um freio na geração de estrelas muito mais severo do que o restante do disco. Os dados sugerem que essa anomalia regional teve início há cerca de 60 milhões de anos, um marcador temporal crucial para datar quando as duas estruturas podem ter se cruzado.

Embora Wainer adote cautela ao dizer que a ciência ainda não pode culpar a M32 de forma definitiva pela paralisação, o pesquisador é categórico ao afirmar que a galáxia menor está posicionada no local do crime e representa, sem dúvida, a principal suspeita do caso.

Próximos passos da exploração espacial com novos equipamentos

O cronograma de trabalho dos astrônomos prevê a continuidade da mineração do acervo do Hubble, cruzando essas informações orbitais com captações feitas por observatórios instalados na superfície terrestre para montar um quebra-cabeça ainda mais completo sobre o ciclo de vida do sistema.

Raja GuhaThakurta, cientista da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e coautor do texto, fez questão de exaltar o tesouro escondido nos arquivos de imagens antigas. Ele pontua que a relevância de Andrômeda reside no fato de ser próxima o bastante para permitir uma visão microscópica, mas distante o suficiente para entregar um panorama de toda a sua extensão.

A expectativa da comunidade astronômica agora se volta para o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, da NASA, cujo lançamento oficial está programado pela agência para maio de 2027. Com lentes capazes de enxergar em infravermelho uma área cem vezes maior que a do Hubble, o futuro instrumento conseguirá enquadrar todo o disco galáctico e seus arredores de uma só vez, permitindo catalogar centenas de milhões de novos astros em uma única varredura.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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